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Cooperação ibero-americana e políticas de fomento centralizam diálogo sobre audiovisual no Rio2C
Foto: Felipe Torres/MinC
O Ministério da Cultura (MinC) e representantes do setor audiovisual ibero-americano debateram as estratégias para fortalecimento do mercado audiovisual e a atração de investimentos estrangeiros durante o painel Film Commissions e coproduções na Ibero-América: marcos, incentivos e oportunidades, realizado no mercado de inovação Rio2C, nesta terça-feira (26), no Rio de Janeiro (RJ). Realizada pela secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura de Brasil, Joelma Gonzaga, e da secretária-executiva de Economia Criativa do Ministério das Culturas, das Artes e do Patrimônio do Chile, Camila Gallardo Valenzuela, o encontro focou na análise do papel das film commissions como indutoras de previsibilidade econômica nos territórios e as coproduções internacionais como ferramentas de compartilhamento de custos, riscos e circulação global de obras.
Para Joelma, a consolidação de uma rede de comissões fílmicas e o fortalecimento de parcerias multilaterais figuram como as principais apostas da secretaria do Audiovisual do MinC para impulsionar a integração econômica da região.
"Nossa articulação institucional entre os países da Ibero-América visa unificar esforços em programas como o Ibermedia e a Conferência de Autoridades Cinematográficas Ibero-americanas (CAACI). O compartilhamento de fundos, saberes e a facilitação de filmagens em diversas geografias criam um ecossistema sustentável para as cinematografias locais", afirmou a secretária. A gestora também explicou que, no contexto latino-americano, as organizações operam como engrenagens de atratividade territorial frente a mercados altamente competitivos, como o europeu e o estadunidense.
A secretária-executiva de Economia Criativa do Ministério das Culturas do Chile, Camila Gallardo Valenzuela, complementou a perspectiva de integração ao destacar que o fortalecimento ibero-americano atua diretamente na inserção global. "A estruturação dessas políticas territoria e o alinhamento com os blocos vizinhos são fundamentais para romper o isolamento geográfico e comercial de nossas indústrias. Quando estabelecemos acordos sólidos de coprodução e governança dentro da Ibero-América, nós não apenas compartilhamos custos, mas criamos uma plataforma robusta de projeção que eleva a competitividade e abre as portas dos grandes centros internacionais para as narrativas da nossa região", enfatizou.
Estruturação da Brasil Film Commission
Durante o painel, foi anunciada a criação de um escritório federal de apoio à atividade cinematográfica no Brasil que visa preencher uma lacuna na governança do audiovisual nacional. "Nós estamos na fase final para a entrega da Brasil Film Commission. Ao longo de dois anos, nós nos dedicamos a analisar a atuação das estruturas locais, pois o Brasil possui 23 comissões fílmicas ativas em várias cidades, mas ainda carecia de uma diretriz centralizada e de um pensamento federal sobre o tema", explicou Joelma Gonzaga.
O modelo foi desenhado por um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI), com suporte de consultoria da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, Ciência e Cultura (OEI) para analisar modelos federais como os do Chile e da Colômbia.
O programa divide-se em três pilares: o Comitê Nacional de Apoio às Filmagens e Internacionalização; a Rede Nacional de Film Commissions; e a Brasil Film Commission, como escritório operacional de suporte. Um programa de fomento nos moldes de cash rebate também está em desenvolvimento.
"A Film Commission é muito mais do que uma estrutura física, ela funciona como uma política pública voltada para criar previsibilidade para a produção audiovisual nos territórios e consolidar mecanismos de competitividade. Esse é um mercado internacional altamente competitivo. Quando observamos os modelos europeus e o norte-americano, constatamos um conjunto de incentivos estruturados com o objetivo claro de atrair coproduções de outros países para seus territórios", apontou o mediador do painel e coordenador de Audiovisual e Economia Criativa na Direção de Inovação da Embratur, Christiano Braga.
