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Museu da Abolição lança seu primeiro projeto museográfico, após a reforma realizada entre 2020 e 2022, com as exposições Que herança você vai poder? e Restituir o Possível
Museu da Abolição abre duas exposições sobre memória, resistência e herança afro-brasileira
Banner de divulgação do Museu da Abolição contendo o texto: "Memória, resistência e herança afro-brasileira: confira as exposições inéditas no Museu da Abolição". A imagem de fundo é uma adaptação da obra Sankofa, do artista Diogum. - Foto: Ibram/MinC
O Museu da Abolição — MAB, equipamento federal vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), reabre de forma plena na segunda-feira, 15 de junho de 2026, às 18h, com as exposições Que herança você vai poder? e Restituir o Possível. Após a restauração do sobrado que abriga a sua sede, concluída em 2022, e um período de retomada parcial de atividades, o museu apresenta agora um projeto museográfico formado por exposições concebidas especialmente para seu espaço, seu acervo e sua missão institucional.
Localizado no tradicional bairro da Madalena, em área central do Recife, o MAB tem como missão preservar, pesquisar, divulgar e difundir a memória, os valores históricos, artísticos e culturais e o patrimônio material e imaterial dos afrodescendentes, estimulando a reflexão e o pensamento crítico sobre a abolição e seus desdobramentos para a construção da identidade e cidadania brasileiras.
Entre 2020 e 2022, o Sobrado Grande da Madalena passou por ampla restauração arquitetônica. As obras incluíram a recuperação da estrutura do casarão tombado como patrimônio nacional em 1966, além da revitalização do jardim, novo projeto paisagístico, instalação de uma arena de eventos coberta na área externa e construção do prédio anexo para abrigar lojas e café.
Reaberto ao público após as obras, o museu retomou atividades e recebeu diferentes iniciativas culturais em seu espaço. No entanto, até agora, nenhuma exposição havia sido realizada para marcar esse processo de reabertura e renovação. As mostras que abrem em 15 de junho inauguram, portanto, uma nova etapa institucional. “Ao longo desses anos o MAB não esteve fechado. O museu, desde sua reabertura após a reforma, seguiu ativo, sendo palco de diversas mostras e atividades diversas. O que celebramos agora é um momento em que lançamos o nosso novo projeto museográfico pensado e trabalhado especialmente para a instituição, com um olhar atento para o seu acervo e para a sua missão enquanto equipamento cultural”, pontua a diretora substituta do MAB, Fabiana de Lima Sales.
O projeto foi financiado com recursos do FDD (Fundo de Defesa de Direitos Difusos, vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública e gerido pela Secretaria Nacional do Consumidor), também houve descentralização de recursos do Ibram para firmar parceria com a UFPE, que realizou o trabalho curatorial.
Que herança você vai poder?
Ocupando integralmente o primeiro piso do sobrado, a exposição Que herança você vai poder?, com curadoria de Alex de Jesus, reúne 25 artistas e 31 obras — entre produções do acervo do museu, trabalhos comissionados especialmente para a mostra e peças emprestadas. A mostra parte de uma pergunta estruturante: o que restou, de fato, após 1888?
O texto curatorial constata que a abolição da escravatura, formalizada pela Lei Áurea, foi mais simbólica do que efetiva. O Estado brasileiro não ofereceu políticas de reparação, inclusão social ou acesso à terra, educação e trabalho para os mais de 700 mil negros libertos, produzindo um cenário de exclusão estrutural que ecoa até os dias atuais. Diante dessa herança precária, a arte se apresenta como campo de enfrentamento e resistência.
“O que parte da arte brasileira escancara é o fracasso da abolição como projeto de cidadania. A suposta liberdade concedida em 1888 não rompeu com o regime racial, apenas o atualizou sob novas formas de segregação e silenciamento. Através de performances, instalações, vídeos e objetos, artistas contemporâneos reencenam essa história inacabada, convidando o espectador a uma tomada de consciência crítica. Uma libertação na qual o gozo seja possível”, escreve o curador em seu texto.
A exposição questiona as heranças que foram ofertadas e pergunta “o que com elas vamos poder?”. O percurso da mostra é distribuído em três eixos: presente, passado e futuro. As obras de cada uma das seções vem tensionar e refletir sobre essas heranças. O passado traz trabalhos que mostram que a abolição não foi uma ruptura, mas um deslocamento da violência. A liberdade foi concedida, mas os direitos à terra, à cidadania, a possibilidade de narrar a sua própria história seguiram sendo negados.
