Estudo

Relatório global aponta desafios para garantir acesso seguro à terra no mundo

Publicado em 13/08/2026 12:21Modificado há 3 horas
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Casinha branca simples no campo com cerca na frente entre montanhas.

Apenas 35% das terras do mundo têm direitos de propriedade, posse ou uso formalmente documentados. Além disso, mais de 1,1 bilhão de pessoas (23% da população adulta global) acreditam que podem perder os direitos sobre parte ou a totalidade de suas terras e moradias nos próximos cinco anos. Quando se trata de distribuição das áreas agrícolas, os 10% maiores detentores operam 89% delas. As explorações acima de mil hectares representam mais da metade desta superfície. Enquanto isso, 85% dos agricultores administram propriedades inferiores a dois hectares e, juntos, ocupam apenas 9% das terras agrícolas do planeta.

Essas são apenas algumas das conclusões apresentadas no Relatório sobre a Situação Global da Posse e da Governança da Terra (SLTG), elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em conjunto com a International Land Coalition (ILC) e o Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (CIRAD).

A versão em português do relatório integra a cooperação entre o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), o Incra e a FAO.

O estudo reúne dados sobre concentração fundiária, direitos de mulheres e povos tradicionais e relação entre governança da terra, clima e segurança alimentar. Publicado em 2026, o documento constitui o primeiro balanço global abrangente sobre como a terra é apropriada, utilizada e governada. 

O diagnóstico mostra que os avanços das últimas duas décadas ainda não foram suficientes para ampliar, na mesma proporção, a segurança da posse. Segundo demonstrado, 55% das terras do planeta permanecem sem documentação formal e, em aproximadamente 10%, a situação da posse é desconhecida.

Povos e comunidades tradicionais

O relatório chama atenção para a diferença entre a ocupação dos territórios e o reconhecimento jurídico dos direitos sobre eles. Povos indígenas e outros grupos detentores de direitos consuetudinários ocupam aproximadamente 5,5 bilhões de hectares, equivalentes a 42% das terras do mundo. Desse total, cerca de 1 bilhão de hectares possui direitos de propriedade claramente reconhecidos.

Esses territórios desempenham papel relevante na agenda ambiental. As áreas consuetudinárias já mapeadas armazenam cerca de 45 gigatoneladas de carbono considerado irrecuperável e abrigam áreas importantes para a conservação da biodiversidade. Ao mesmo tempo, enfrentam pressões relacionadas à expansão urbana, infraestrutura, agricultura em larga escala, mineração e exploração de recursos naturais.

As desigualdades de gênero constituem outro desafio identificado. Em quase todos os países com dados disponíveis, os homens têm mais chance de possuir terras ou direitos seguros sobre elas do que as mulheres. Em quase metade desses países, a diferença supera 20 pontos percentuais.

Governança da terra

O SLTG é o principal produto de conhecimento do Observatório Global da Terra (GLO), iniciativa coordenada pela FAO em parceria com a ILC e o CIRAD. O trabalho contribui para o acompanhamento das Diretrizes Voluntárias sobre a Governança Responsável da Terra, dos Recursos Pesqueiros e Florestais no Contexto da Segurança Alimentar Nacional (DVGT), aprovadas em 2012.

O relatório foi lançado em fevereiro deste ano, durante a 2ª Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRADR+20), realizada em Cartagena das Índias, na Colômbia. O Brasil participou da organização e dos debates do encontro, que retomou, duas décadas depois, a primeira conferência realizada em Porto Alegre (RS), em 2006.

Cooperação

A versão em português do SLTG busca ampliar o acesso aos dados sobre a situação fundiária mundial e contribuir para a formulação de políticas públicas baseadas em evidências. A iniciativa integra uma agenda de cooperação entre MDA, Incra e FAO que inclui ações relacionadas ao acesso à terra, à governança fundiária e ao intercâmbio de experiências, com atenção também às mulheres e aos jovens rurais.

Para o Brasil, a agenda envolve agricultores e agricultoras familiares, assentados da reforma agrária, povos indígenas, comunidades quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais. A ampliação do conhecimento sobre a estrutura fundiária, a garantia de direitos territoriais e o fortalecimento da governança e da participação social contribuem para orientar políticas de acesso à terra, desenvolvimento rural e segurança alimentar.

A expectativa é que a edição em português amplie a circulação dos dados produzidos pelo Observatório Global da Terra e contribua para avaliar avanços, identificar desigualdades e, ainda, promover ações de cooperação internacional.

Acesse a versão em Português do Relatório sobre a Situação Global da Posse e da Governança da Terra.

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Agricultura e Pecuária
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