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BRASIL-CHINA

Brasil debate em Xangai estratégias para consolidar parcerias internacionais no setor audiovisual

Em seminário no Mercado do Cinema e da TV, Cassius Rosa e Joelma Gonzaga defenderam políticas públicas de longo prazo, cooperação internacional e ampliação da presença do cinema nacional no exterior
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Publicado em 22/06/2026 12h38 Atualizado em 23/06/2026 18h39
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Foto: Luciele Oliveira/MinC

O Ministério da Cultura (MinC) apresentou, neste domingo (21), em Xangai, as políticas públicas estruturantes para o audiovisual brasileiro na próxima década, com destaque para a internacionalização do audiovisual. A agenda ocorreu durante o Seminário Setorial no Mercado do Cinema e da TV de Xangai, no Shanghai Exhibition Center, no âmbito da missão oficial do Brasil à República Popular da China e da programação do Ano Cultural Brasil-China 2026.

Com a participação do secretário-executivo adjunto do MinC, Cassius Rosa, e da secretária do Audiovisual, Joelma Gonzaga, o encontro reuniu representantes do Governo do Brasil, produtoras e distribuidoras para debater desenvolvimento, financiamento, coprodução, internacionalização e novas oportunidades de negócios entre os mercados brasileiro e chinês.

Na abertura da programação, Cassius Rosa apresentou a estratégia federal para consolidar políticas permanentes para o setor. O secretário-executivo adjunto destacou que a presença brasileira em mercados internacionais tem sido fortalecida por uma atuação contínua, capaz de ampliar relações institucionais, empresariais e criativas.

“Um exemplo da nossa atuação na China mostra a importância dessa constância. Eu tive a honra de participar da primeira missão brasileira, do Festival de Beijing, em que o Brasil foi o país homenageado. Naquele momento, nós estávamos com um pouco mais de dez pessoas na delegação”, relembrou. Segundo Cassius, a ampliação da delegação brasileira em Xangai revela o avanço da estratégia de internacionalização do audiovisual nacional.

“De lá para cá, nós hoje estamos aqui com a marca de mais de oitenta profissionais participando da delegação e é nítida a diferença de relacionamento que nós tivemos nesse processo”, afirmou.

O secretário-executivo adjunto também ressaltou a importância da construção de vínculos de confiança com o mercado chinês, a partir de presença constante e diálogo permanente, algo que aponta para o conceito chinês de Guanxi, uma relação construída com reciprocidade ao longo do tempo.

“O Guanxi, que tanto se fala, se comprova na vida prática, com a abertura que nós já tivemos aqui, com a facilidade do diálogo, as pessoas já conhecendo um pouco mais do cinema brasileiro. Nós precisamos trazer assa constância não apenas no mercado asiático, mas em todos os mercados”, avaliou.

Estratégia decenal e cooperação Brasil-China

Durante o seminário, Cassius Rosa e Joelma Gonzaga apresentaram o Plano de Diretrizes e Metas do Audiovisual 2026–2035 (PDM), aprovado pelo Conselho Superior de Cinema, como um dos principais instrumentos estratégicos para orientar as políticas públicas do setor nos próximos dez anos. O plano inclui, entre seus eixos, a internacionalização do audiovisual, a difusão, distribuição e exibição de obras, o financiamento, a regulação e o desenvolvimento econômico.

A agenda em Xangai também reforçou os marcos legais já estabelecidos entre Brasil e China no setor. Os dois países celebraram instrumentos de cooperação que incluem quatro Memorandos de Entendimento e dois Acordos de Coprodução.

Esses instrumentos estabelecem o marco jurídico para o fortalecimento da cooperação bilateral no setor audiovisual, promovendo a realização de produções conjuntas, o intercâmbio técnico, artístico e cultural, a ampliação da circulação de obras nos mercados brasileiro e chinês e o acesso a mecanismos de incentivo e financiamento destinados às coproduções.

Joelma Gonzaga destacou que a cooperação entre os dois países já está em curso em áreas estratégicas para o audiovisual, como a preservação.