No eixo presente, emerge o racismo estrutural e as obras provocam o espectador a olhar para essa ferida que durante anos foi negada, sob o manto de uma suposta democracia racial. A abolição é entendida não como um ponto final, mas como um projeto em curso. O que já leva o espectador ao futuro, que não é nem uma promessa distante, nem uma solução imediata. Ele surge como um campo aberto de caminhos e possibilidades, um horizonte transformador que faz com que os ciclos se quebrem e a história não se repita. A mostra reúne artistas como biarritzzz, Tiago Sant'Ana, Caetano Dias, Yanne Mendes, Paula Trojany, Tiganá Santana e o coletivo Frente 3 de Fevereiro, entre outros, que tensionam, cada um a seu modo, as narrativas hegemônicas sobre a história da abolição e a atualidade do ser negro no Brasil. O vídeo é um suporte central da exposição — presente em trabalhos de Izidoro Cavalcanti, Bisoro, Rodrigo Ribeiro Andrade, Samuel Brasileiro e Natália Maia —, explorando as fronteiras entre arte e cinema, entre a galeria e a rua.
A música também se faz presente: dos maracatus captados por Lula Cardoso Ayres às cosmologias africanas de Tiganá Santana, passando pelo funk do Baile da Paz, pelo Dynamite Som, por Nekinho e pelo Lamento Negro. Arquivos fotográficos e documentais completam o percurso expositivo, incluindo imagens e registros históricos de personalidades negras do Recife.
A lista completa de artistas inclui: Alberto Pereira, Anti Ribeiro, biarritzzz, Bisoro, Caetano Dias, Daniel (Frente 3 de Fevereiro), David Felício, Diogum, Gê Viana, Géssica Amorim, Ianah, Izidoro Cavalcanti, Jeff Alan, Lia Letícia, Lucas Silva, Mestre Maia, Nilton Pereira, Paula Trojany, Rodrigo Andrade, Samuel Brasileiro, Thiago Martins, Tiago Sant'Ana, Tiganá Santana, Yanne Mendes e Yhuri Cruz.
Restituir o Possível
No piso térreo, nas salas destinadas às exposições temporárias, o museu apresenta Restituir o Possível, com curadoria de Isabelle de Oliveira Ferreira e Wellington Ricardo da Silva (coletivo Mandume Cultural). A mostra apresenta um recorte do Acervo de Cultura Material Africana do MAB/Ibram, composto por 109 peças — esculturas, máscaras e regalias — provenientes de 12 países africanos e mais de 20 etnias.
O acervo chegou ao museu em 2016, por meio da Lei Federal nº 12.840/13, que destina bens culturais apreendidos pela Receita Federal a museus federais. Grande parte das peças permaneceu em reserva técnica desde então. A exposição apresenta parte desse patrimônio, além de inserir o MAB no debate internacional sobre a restituição de bens culturais africanos.
A proposta expositiva desloca a ideia de restituição do campo material para o simbólico e sensível: trata-se de reconhecer que o que foi deslocado e reconfigurado pelo colonialismo permanece vivo nas práticas, nos corpos e nas criações negras contemporâneas. Cada peça é apresentada não apenas como forma estética, mas como testemunho de cosmologias e tecnologias que o olhar colonial tentou reduzir a categorias fixas.
Memorial do MAB
Ainda no piso térreo, logo na entrada do museu, duas montagens importantes passam a dar as boas-vindas aos visitantes. Na primeira sala ou na sala memorial, será possível conhecer um pouco sobre a história do sobrado que abriga o museu e também conhecer como se deu a própria fundação da instituição.
A sede do Museu da Abolição é o Sobrado Grande da Madalena, casarão tombado como patrimônio nacional em 1966 e que tem uma história intimamente ligada à abolição. O imóvel foi a antiga residência do abolicionista João Alfredo Corrêa, primeiro-ministro de D. Pedro II responsável por assegurar a aprovação parlamentar da Lei Áurea (13 de maio de 1888) e por ter papel decisivo na promulgação da Lei do Ventre Livre (1871).
O museu foi criado em 1957 pelo então presidente Juscelino Kubitschek, por meio da Lei Federal nº 3.357, em homenagem aos abolicionistas João Alfredo e Joaquim Nabuco, e inaugurado oficialmente em 13 de maio de 1983. Desde 2009, é administrado pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
“Este novo momento do MAB, marca não apenas a abertura fisica, mas a retomada de nosso diálogo com os públicos e o fortalecimento do compromisso com a participação social e com a valorização das memórias, histórias e culturas afro-brasileiras. Seguimos construindo um museu capaz de acolher diferentes vozes, experiências e perspectivas, reconhecendo que sua construção acontece de forma coletiva, numa troca permanente com a comunidade. É nesse encontro que o museu se mantém vivo, relevante e conectado”, conclui a museóloga Daiane Silva Carvalho, servidora do museu.
Serviço
Que herança você vai poder? | Restituir o possível | Museu da Abolição | Abertura: 15 de junho de 2026 (segunda-feira), 18h | Visitação: A partir de 16 de junho. | Segunda a sexta, das 9h às 17h. Sábado, das 13h às 17h. | Entrada gratuita. | Endereço: R. Benfica, 1150 - Madalena, Recife - PE.