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MODA E TERRITÓRIO
Desfile manifesto leva moda amazonense, memória e identidade para a Teia Nacional
Foto: Julia Fuè
“Você sabe de onde veio o que está vestindo? Quem costurou a sua roupa? Quem plantou o algodão, tingiu o tecido, fez o bordado, desenhou a peça ou empacotou aquilo que chega até você?” A pergunta atravessou a performance do desfile Manifesto Amazonense - Moda autoral em Manaus, Amazonas, apresentada nesta sábado (23), durante a programação da 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura.
Mais do que uma apresentação de moda, a apresentação propôs uma reflexão sobre trabalho, autoria, território e identidade. Em uma mistura de cores, tecidos, gestos e símbolos culturais, a performance reuniu 25 marcas e criativos do Amazonas, levando à passarela referências indígenas, afro-amazônicas, caboclas, urbanas e periféricas. O palco foi transformado em espaço de denúncia, celebração e pertencimento ao reunir criadores, modelos voluntários e referências de diferentes territórios do Amazonas.
Durante a apresentação, os modelos carregaram frases que deslocavam o olhar do público para as pessoas por trás da cadeia produtiva da moda: “Eu costurei essa roupa”; “Eu plantei o algodão da sua roupa”; “Eu colori sua roupa”; “Eu fiz o bordado da sua roupa”; “Eu refiz suas roupas”; “Eu fiz o zíper da sua roupa”. Cada frase funcionava como uma convocação para reconhecer mãos, histórias e territórios muitas vezes invisibilizados.
Manaus veste muitas histórias

A produção executiva e a direção de elenco foram assinadas por Glícia Cáuper, que trouxe o projeto de Manaus para a Teia com uma proposta coletiva. Segundo ela, a equipe chegou com seis pessoas do Amazonas e, em Aracruz, formou voluntariamente o casting do desfile com participantes do evento.
“Nós trouxemos 25 marcas do Amazonas na mala. Tivemos seis pessoas e, chegando aqui, a gente voluntariou todo o nosso casting para esse desfile acontecer. Isso foi maravilhoso, porque trouxe diversidade para a passarela. Foram vários corpos representados, várias performances diferentes, e acho que entregamos o que queríamos: trazer essa diversidade que a Amazônia tem”, afirmou.
Advogada de formação, Glícia conta que demorou a se reconhecer como alguém que poderia trabalhar com moda. Filha de mãe artesã e sobrinha de mulheres ligadas ao samba, ela cresceu próxima de linguagens criativas, mas sem enxergar esse caminho como possibilidade profissional. “Eu demorei 28 anos para me ver como uma pessoa que poderia trabalhar com moda. Comecei a procurar artistas do Norte, fui conhecendo pessoas incríveis, e pensei: vamos mostrar esse trabalho de forma coletiva”, relatou.
O Manifesto Amazonense nasceu em 2026, a partir da aprovação no edital da Teia, mas parte de uma articulação que já vinha sendo construída de forma voluntária. No desfile, estiveram presentes peças de Manaus, Parintins, Novo Airão e da comunidade do Carão do Pará, entre outros territórios. Para ela, a proposta é mostrar que a moda amazonense existe, tem força própria e vai além dos estereótipos associados à região.
“A Amazônia Urbana também é muito forte. Eu queria mostrar que temos influência afro, indígena, cabocla, uma cena Hip-Hop forte, o forró, o ‘galeiroso’. Queria colocar tudo isso na passarela de alguma forma”, explicou.
Moda como território, memória e pertencimento
Entre as participantes do desfile estava Marieny Matos Nascimento, Pessoa com Deficiência (PcD), 60 anos, de Manaus, coordenadora do Ponto de Cultura Conexão Afro-Amazônia e integrante do Pontão de Cultura Territórios de Rios. Representante do Norte na Comissão Nacional de Acessibilidade da Teia, ela foi convidada a desfilar e viu na performance uma forma de dar visibilidade aos saberes, sabores e expressões culturais amazônicas.
“Esse desfile fala sobre o Norte, sobre sua expressão, seus saberes, seus sabores e também sobre a moda afro, a cultura e os itens que fazem parte do nosso cotidiano. É muito importante, inovador, e nos representa: nossas comunidades, nossa periferia, nossos locais de trabalho, nosso território”, afirmou.
Para Marieny, a moda também é um campo de afirmação identitária. Ela relembrou experiências anteriores da Conexão Afro-Amazônia com grafismos indígenas, artesanato e economia criativa, e destacou a força das cores e símbolos que marcam o imaginário do Norte.
Ao falar sobre o que a participação significou pessoalmente, ela se emocionou. “Eu me senti muito prestigiada, muito homenageada. Especialmente por serem mulheres que produzem, por trazerem esse trabalho das mulheres que fazem, por darem visibilidade a isso. Eu me sinto contemplada, orgulhosa e emocionada”, afirmou.

Teia Nacional
A 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura reúne agentes culturais, coletivos, mestres e mestras das culturas populares, povos tradicionais, representantes da sociedade civil e gestores públicos de todas as regiões do Brasil.
O evento é uma realização do Ministério da Cultura, do Governo do Estado do Espírito Santo, da Prefeitura de Aracruz e da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC), em parceria com o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), o Sesc, Unesco e o programa IberCultura Viva.