Notícias
ANO BRASIL-CHINA
MHN recebe a exposição "Sabores da tradição: História da alimentação na China antiga"
Representação de um zun, recipiente para armazenar e servir vinho, escavado de uma tumba dos períodos Wei-Jin (séculos III-V d.C.), em Jiayuguan, província de Gansu. - Foto: Acervo do Museu Nacional da China, Pequim
No dia 27 de junho, o Museu Histórico Nacional abre ao público Sabores da Tradição: história da alimentação na China antiga, exposição que convida o visitante a percorrer milhares de anos da civilização chinesa a partir de uma de suas expressões mais fundamentais: a comida. Com mais de 120 objetos provenientes do Museu Nacional da China, em Pequim, a mostra ocupa as galerias temporárias do museu até 11 de outubro de 2026. A entrada é gratuita.
Sabores da Tradição: história da alimentação na China antiga conta com patrocínio do Banco do Brasil por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet). A exposição parte da comida e da bebida para recontar a história de uma civilização. Cada peça do acervo é um fragmento de como os chineses pensavam o mundo, organizavam o poder, cultivavam o prazer e negociavam com o sagrado. Para a curadoria, a alimentação é o domínio da vida humana onde mais dimensões da cultura se encontram ao mesmo tempo. Para o público brasileiro, a mostra é uma porta de entrada para uma China que vai muito além do que o cotidiano costuma mostrar: a que cozinha, ritualiza, filosofa e encontra beleza à mesa em cerâmicas, bronzes e porcelanas de até dez mil anos de idade. A mostra foi apresentada no Museu de Etnografia de Budapeste, em 2024, e nos Museus do Kremlin, em Moscou, em 2025.
Sabores da Tradição foi organizada para o Brasil com consultoria especializada. Cada núcleo constrói sobre o anterior, abrindo o percurso à medida que o visitante avança, revelando escolhas cuidadosas de curadoria do Museu chinês. Vale conferir com calma. A exposição cobre um arco que vai da pré-história agrícola ao ano de 1911, quando se encerra a dinastia Qing e, com ela, a China imperial. É esse o recorte: a China antiga, anterior à república e às transformações do século XX. Cinco núcleos temáticos organizam o percurso, cada um iluminando uma camada distinta da relação entre os chineses e sua cultura alimentar.
O primeiro núcleo, Uma alimentação variada como base da nutrição, parte de uma afirmação arqueológica: a China figura entre os berços do cultivo do arroz e do milheto, e é também uma das regiões mais antigas do mundo na domesticação de animais como o porco e a galinha. Por volta de quatro mil anos atrás, chegaram ao território chinês, vindos da Ásia Ocidental, o carneiro, o gado bovino, o cavalo e o trigo, ampliando progressivamente a diversidade alimentar de uma civilização que já era rica antes mesmo desses contatos.
Os textos de parede desse núcleo evocam o Clássico Interno do Imperador Amarelo, obra de referência da medicina e do pensamento chinês antigo, para sintetizar essa filosofia alimentar: “Os cinco grãos nutrem, os cinco animais enriquecem, os cinco frutos auxiliam e os cinco vegetais complementam”. Uma dieta fundada na variedade, mas também numa ideia de equilíbrio que atravessa toda a cultura chinesa clássica. O núcleo seguinte, Alimentos cozidos e bebidas quentes, lida com uma das mais antigas fronteiras simbólicas da humanidade: a que separa o cru do cozido. Para os antigos chineses, o domínio do fogo era uma questão técnica, mas, sobretudo, um marco civilizatório. As dezenas de técnicas culinárias desenvolvidas ao longo dos milênios, vapor, fervura, salteado, fritura, assado, cura, fermentação, constituíram um repertório sem paralelo. Dois métodos são considerados invenções propriamente chinesas: o cozimento no vapor e o salteado no wok.
O núcleo também dedica espaço às bebidas quentes. O vinho aparece aquecido, prática que tem uma razão técnica: o calor elimina o metanol, tornando a bebida mais segura. E o chá comparece em toda a sua complexidade. Há um vídeo sobre o método do chá batido, uma das formas mais antigas de preparo, que pouco tem a ver com a infusão em saquinho que o Ocidente popularizou. Objetos das dinastias Tang e Song e trechos de poemas de Bai Juyi, um dos maiores poetas da literatura chinesa, aparecem ao longo deste núcleo.
No terceiro núcleo, Reverenciar o Céu e cumprir os ritos, a alimentação ganha dimensão política e espiritual. Na China antiga, os ritos tinham sua origem na comida e na bebida. As peças em bronze apresentam uma gramática do poder: a quantidade e o tipo de recipientes que um senhor feudal exibia em seus banquetes determinavam sua posição na hierarquia social.
O tripé ding, presente em exemplares de diferentes períodos, talvez seja o símbolo mais eloquente dessa transformação: de vasilha de cozinha a emblema do poder real. Os sinos de bronze que acompanhavam os banquetes da nobreza, o jogo de arremessar flechas em vasos que animava as reuniões letradas, as pinturas murais com cenas de banquetes da dinastia Han – tudo mostra como comer, na China antiga, era um ato profundamente político
O quarto núcleo, Deleitar os olhos, apaziguar o espírito, desdobra outra dimensão dessa cultura: a recusa em separar funcionalidade e beleza. Os artesãos e artistas chineses produziram utensílios de mesa que eram, ao mesmo tempo, ferramentas cotidianas e obras de arte. O percurso reúne cerâmicas pintadas do Neolítico, bronzes da Antiguidade, porcelanas imperiais de refinamento extremo, objetos em ouro e prata da dinastia Liao e peças em jade de diferentes períodos. A curadoria parte do entendimento de que a experiência de comer é também sensorial e estética, e que a beleza dos recipientes intensifica o prazer da comida.
