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Seminários reuniram educadores, escritores, gestores públicos e pesquisadores em torno da valorização da cultura afro-diaspórica, enquanto shows, cinema negro e música encerraram a noite do festival em São Paulo
Sexto dia do Festival AKWAABA debate educação antirracista, literatura negra e economia criativa como caminhos de transformação social
O Ministério da Cultura, por meio da Fundação Cultural Palmares, realiza em São Paulo o primeiro Festival AKWAABA, iniciativa que fortalece as conexões entre Brasil, África e diáspora africana a partir da cultura, da memória, da arte e da diplomacia cultural Sul-Sul. A proposta do festival é reunir países africanos e o Brasil em uma nova jornada de intercâmbio político-cultural, reafirmando o pan-africanismo, a ancestralidade e as contribuições históricas do continente africano para a formação da sociedade brasileira.
A realização do festival também dialoga com a fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a 6ª Teia Nacional, no Espírito Santo, quando defendeu que o Brasil deve fazer “todo esforço possível para pagar a dívida histórica com a África”. Nesse contexto, o AKWAABA surge como um marco cultural e político que projeta novos caminhos de cooperação afro-diaspórica para os próximos anos.
No sexto dia de programação, realizado nesta quarta-feira (27), o festival aprofundou debates sobre educação antirracista, literatura negra e economia criativa, reunindo pesquisadores, gestores públicos, escritores, artistas e representantes institucionais em uma extensa agenda de seminários e atividades culturais.
Ainda pela manhã, o painel “Os desafios do ensino da história e da cultura africana na Lei nº 10.639/2003” abriu a programação propondo uma reflexão sobre os avanços e obstáculos para a efetiva implementação da legislação que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas brasileiras.
O debate destacou a importância da educação como instrumento de enfrentamento ao racismo estrutural e reafirmou a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à valorização da ancestralidade africana e afro-brasileira no ambiente escolar.
Participaram do encontro o historiador Rafael Maximiniano, diretor de Educação e Formação Artística da Secretaria de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura; a educadora e escritora Sinara Rúbia; a pesquisadora Zizele Ferreira; a professora Giane da Silva Vargas; e Clélia Mara dos Santos, diretora de Políticas de Educação Étnico-Racial e Educação Escolar Quilombola do Ministério da Educação.
As discussões abordaram temas como formação docente, produção de materiais didáticos, representatividade negra nos currículos escolares, experiências pedagógicas afro-referenciadas e os desafios enfrentados pelas redes públicas de ensino na consolidação da educação para as relações étnico-raciais.
Durante a tarde, a programação seguiu com o painel “Literatura Negra”, dedicado à potência da escrita negra como ferramenta de memória, resistência, construção identitária e transformação social.
O encontro reuniu escritores, pesquisadores e agentes culturais para discutir o papel da literatura afro-diaspórica na ampliação de narrativas sobre pertencimento, ancestralidade e representatividade.
Participaram do debate Andressa Marques, coordenadora-geral do Plano Nacional do Livro e Leitura do Ministério da Cultura; o professor marfinense Koffi Tougbo; a escritora Calila das Mercês; a jornalista e pesquisadora Luciane Reis; e a escritora, atriz e dramaturga Cristiane Sobral.
As falas ressaltaram a literatura negra como território de preservação da memória coletiva e de enfrentamento aos silenciamentos históricos, além dos desafios enfrentados por autores negros no mercado editorial brasileiro.
Os participantes também discutiram políticas públicas de incentivo à leitura, democratização do acesso ao livro, fortalecimento de editoras independentes e a valorização das tradições orais negras como parte fundamental da construção do pensamento afro-diaspórico contemporâneo.
Encerrando os seminários do dia, o painel “Economia Criativa e Políticas Públicas Afirmativas para a População Negra e PNAB” debateu a cultura como vetor estratégico de desenvolvimento social, econômico e identitário.
A mesa reuniu Mariana Braga, chefe da Assessoria de Participação Social e Diversidade do Ministério da Cultura; Bianca Pereira, diretora de Políticas para Promoção da Igualdade Racial do Tocantins; Luiz Galina, diretor regional do Sesc São Paulo; Marcos Canetta, pesquisador e mestre em Gestão do Patrimônio Cultural; e o consultor e estrategista Paulo Rogério Nunes.
As discussões abordaram o fortalecimento da economia criativa negra, a ampliação do acesso de artistas e produtores culturais negros aos mecanismos de fomento e os impactos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) no incentivo à diversidade cultural e à democratização dos recursos públicos.
O painel destacou ainda como setores como audiovisual, moda, gastronomia, música, literatura, design e tecnologia vêm consolidando a cultura negra como espaço de inovação, geração de renda e fortalecimento de redes afro-diaspóricas no Brasil e no exterior.
A programação cultural da noite reforçou a diversidade artística do festival. Às 19h30, a cantora Ayana Amorim apresentou um repertório marcado por referências afro-brasileiras, sonoridades contemporâneas e influências da música popular negra, conectando ancestralidade e novas expressões musicais.
Na sequência, o DJ Nyack levou ao público uma apresentação baseada em hip hop, música negra global e cultura urbana, reafirmando a presença da diáspora africana nas pistas e na produção musical contemporânea brasileira.
O cinema negro também integrou a programação da noite com a exibição do filme “Você Está no Caminho Certo” (2026), dirigido por Marcos Corrêa, e do longa “Revolta dos Búzios” (2024), do cineasta Antonio Olavo. O filme resgata a história da Revolta dos Búzios, movimento de caráter popular e antiescravista ocorrido na Bahia no final do século XVIII, conectando memória, resistência negra e luta por liberdade, temas que dialogam diretamente com os debates propostos pelo AKWAABA.
Entre reflexões, encontros, arte e celebração, o sexto dia do Festival AKWAABA reafirmou o evento como um espaço de construção coletiva entre África, Brasil e diáspora, fortalecendo a cultura negra como instrumento de memória, reparação, pertencimento e futuro.
Henrique Bertoldo