Iphan e Museu Câmara Cascudo recuperam urna arqueológica no RN
Achado traz informações sobre ocupações humanas do passado, modos de vida, tecnologias e relações estabelecidas com o território

Em maio de 2026, ao caminhar por uma estrada de terra em Santo Antônio (RN), o morador local Marcelo Sena encontrou um objeto no chão semelhante a uma vasilha arqueológica. Pelo conhecimento prévio, entrou em contato com o professor Abrahão Silva, que trabalha no setor de arqueologia do Museu Câmara Cascudo da Universidade Federal do Rio Grande Norte (UFRN). Em seguida, o professor acionou a superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no estado.
Marcelo desconfiou da origem do achado, porque, em 2012, já havia encontrado uma peça semelhante na área de implantação de um centro de tratamento de resíduos. Na época, Marcelo cursava psicologia e mostrou o achado para uma de suas professoras, que tinha formação em antropologia. Ela, então, o aconselhou a entrar em contato com o Museu Câmara Cascudo (MCC) em Natal.
Com o objetivo de fazer o resgate com urgência, considerando o risco de destruição por ser uma estrada de terra que transitam veículos e pedestres, o MCC, o Iphan e as prefeituras de Santo Antônio e Lagoa D’Anta firmaram uma parceria. O MCC ofereceu os pesquisadores e equipamentos, Iphan o transporte, a prefeitura de Santo Antônio vigilância noturna e a de Lagoa D’Anta fez o desvio da estrada.
O resgate aconteceu entre os dias 4 e 6 de agosto. O professor Abrahão Nunes, que atua no setor de arqueologia do museu explica: “O que Marcelo viu era apenas um pedaço da cerâmica, e esse pedaço mostrava que a peça poderia ser de grande dimensão. Pelo tamanho, e por utilizarmos técnicas arqueológicas, não podemos chegar e cavar. É necessário ter um espaço de escavação maior para conseguirmos retirar a peça de lá o mais completa possível.”

Após o início da escavação, foi descoberto que apenas a ponta da vasilha estava visível. A ideia inicial era retirá-la em partes, mas durante o processo foram encontrados dois pequenos fragmentos ósseos, que fizeram o trabalho em campo ser suspenso, diante da possibilidade de ser uma urna de enterramento indígena. Como o resgate exigia maior cuidado e demandaria vários dias, a peça foi retirada envolta de uma espuma expansiva de poliuretano (casulo), para a escavação ser terminada em laboratório. Lá foram utilizadas ferramentas mais adequadas, foram recuperados 14 dentes completos e oito fragmentos de dentes.

Abrahão explica o que realmente era o achado: “O que achávamos que era uma vasilha, na realidade são duas vasilhas: uma inteira e a outra com apenas dois fragmentos. Uma delas era a urna, onde ficou depositada os ossos humanos, e a outra era utilizada como tampa. Devido à acidez do solo ao longo do tempo, a matéria orgânica se decompôs e os ossos humanos desapareceram, restando apenas os dentes, o único material biológico que resistiu. Agora, vamos iniciar uma outra fase de análise nos dentes para tentar identificar a idade, os hábitos alimentares e outros costumes daquela população”.
“Um achado arqueológico preserva informações sobre ocupações humanas do passado, modos de vida, tecnologias e relações estabelecidas com o território. A adequada documentação e o estudo da vasilha poderão, portanto, ampliar o conhecimento científico sobre a presença de populações indígenas na região e contribuir para a valorização e a preservação da memória do território potiguar”, afirma John Rocha, chefe da Divisão Técnica do Iphan, que participou de toda recuperação.
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