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Festival AKWAABA transforma o Dia da África em um grande encontro de memória, diplomacia afro-cultural, ancestralidade e debates sobre reparação histórica no Brasil.
AKWAABA celebra o Dia da África com debates internacionais, diplomacia afro-cultural e grandes encontros no quarto dia de festival
O quarto dia do Festival AKWAABA foi marcado por uma das datas mais simbólicas para os povos africanos e afro-diaspóricos em todo o mundo: o Dia da África, celebrado em 25 de maio. Em meio à programação do festival, realizado pela Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, a data reforçou o próprio significado do evento, um espaço de encontro entre África, Brasil e diáspora, construído a partir da arte, da ancestralidade, da memória e da cooperação internacional.
O AKWAABA integra a agenda nacional de valorização das culturas afro-brasileiras e afro-diaspóricas e reafirma o compromisso do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura e da Fundação Cultural Palmares, com políticas de fortalecimento da cultura negra, da memória e da promoção da igualdade racial. O festival também acontece em um momento histórico de reconstrução das políticas culturais no Brasil, alinhado ao fortalecimento das relações internacionais com países africanos e à presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na TEIA Nacional das Culturas.
Logo pela manhã, a programação começou com a solenidade de celebração ao Dia da África e abertura oficial do Seminário Internacional do Festival AKWAABA. A cerimônia contou com uma fala potente do presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Rodrigues, que destacou a trajetória histórica do movimento negro brasileiro e a necessidade de aprofundar as ações de reparação e justiça racial.
“O movimento negro contemporâneo do Brasil é um dos mais antigos movimentos sociais do país e ainda há muito o que fazer para que o Brasil alcance uma democracia plena para negros e negras, mulheres e populações indígenas. Tudo que for feito com relação à África e aos seus descendentes ainda é pouco diante da dívida histórica que o Brasil tem com o continente africano.”
Diplomacia afro-cultural e conexões entre África, Brasil e diáspora
Abrindo os debates temáticos do dia, o Painel 1 — “África – Brasil – Diáspora: a nova diplomacia afro-cultural Sul-Sul”, reuniu intelectuais, diplomatas, pesquisadores e lideranças internacionais para discutir os caminhos da cooperação afro-atlântica contemporânea.
A mesa propôs reflexões sobre cultura, ancestralidade, circulação de saberes, economia criativa e diplomacia cultural como ferramentas de fortalecimento político e identitário entre países do Sul Global.
A mediação ficou por conta de Elisa Larkin Nascimento, mestre em Direito e Ciências Sociais, doutora em Psicologia e presidente do IPEAFRO. Em sua fala, Elisa ampliou a reflexão sobre o conceito de diáspora africana.
“Quando pensamos no Atlântico e nessa diáspora, muitas vezes limitamos essa compreensão. Hoje, inclusive, nas guerras contemporâneas, quem mais sofre e é bombardeado continuam sendo populações africanas e afro-diaspóricas.”
Entre os convidados esteve o antropólogo congolês Kabengele Munanga, uma das maiores referências internacionais nos estudos sobre relações raciais, identidade negra e cultura africana no Brasil. Também participou a diplomata e escritora ganesa Abena Busia, reconhecida internacionalmente por sua atuação em diplomacia cultural e estudos da diáspora africana.
A mesa contou ainda com a presença de Jacques D’Adesky, pesquisador das relações afro-atlânticas e da cooperação Sul-Sul, além de José Vicente, fundador da Universidade Zumbi dos Palmares.
Durante sua fala, José Vicente destacou a importância da construção coletiva das instituições negras no Brasil.
“A Universidade Zumbi dos Palmares nasceu da capacidade de aquilombamento. É uma instituição criada por negros, gerida por negros e que se consolidou como um espaço de inclusão, qualificação e fortalecimento da agenda negra brasileira.”
Patrimônio afro-diaspórico, memória e preservação
Na parte da tarde, a programação seguiu com o Painel 2 — “Patrimônio Cultural Afro-Diaspórico: memória, preservação e futuro”, reunindo pesquisadores, gestores culturais e representantes institucionais para discutir a preservação das heranças africanas e afro-brasileiras.
O debate abordou os desafios relacionados ao apagamento histórico, à valorização das culturas negras e à preservação de patrimônios materiais e imateriais afro-diaspóricos.
A mediação foi conduzida por Iêda Leal, referência histórica do movimento negro e da luta pela igualdade racial no Brasil.
Também participaram da mesa:
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Luandino Carvalho, artista plástico, jornalista e representante da diplomacia cultural angolana;
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Ana Flávia Magalhães Pinto, pesquisadora da memória afro-brasileira e dos arquivos comunitários;
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Aline Vila Real Mattos, gestora cultural e curadora de importantes festivais de arte negra;
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Zezito Araújo, historiador e referência nacional na preservação da memória quilombola;
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Aline Beatriz Miranda da Silva, especialista em patrimônio cultural imaterial.
O painel reforçou o entendimento de que o patrimônio afro-diaspórico não está apenas nos monumentos ou acervos históricos, mas também nos saberes ancestrais, nas tradições orais, nas religiões de matriz africana, na música, na dança e nos modos de existir e resistir construídos pelos povos negros ao longo da história.
Reparação histórica e políticas afro-diaspóricas
Encerrando os seminários do dia, o Painel 3 — “Políticas na diáspora africana: conexões, reparações e restituições”, debateu justiça histórica, políticas públicas de igualdade racial e estratégias internacionais de reparação e restituição cultural.
A mediação foi conduzida por Raimundo Bujão, importante liderança do movimento negro baiano.
A mesa reuniu nomes com ampla atuação em políticas públicas, relações internacionais e direitos humanos, entre eles:
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Gilberto Leal;
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Richard Santos;
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Isaura Genoveva;
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Samuel Azevedo.
O encontro discutiu os impactos do colonialismo, as políticas de reparação histórica e o fortalecimento das conexões afro-atlânticas como ferramentas de justiça social, valorização da ancestralidade e construção de novos futuros para a população negra.
Cultura, ancestralidade e música encerram a noite do AKWAABA
Após os seminários, a programação cultural tomou conta do festival com apresentações artísticas que reafirmaram a diversidade das expressões afro-brasileiras.
O público acompanhou a apresentação do Afoxé Omo Odé Ilê Axé Omo Odé, grupo que celebra as tradições dos afoxés e das manifestações afro-religiosas por meio da música, da dança e da ancestralidade.
Na Sala Adoniran Barbosa, o espetáculo das Pastoras do Rosário emocionou o público ao reunir tradição oral, religiosidade e musicalidade popular negra em uma apresentação marcada pela memória e resistência cultural.
A noite contou ainda com apresentação da DJ Esteves, trazendo uma mistura de ritmos afro-diaspóricos, música preta contemporânea e sonoridades periféricas.
Encerrando a programação do dia, a cantora e compositora Letícia Fialho subiu ao palco com um show que atravessa a música brasileira contemporânea, a poesia e as influências afro-latino-americanas, em uma apresentação marcada pela potência estética, sensibilidade e conexão com as ancestralidades.
O quarto dia do AKWAABA reafirmou o festival como um dos principais espaços de articulação cultural, política e intelectual das relações entre África, Brasil e diáspora, transformando o Dia da África em um grande encontro de memória, resistência, arte e futuro.
Henrique Bertoldo