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Reumatologista da HU Brasil explica sintomas, diagnóstico e tratamento da fibromialgia
Parte do controle da dor a longo prazo depende de mudanças no estilo de vida. A atividade física tem papel importante na prevenção e no controle dos sintomas. Imagem ilustrativa: Magnific.
Teresina (PI) – Apesar de reconhecida pela medicina, a fibromialgia ainda é frequentemente incompreendida pela sociedade. Trata-se de uma síndrome de dor crônica difusa, caracterizada por uma alteração no processamento dos estímulos dolorosos pelo sistema nervoso central. Como não existem exames laboratoriais ou de imagem capazes de confirmar diretamente a doença, o diagnóstico é essencialmente clínico e exige uma avaliação cuidadosa.
Nesta entrevista, a reumatologista do Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI) vinculado à HU Brasil, Bruna Castro, explica o que caracteriza a fibromialgia, como é feito o diagnóstico e quais são as principais formas de tratamento.
O que é a fibromialgia?
A fibromialgia é uma síndrome de dor crônica difusa. Isso significa que os pacientes apresentam dores generalizadas, que podem ser percebidas em diferentes partes do corpo, incluindo músculos, tendões e articulações. No entanto, essas dores não são necessariamente provocadas por uma lesão nos locais em que são sentidas.
A condição está relacionada a uma alteração no processamento da dor pelo sistema nervoso central. Do ponto de vista médico, trata-se de uma dor crônica primária, ou seja, não existe necessariamente uma lesão periférica nos tecidos que explique o surgimento da dor.
Há alterações nos mecanismos responsáveis por modular e filtrar os estímulos dolorosos, o que favorece uma percepção aumentada da dor.
Quais são os principais sintomas da doença, além da dor?
A fibromialgia é uma síndrome e, na medicina, isso significa que existe um conjunto de sinais e sintomas que caracteriza determinada condição. No caso da fibromialgia, o sintoma mais relevante é a presença de dor difusa e generalizada.
Além da dor, os pacientes podem apresentar distúrbios do sono, fadiga intensa e cansaço desproporcional ao tipo de atividade realizada ao longo do dia. Também podem ocorrer problemas de concentração, a chamada “névoa mental”, esquecimento frequente e transtornos de humor.
Existe um perfil mais comum de pessoas diagnosticadas com fibromialgia?
Sim. Como a pessoa com fibromialgia apresenta uma alteração funcional no processamento dos estímulos dolorosos, ocorre um fenômeno chamado amplificação da dor. Isso está relacionado a alterações nos mecanismos que modulam e filtram esses estímulos antes que eles cheguem à nossa consciência e percepção.
Entre as substâncias envolvidas nesse processo estão neurotransmissores como serotonina e noradrenalina. Também existem estudos que apontam algum grau de agregação familiar. Já foi observado que o risco de um indivíduo desenvolver fibromialgia é maior quando ele tem um parente de primeiro grau com síndrome de dor crônica ou diagnóstico de fibromialgia.
Além da predisposição familiar, diversas variáveis biopsicossociais podem favorecer o desenvolvimento da condição. Pessoas que apresentam transtornos de humor, como depressão e ansiedade, podem ter maior risco. Ambientes com níveis elevados de estresse, como situações familiares disfuncionais ou locais de trabalho muito estressantes, também podem contribuir para o aparecimento dos sintomas.
Como é feito o diagnóstico? Existe algum exame específico para identificar a fibromialgia?
O diagnóstico da fibromialgia é desafiador justamente porque não temos, atualmente, um exame de imagem ou laboratorial específico capaz de confirmar a doença ou detectar diretamente essa alteração no processamento da dor.
Por isso, o diagnóstico é baseado em uma avaliação clínica criteriosa. Muitas vezes, não é possível estabelecê-lo em uma única consulta. É necessário conhecer o perfil do paciente, a evolução dos sintomas e suas características.
Um dos grandes desafios é fazer o diagnóstico diferencial, porque muitos dos sintomas são inespecíficos. Às vezes, recebemos pacientes com diagnóstico de fibromialgia já estabelecido ou que acreditam ter a doença, mas, durante a avaliação, identificamos outra condição.
Um exemplo são os transtornos do sono, como a apneia do sono. Nesse caso, o paciente pode ter uma qualidade de sono muito ruim, acordar sonolento e apresentar fadiga constante, mas esses sintomas têm outra causa.
Por isso, é necessário investigar e descartar outras doenças antes de estabelecer adequadamente o diagnóstico de fibromialgia.
Quais são as principais formas de tratamento atualmente?
O tratamento da fibromialgia se baseia em dois pilares: a abordagem medicamentosa e a não medicamentosa.
Na fibromialgia, a abordagem não medicamentosa exerce um papel extremamente relevante. Uma parte importante da melhora dos pacientes depende dessas medidas. O primeiro passo é fazer com que o paciente compreenda a sua condição e entenda que se trata de uma doença crônica, que não está associada a um risco de morte, mas que pode afetar significativamente a qualidade de vida.
Grande parte do controle da dor a longo prazo depende de mudanças no estilo de vida. O paciente precisa conhecer a doença e identificar os fatores que agravam ou desencadeiam as crises.
A atividade física tem um papel muito importante na prevenção e no controle dos sintomas. É claro que, durante uma crise, pode ser necessário recorrer a medicamentos. Porém, a longo prazo, o paciente precisa desenvolver um programa de exercícios, começando em um nível adequado e progredindo à medida que ganha condicionamento e consistência.
Também podem fazer parte do tratamento a fisioterapia, a psicoterapia, a terapia cognitivo-comportamental e a abordagem dos distúrbios do sono. Quando existe um transtorno de humor mais relevante, pode ser necessária a participação de um psiquiatra.
Portanto, trata-se de um acompanhamento multidisciplinar. Existem diversas opções de medicamentos, mas o paciente com fibromialgia é heterogêneo. Algumas pessoas apresentam maior comprometimento do sono; outras, maior impacto relacionado ao humor. O tratamento precisa ser adaptado às necessidades de cada paciente.
Gerência Executiva de Comunicação Social da HU Brasil