O quinto núcleo, Beleza compartilhada em harmonia, fecha o percurso com a dimensão do intercâmbio. A cultura alimentar chinesa nunca foi fechada sobre si mesma. As nozes e a pimenta-do-reino chegaram pela Rota da Seda. A batata e o pimentão vieram das Américas. O arroz, o chá e o tofu migraram para o mundo. A porcelana chinesa influenciou as artes decorativas europeias e, ao mesmo tempo, a China incorporou objetos de ouro, prata e vidro de fabricação europeia. É neste núcleo que aparece o capítulo sobre o Jardim Botânico do Rio de Janeiro: a gravura dos agricultores chineses trazidos por Dom João VI, plantando as primeiras mudas de chá no Brasil, é um dos momentos mais próximos do público carioca, uma espécie de “carinho” curatorial incorporado ao percurso.
Acervo
Os 121 objetos abrangem um arco de aproximadamente dez mil anos. A diversidade de materiais é um dado em si: cerâmica, bronze, porcelana, ouro, prata, jade, pedras preciosas, laca e madeira. Vale notar que o que está sendo apresentado é o que ficou na China. A porcelana que chegou à Europa pela Companhia das Índias era produção de exportação, feita para consumidores que não conheciam o padrão dos melhores ateliês chineses. O acervo aqui reunido é de outra categoria.
Entre as peças de maior interesse histórico estão os vasos rituais em bronze das dinastias Shang, Zhou Ocidental e do período das Primaveras e Outonos, alguns com mais de três mil anos. Nesses objetos está inscrita a gramática do poder ritual chinês: o ding para cozinhar e oferecer alimentos, o you e o gu para armazenar e servir vinho, o gui e o xu como recipientes de comida para cerimônias. Exibir determinado número de ding e gui à mesa era protocolo: os utensílios diziam, antes de qualquer palavra, a posição social de quem estava sentado ali.
As porcelanas da dinastia Qing (1644-1911) formam outro grupo de destaque. Peças de famille rose com acabamentos extremamente delicados, tigelas pintadas à mão com motivos de pêssego, morcego e lótus, conjuntos de chá em esmalte sobre jade e as xícaras de barro zisha, feitas na cidade de Yixing, revelam o quanto a cultura do chá gerou um universo estético autônomo, com objetos desenvolvidos especificamente para cada etapa do preparo e do consumo.
Há também peças em ouro das dinastias Liao e Yuan que raramente saem de Pequim: uma tigela dourada com motivo de três gansos selvagens e flores, uma jarra de pescoço longo com padrão de flores entrelaçadas e um prato em forma de begônia. As peças em jade, material de profundo significado cultural na China e associado a virtudes como pureza, nobreza e longevidade, comparecem em utensílios de uso prático e em objetos claramente cerimoniais.
Entre as peças em prata estão um suporte de chá em prata dourada com motivo de pétalas de lótus, datado da dinastia Tang, e uma jarra em prata dourada com relevos de pássaros, animais e flores, também Tang. Dois conjuntos de lacas pintadas e um serviço de porcelana de doze peças com flores e borboletas completam o universo de objetos de mesa e banquete que a mostra apresenta.
Uma exposição do Estado chinês no Rio de Janeiro
Sabores da Tradição chega ao Brasil no contexto do Ano Cultural Brasil-China 2026. A realização conta com a articulação institucional do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), vinculado ao Ministério da Cultura, que coordenou as tratativas brasileiras e o Museu Nacional da China. Em contrapartida, o Museu Nacional da China apresenta, em Pequim, O Brasil de Portinari, exposição dedicada à obra de Candido Portinari, inaugurada em 9 de junho, com Patrocínio Petrobras e Apoio Veirano Advogados.
O circuito do Museu Histórico Nacional inclui uma sala dedicada a essa presença brasileira na China. Fundado em 1922, o Museu guarda um acervo de aproximadamente 300 mil itens relacionados à história do Brasil e do continente americano.
Para o diretor do MHN, Cícero de Almeida, ao acolher a exposição "Sabores da Tradição: história da alimentação na China antiga", o Museu celebra a história da alimentação na China, mas também a possibilidade de construir pontes culturais capazes de ampliar horizontes e estimular novas formas de compreensão do mundo contemporâneo. “Que esta mostra seja, para o público brasileiro, uma experiência de descoberta, encontro e reflexão”, enfatiza.
Ao longo de toda a temporada, serão oferecidas atividades educativas vinculadas à exposição, com visitas guiadas conduzidas por monitores da equipe de educação do museu. O programa está aberto ao público geral, a grupos escolares e a instituições de ensino.
Sabores da Tradição tem curadoria do Museu Nacional da China, instituição fundada em 1912 e sediada na Praça Tiananmen, em Pequim. Com um acervo de mais de 1,4 milhão de peças, o museu é um dos maiores do mundo e guarda a principal coleção de artefatos relacionados à história e à arte chinesas. A coordenação geral é da Expomus, com projeto expográfico de Álvaro Razuk, iluminação de Samuel Bett, comunicação visual e projeto gráfico de Ana Heloisa Santiago e consultoria de conteúdo de Giancarlo Hannud.
SERVIÇO
Sabores da Tradição: história da alimentação na China antiga
Local: Museu Histórico Nacional
Endereço: Praça Marechal Âncora, s/nº, Centro, Rio de Janeiro/RJ
Período: 27 de junho a 11 de outubro de 2026
Funcionamento: Quarta a domingo, das 10h às 17h (último acesso às 17h e encerramento às 18h)
Entrada: gratuita
Fonte: Galo Comunicação