“Assinamos um memorando de entendimento com a China Film Archive e as nossas cinematecas, Cinemateca do Brasil e Cinemateca da China, já estão cooperando, porque esse acordo está em vigência e já estão tratando ativamente de intercâmbio de conhecimento sobre memória, preservação e salvaguarda do audiovisual”, afirmou.

A secretária do Audiovisual também ressaltou a retomada da presença brasileira em organismos, fóruns e mercados internacionais.

“O Brasil voltou para todos os principais organismos internacionais que havia deixado de estar nos últimos seis anos. Nós assinamos memorandos de entendimento e acordos de cooperação com muitos países, inclusive com a China, com a França, com a Nigéria, Nova Zelândia e muitos outros paísesa”, pontuou.

Joelma lembrou ainda a presença do Brasil nos principais festivais de cinema do mundo, como parte de uma estratégia de projeção internacional do audiovisual brasileiro.

“Nós estivemos presentes nos maiores festivais de cinema do mundo, inclusive fomos homenageados no Marché du Film, no Festival de Cannes, em 2025”, completou.

A aproximação com a China foi apresentada como parte de uma agenda de permanência, diálogo e abertura de mercados para o audiovisual brasileiro. A presença da delegação brasileira em Xangai reforça uma estratégia de longo prazo, voltada não apenas à participação em festivais, mas também à construção de relações comerciais, institucionais e criativas.

“A participação do Brasil em todos os principais festivais, sempre com missões empresariais, é a mostra de que nós precisamos ter uma estratégia perene. Além da dimensão de contar as nossas histórias, nós também precisamos fazer negócios, nós também precisamos abrir mercados para o cinema brasileiro”, defendeu Cassius.

Joelma Gonzaga relacionou a cooperação internacional ao fortalecimento do Sul Global, com atenção especial aos países do Mercosul, dos BRICS, do continente africano e da Ásia. A secretária observou que a música e o cinema brasileiros funcionam como instrumentos de aproximação entre povos, ampliando o interesse por parcerias culturais e econômicas.

A secretária também destacou que a ampliação dos acordos de coprodução, dos memorandos de entendimento e das cooperações técnicas é fundamental para garantir circulação, intercâmbio de conhecimento, formação profissional e presença brasileira em mercados estratégicos.

Após a primeira parte do encontro, foi disponibilizado ao público um QR code com acesso a um guia sobre o audiovisual brasileiro, reunindo informações sobre instituições, mecanismos de financiamento e orientações para coproduzir com agentes do Brasil. O material está disponível em inglês, com possibilidade de solicitação de versão em mandarim no estande da delegação brasileira.

Animação brasileira em destaque

O segundo momento do seminário foi dedicado à apresentação da Plataforma Brasil de Audiovisual, com empresas brasileiras interessadas em coproduzir, distribuir e promover filmes e conteúdos para cinema, televisão e streaming. O primeiro bloco reuniu representantes da animação nacional.

Zé Brandão, da Copa Studio, abriu as apresentações do segmento. O produtor apresentou a trajetória do estúdio, que tem 17 anos de atuação, mais de 6 mil minutos de animação produzidos e três indicações ao Emmy Internacional. Entre os principais projetos, citou a série Irmão do Jorel, que caminha para a sexta temporada e acumula reconhecimento internacional.

“A animação brasileira consegue viajar e chegar até a China, sem dúvida nenhuma. Para mim é um orgulho, uma honra estar aqui na China, estar sendo tão bem recebido e ter a certeza de que a animação é uma maneira muito boa de fazer parceria com o audiovisual chinês”, ressaltou.

Reynaldo Marchesini, da Flamma Produções Audiovisuais, apresentou a trajetória da empresa, fundada com o objetivo de criar e contar histórias brasileiras por meio da animação. Ele relembrou a coprodução internacional Princesas do Mar, vendida para 128 países, e destacou a série Lupi e Baduki, finalista do Emmy Awards.