Também foi anunciado que o Ministério da Cultura também trabalha na finalização do plano decenal de diretrizes e metas do audiovisual, que estruturará as ações do setor para os próximos dez anos sob o eixo da internacionalização.
Projeção do cinema brasileiro no cenário global
A inserção de obras audiovisuais brasileiras em festivais e premiações internacionais foi outro ponto abordado no painel. "O cinema do Brasil não deixa a desejar a nenhum cinema do mundo. Em relação ao mercado internacional, nossa diretriz é cuidar das relações que já temos e fomentar novas parcerias para ampliar a presença do Brasil no mundo. Por isso, definimos um olhar especial e focado na América Latina, na Ibero-América, nos BRICS e na África", destacou a secretário do audiovisual.
Como exemplo da circulação, a gestora citou o desempenho de longas-metragens recentes, como O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui, ganhadores de diversos prêmios internacionais e reconhecimento global. Também foi abordado como a participação de obras nacionais em festivais como Berlim e Cannes gerou interesse de produtores e representantes internacionais para estabelecer novos acordos de coprodução com o Brasil.
Experiência chilena no fomento do audiovisual
De acordo com a secretária-executiva chilena Camila Gallardo Valenzuela, a trajetória do Chile ilustra a reestruturação dos escritórios audiovisuais na promoção cultural do território sul-americano. "A comissão fílmica do Chile iniciou suas atividades por volta de 2011 com uma equipe reduzida dentro da secretaria audiovisual do Ministério das Culturas. O objetivo inicial era atrair produções estrangeiras e inserir o país no mercado externo, de modo a viabilizar acordos de cooperação com outras nações. O Chile é um país geograficamente afastado dos grandes centros industriais, o que dificulta o acesso direto à Europa, à América do Norte e até a mercados da própria América Latina. Esse programa surgiu justamente com a meta de abrir canais de inserção internacional", disse.
O trabalho da comissão chilena foi retomado em 2024 e se consolidou em 2025 sob a estrutura da ProChile, agência de promoção de exportações vinculada ao Ministério das Relações Exteriores daquele país. A mudança permitiu a utilização de uma rede de 50 escritórios internacionais e representações regionais para coordenar as filmagens e descentralizar as produções para fora da capital, Santiago. Camila Gallardo ressaltou o valor dos convênios bilaterais ativos com nações da Europa, América e Ásia, além de missões comerciais recentes à Índia e a presença no fundo Ibermedia para garantir a continuidade das políticas do setor.
Políticas de inclusão ministeriais
As diretrizes do MinC priorizam a inclusão social, a equidade de gênero e a descentralização de recursos. Para mitigar disparidades históricas, a Pasta adotou pontuações indutivas para projetos de produtoras com mulheres e pessoas negras na direção e no roteiro de obras viabilizadas pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Além disso, foi retomado o programa Arranjos Regionais, sistema de coinvestimento em que a União aporta de três a cinco reais para cada real local, teve a adesão de 41 unidades federativas.
A cineasta da Casa Produções, Lígia Tristão Prieto, expôs gargalos históricos do mercado no Mato Grosso do Sul, como barreiras geográficas, escassez de infraestrutura e a violência contra minorias no cotidiano de trabalho. O cenário local ganhou novas perspectivas com o recente aporte de fomento: o coletivo, composto majoritariamente por profissionais LGBTs, produziu o longa-metragem "Quando a gente se encontrar" via Lei Paulo Gustavo (LPG).
Com orçamento de R$ 1 milhão, o maior da história do setor no estado, o projeto empregou 150 profissionais locais. "O cinema funciona como uma ferramenta para propor novas realidades e construir mundos possíveis. Há uma necessidade urgente de que as histórias sejam contadas por perspectivas diversas, para além do perfil tradicional de realizadores que historicamente centralizou as produções de ficção. Precisamos de um olhar estrutural sobre o setor, pois é indispensável associar a relevância da obra à identidade de quem assina o roteiro e a direção", concluiu Lígia Prieto, ao respaldar as ações estruturais voltadas à identidade dos realizadores conduzidas pela atual gestão.