Nova exposição na Sala do Artista Popular em setembro: Arte têxtil em Turmalina e Veredinha – Jequitinhonha, MG

Publicado em 04/09/2026 13:31Modificado em 09/09/2026 12:45
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O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, unidade especial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan), inaugura no próximo dia 17 de setembro, a nova exposição da Sala do Artista Popular (SAP), Arte têxtil de Turmalina e Veredinha – Jequitinhonha, MG. Cabem à historiadora Ana Lima Kallás a pesquisa de campo e o texto do catálogo, que já está disponível na versão on-line. A versão impressa será distribuída gratuitamente na abertura. O público poderá também admirar e comprar as peças que compõem a mostra, que vai até 29 de novembro. O evento de abertura se encerra às 20h.

No dia 17, às 15h, haverá ainda uma roda de conversa com a presença de Maria Aparecida das Graças Oliveira, presidente da Associação de Artesãos de Turmalina (Astur), Ilma Gonçalves de Oliveira, presidente da Associação Comunitária dos Artesãos de Turmalina (Soarte), que são da cidade de Turmalina, e Monique Sthefany Rodrigues Sobrinho, da Associação dos Artesãos de Veredinha (Artever).

Artesãs Maria de Lourdes Gonçalves de Oliveira e Ilma Gonçalves de Oliveira. Crédito: Francisco More
Artesãs Maria de Lourdes Gonçalves de Oliveira e Ilma Gonçalves de Oliveira. Crédito: Francisco Moreira da Costa

Ao redor de bordados em peças para decoração, vestuário e diversos outros trabalhos manuais, o visitante encontra um panorama documental único. Marca da região, a arte têxtil atravessa séculos e dicotomias do progresso. A tecelagem, o bordado, a cerâmica e os trabalhos em couro e madeira são definidos como saberes-fazeres expressados há séculos. No texto do catálogo, a pesquisadora Ana Lima Kallás destaca: “O Vale do Jequitinhonha está localizado na porção nordeste de Minas Gerais e abrange também uma pequena parte do sudeste da Bahia, com cerca de 70.315 km². A população local classifica o Jequitinhonha mineiro em Alto, Médio e Baixo. Turmalina e Veredinha estão situadas no Alto Jequitinhonha. Turmalina tem área territorial de 1.153,111 km² e população estimada em 20.769 pessoas (IBGE, 2023). A cidade se expandiu a partir da exploração do ouro às margens do rio Araçuaí, no século 18, acompanhada do plantio de alimentos para os mineradores.”

A arte têxtil acompanha a vida da artesã Maria Aparecida das Graças Oliveira, 63 anos, presidente da Astur. Cresceu ajudando mãe, avós e tias no ofício. “Desde cedo cresci com tecidos e bordados ao redor. Primeiro, eu ajudava a preparar o algodão para fazer o fio e depois tecer. Os tecidos mais grossos, minha mãe fazia as iniciais de todos com ponto cruz, ela falava ponto de marca, para identificar os donos de cada item. Ajudar a complementar a renda é uma terapia e me faz bem”, conta. Em 1992, a Astur foi fundada com incentivo do governo municipal. “Os compradores de outras regiões de Minas vinham comprar nosso trabalho e surgiu da prefeitura o incentivo para que a atividade artesanal se tornasse uma forma de gerar renda”, completa. Para Maria Aparecida, que vem pela primeira vez ao Rio de Janeiro, a oportunidade de expor o trabalho das artesãs simboliza um momento especial para ampliar a visibilidade da arte têxtil do Jequitinhonha.

No catálogo da SAP, a pesquisadora Ana Lima Kallás apresenta uma breve linha do tempo desse saber-fazer que atravessa os séculos: “A arte têxtil guarda uma longa tradição na região. O cultivo do algodão, sua colheita, descaroçamento, cardagem e fiação foram descritos pelos viajantes europeus do século 19 que passaram pelo norte e nordeste de Minas Gerais. Nos escritos de Saint-Hilaire, há referências aos algodoais e à fiação em Minas Novas e em Água Suja, considerada um dos berços da tecelagem rústica.”

Artesã Thaís Aguilar de Abreu. Crédito: Francisco Moreira da Costa
Artesã Thaís Aguilar de Abreu. Crédito: Francisco Moreira da Costa

Políticas públicas em torno da monocultura de eucalipto mudaram a utilização do solo no Jequitinhonha. “As primeiras produções têxteis do Alto Jequitinhonha tinham função utilitária e destinavam-se às camadas populares. Mulheres aprenderam a fiar para vestir a família e fornecer cobertores (...) A partir de meados da década de 1970, durante a ditadura empresarial-militar, o Alto Jequitinhonha foi alvo de políticas públicas voltadas à implantação da monocultura de eucalipto, transformando a região em fornecedora de matéria-prima para a indústria siderúrgica. Pensada como estratégia de ‘segurança nacional’, a atividade deveria converter o território em produtor de carvão vegetal para a fabricação do ferro-gusa, então prioridade da industrialização brasileira (Silva et al., 2022, p. 63-65). Os impactos ambientais e sociais dessa política são visíveis até hoje: pesquisadores apontaram que os maciços de eucalipto alteraram a dinâmica da água, “secando mananciais, ocasionando insegurança hídrica em localidades, gerando custos ambientais, culturais e socioeconômicos para as comunidades lavradoras” (Silva et al., 2022, p. 63). As comunidades rurais testemunharam a desaparição de nascentes, o secamento de córregos e a escassez que se seguiu à expropriação da terra e da água. Os eucaliptos foram plantados nas chapadas, transformadas em ‘terras devolutas’ e cedidas a grandes empresas, como a Acesitavi e a Suzano. A privatização das chapadas homogeneizou a paisagem, reduziu a biodiversidade do Cerrado, destruiu habitats para a fauna e elevou a pressão sobre os recursos hídricos, além de expropriar famílias de lavradores (Calixto et al., 2009, p. 524).”

Esta não é a primeira vez que o CNFCP expõe a arte têxtil do Vale do Jequitinhonha, como conta Ana Lima Kallás. Em 2000, houve a SAP “Um vale de tramas: a tecelagem do Jequitinhonha”, dedicada à tecelagem da cidade de Berilo. Agora, a pesquisadora entrevistou 40 mulheres para a montagem da exposição que retrata Turmalina e Veredinha. O associativismo forma uma força coletiva de especial significado entre as artesãs. “No sentido de pensarem e agirem coletivamente na compra de insumos, na participação em eventos, na venda, no desenvolvimento de novas coleções, na participação em cursos de capacitação, na busca coletiva por soluções aos desafios colocados”, explica a pesquisadora.

Ao visitar a mostra Arte têxtil de Turmalina e Veredinha – Jequitinhonha, MG, o público vai poder conhecer de perto os bordados característicos de Turmalina e Veredinha, observar suas temáticas, combinação de cores, acabamentos em crochê e observar a revisitação da arte têxtil utilitária com a produção de peças para cama e mesa e vestuário, tudo feito a partir de tecidos em algodão feitos manualmente com bordados e acabamentos ponto a ponto. Sobretudo, poderá comprar as peças por valores a partir de R$50 e até R$1,5 mil.

Crédito: Francisco Moreira da Costa
Crédito: Francisco Moreira da Costa
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