“A Flamma foi fundada com esse princípio: criar histórias e contar as histórias brasileiras através da animação. Será um prazer contar histórias de brasileiros e chineses na forma da animação, que é uma linguagem sensacional”, explicou.

Marta Machado, representante da Otto Desenhos Animados, enfatizou o papel da Associação Brasileira do Cinema de Animação (ABCA) na internacionalização do setor. Ela apresentou projetos do estúdio e de outros quatro grupos brasileiros com potencial de diálogo com o mercado chinês. Entre os destaques, citou Sanaba Beach, selecionado para o Festival de Annecy, além de projetos em desenvolvimento voltados à coprodução.

“A animação brasileira é autoral, é diversa e cada vez mais presente no cenário internacional. Acreditamos que há um espaço real para colaboração entre nossas indústrias", frisou.

Pela Pinguim Content, Ricardo Rozzino apresentou a trajetória da produtora, especializada em conteúdo infantil. A empresa, fundada em 1992, tem no portfólio títulos como Peixonauta, O Show da Luna, Tarsilinha e Meu Avô é um Nihonin. O representante destacou o histórico de circulação das produções no mercado asiático e o interesse em retomar e ampliar parcerias com a China.

“A gente está procurando estreitar relações com a China através da exibição dos nossos produtos para o mercado chinês, como já fizemos no passado, e produzir projetos novos”, assinalou.

Distribuição e circulação internacional

O segundo bloco reuniu distribuidoras brasileiras e destacou estratégias de circulação de obras nacionais e estrangeiras em diferentes mercados.

Fred Avellar apresentou a atuação da Gullane+ e relembrou a experiência de Plastic City, coprodução Brasil-China rodada em São Paulo e exibida na competição oficial do Festival de Veneza. O representante destacou que a empresa busca ampliar o alcance de histórias brasileiras e, ao mesmo tempo, abrir espaço para produções chinesas no Brasil.

“A gente veio aqui para a China não só para apresentar nosso catálogo, mas para apresentar histórias brasileiras chegando ao público chinês e, quem sabe, levar histórias chinesas para o público brasileiro”, declarou.

Paula Gomes, da Olhar Filmes, definiu a distribuidora como um pequeno ecossistema audiovisual. Criada em 2017, a empresa já lançou mais de 50 filmes no Brasil e vem expandindo sua atuação para produção e exibição. Entre os próximos passos, estão a primeira produção própria e a abertura de um cinema de rua com três salas.

“A gente gosta de se dedicar a cada uma das histórias, fazer um trabalho muito artesanal, muito dedicado a cada um desses títulos. A gente está aqui aberto a conversar e montar os negócios da melhor maneira para todo mundo”, comentou.

Nelson Sato apresentou a Sato Company, empresa fundada em 1985 e reconhecida pela distribuição de conteúdos asiáticos no Brasil. O executivo relembrou sua trajetória no audiovisual, iniciada em uma locadora de vídeo, e destacou a atuação da companhia como ponte entre Brasil e Ásia. Entre os planos, estão o lançamento de grandes bilheterias chinesas no mercado brasileiro e a representação da marca Galinha Pintadinha para o mercado chinês.

“A nossa ideia é ser conexão. Queremos trazer também histórias chinesas. Eu acho que é a melhor conexão que a gente possa fazer”, resumiu.

Letícia Friedrich, da Vitrine Filmes, apresentou o catálogo da empresa, que reúne cerca de 300 obras, em sua maioria brasileiras. A distribuidora, com 15 anos de atuação, esteve presente no festival com produções como Papai, na mostra Focus Brasil; A Hora da Estrela, restaurado e relançado pela empresa; e O Deserto de Luiza, na competição oficial. A Vitrine também foi responsável por lançamentos de filmes de Kleber Mendonça Filho, como Bacurau e O Agente Secreto.

“Esse ano tem sido um ano muito especial para a Vitrine, porque a gente está fortalecendo parcerias com a Ásia. Espero que a gente possa estar aqui na China fortalecendo mais essa parceria da Vitrine com a Ásia”, relatou.

