Iphan e UFPel mapeiam rotas de tropeiros no Rio Grande do Sul
O trabalho em conjunto com o curso de Bacharelado de Arqueologia da UFPel é inédito e abrange quatro municípios gaúchos

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) firmaram, em dezembro de 2025, convênio de cooperação técnica para identificar, mapear e documentar sítios arqueológicos vinculados ao ciclo do tropeirismo no Rio Grande do Sul. O trabalho em conjunto com o curso de Bacharelado de Arqueologia é inédito e abrange quatro municípios gaúchos: Santo Antônio da Patrulha, Bom Jesus, São José dos Ausentes e São Francisco de Paula.

O tropeirismo foi uma atividade econômica e cultural do Brasil colonial, baseada no transporte de gado, mulas e mercadorias por longas distâncias, e tem esse nome pois os responsáveis por esse trabalho eram chamados de tropeiros. Essa prática marcou a ocupação do território gaúcho a partir do século 18 e os quatro municípios escolhidos para a pesquisa correspondem ao trecho mais antigo do caminho tropeiro no estado.
A equipe responsável pela pesquisa é formada por sete integrantes, sendo dois professores, um doutorando e quatro estudantes de graduação de arqueologia. A coordenação é dos arqueólogos doutores Rafael Corteletti e Rafael Guedes Milheira, ambos docentes do curso da UFPel. O Iphan entra com aporte financeiro de R$ 174.200,00.
Organização do trabalho - Iniciado com as pesquisas de campo, em junho de 2026, o planejamento do trabalho é dividido em três frentes principais:
Planejamento e análise documental, com estudo de documentos históricos e imagens de satélite para identificar áreas com potencial de conter estruturas ou vestígios ligados ao tropeirismo;
Trabalho de campo nos quatro municípios, com uso de drones, equipamentos de medição, ferramentas de georreferenciamento e mapeamento por GPS, além de entrevistas com moradores locais que conhecem a história e a geografia da região;
Sistematização final dos dados, com elaboração de mapas, relatórios e catálogos, e atualização do Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) do Iphan — sistema pelo qual ocorre o reconhecimento oficial de sítios arqueológicos no país.
A conclusão do projeto está prevista para dezembro de 2026.
O que se espera encontrar? - Entre os vestígios buscados, estão corredores e caminhos de pedra, taipas, ruínas de antigas fazendas e outras estruturas associadas à essas antigas rotas de circulação de pessoas, animais e mercadorias pelo território gaúcho. A validação de cada indício como parte do ciclo tropeiro considera múltiplas variáveis, como o contexto do local, informações históricas documentadas e relatos obtidos em entrevistas orais com moradores das comunidades.

A equipe já esteve em campo nos municípios e já identificou provas relacionadas às antigas rotas de tropeiros. O estudo está em andamento e os resultados serão divulgados ao final do trabalho junto às prefeituras dos municípios.
Entender o passado - Para os pesquisadores, o levantamento busca reconstruir uma rede de caminhos, ramais e pontos de conexão que permitiam o deslocamento das tropas pelo Rio Grande do Sul, ligando fazendas, vilas e áreas do comércio.
O professor Rafael Corteletti relaciona esse processo à circulação de gado após o período missioneiro. Animais criados nas reduções jesuíticas passaram a se dispersar pelo território e, com o avanço da ocupação portuguesa, foram capturados e transportados para outras regiões, dando origem a caminhos que se consolidaram como rotas tropeiras.
Esses trajetos ajudaram a estabelecer conexões econômicas e territoriais que contribuíram para a formação de comunidades gaúchas e, mais tarde, para a própria formação de práticas culturais associadas ao modo de vida no Rio Grande do Sul, ligadas à criação de animais e à vida no campo.
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