Produção independente e novos mercados

O terceiro bloco foi dedicado a produtoras brasileiras com atuação em cinema, televisão, streaming, documentário, ficção, formatos e coprodução internacional.

Entre as produtoras representadas na delegação empresarial também estiveram Aline Mazzarella, produtora do Estúdio Giz, e Daniela A Busoli, CEO da Formata. Fundado em 2014 no Rio de Janeiro, o Estúdio Giz atua no desenvolvimento e na produção de cinema com criadores independentes, com foco em narrativas de forte identidade e alcance internacional. Já a Formata, criada em 2015, é uma produtora independente especializada em criação e produção de grandes reality shows, longas-metragens e séries para TVs abertas e plataformas de streaming.

Vânia Lima, do Grupo Tem Dendê, apresentou a empresa sediada em Salvador, na Bahia, como um hub estratégico para o Norte e o Nordeste do Brasil. Com 27 anos de atuação, a produtora reúne experiência em documentários, cinema de arte e serviços de produção. A executiva ressaltou a busca por parcerias de longo prazo e o potencial da empresa para filmagens em zonas costeiras e na Amazônia.

“Estamos buscando parceiros para construir também relações de longo prazo. Ainda estamos conhecendo o mercado chinês”, observou.

Patrick Luciano, da Coração da Selva, abordou o diálogo entre o melodrama brasileiro e o consumo crescente de conteúdos asiáticos no Brasil. O produtor citou a força histórica da novela brasileira e relatou experiências inspiradas em modelos narrativos coreanos para plataformas de streaming.

“Hoje não tem um mercado que se espelha mais que o Brasil como a Ásia, que é inspirador, porque tem sido um mercado que tem mudado o formato que o mundo vê o conteúdo. A novela e o melodrama são muito brasileiros, são uma paixão equivalente a futebol e samba”, discursou.

João Daniel Tikhomiroff evidenciou a trajetória da Mixer Films, produtora com mais de 45 anos de atuação. Ele destacou a produção de séries, longas-metragens e conteúdos para plataformas como Globoplay, Netflix, Disney e Max, além de coproduções estabelecidas com a Espanha. Entre os projetos em busca de parcerias, citou uma nova versão de Besouro, o projeto gastronômico Estrelado e o longa de animação Vivi Viravento, com criação de Alê Abreu.

“A Mixer Filmes existe há mais de 45 anos. Conseguimos estabelecer três coproduções com a Espanha, um longa e duas séries”, lembrou.

Márcio Yatsuda, da Movioca, introduziu a produtora como uma casa de conteúdo voltada a diferentes formatos, incluindo séries, documentários, animações e realities. Ele enfatizou a exportação de um formato original brasileiro de reality show para Holanda e Alemanha e apontou o interesse em firmar parcerias para distribuição, exportação de formatos e coproduções.

“Estamos buscando parceiros para a distribuição dos nossos conteúdos, exportação de formatos e realização de coproduções”, indicou.

Tom Pinheiro, da ORI Imagem e Som, encerrou as apresentações destacando a atuação da produtora em conteúdos de impacto social, relevância artística e valorização da diversidade racial e cultural. Com sede em Salvador e expansão para São Paulo, a empresa tem investido em coproduções internacionais e apresentou projetos de ficção, drama, ação e romance.

“Porque, para a gente, cinema negro é cinema brasileiro. A gente tem produzido conteúdos de impacto social, relevância artística”, concluiu.

Ao reunir governo, agentes de mercado e empresas brasileiras em Xangai, o seminário reforçou a estratégia do MinC de consolidar o audiovisual como política pública de longo prazo, setor econômico estratégico e ferramenta de projeção internacional do Brasil. A agenda também fortaleceu a presença brasileira no mercado chinês e abriu novas possibilidades de cooperação entre os dois países no campo da criação, da produção, da distribuição e da circulação de obras audiovisuais.

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22.06.2026 -Seminário Setorial no Mercado do Cinema e TV de Shanghai

Cultura, Artes, História e Esportes
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