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RELATOS E HISTÓRIAS
Entre plantões e abraços: conheça o relato de Julianny Ferraz conciliando a maternidade e a Enfermagem
Enfermeira implantou o primeiro serviço assistencial de enfermagem domiciliar do Brasil voltado ao cuidado da mãe e do bebê
Natal (RN) – Há 41 anos dedicada à Enfermagem, Julianny Barreto Ferraz, de 62 anos, construiu uma trajetória marcada pelo cuidado, pela sensibilidade e pelo compromisso com a vida. Natural de Natal, ela carrega na essência os valores da família e da profissão que escolheu ainda muito jovem. Filha de Lydia Ferraz, mãe de Marcella e Marianny e casada com Fabiano Motta, Julianny reúne, em sua história, duas missões que caminham lado a lado: a maternidade e a Enfermagem. 
Ao longo de mais de quatro décadas de atuação, tornou-se referência pelo olhar humano, pela força diante dos desafios e pela capacidade de transformar cuidado em acolhimento.
Maternidade e Enfermagem: amor, cuidado e força
“São duas dimensões que se completam em minha vida, mesmo eu sendo enfermeira há mais tempo do que mãe — já são 41 anos de formada. Vivi a maternidade das minhas duas filhas enquanto trabalhava diretamente na assistência às pessoas, nas mais diversas clínicas.
Costumo dizer que sou enfermeira antes de qualquer outra coisa, porque escolhi essa profissão aos 17 anos e sigo firme, até hoje, no propósito de engrandecê-la.
Era inevitável sentir o coração apertado ao deixar minhas filhas para ir trabalhar, mas também é indescritível a emoção de ouvi-las dizer: ‘Mainha, quero muito que meu olho brilhe como o seu brilha quando você sai de casa para trabalhar’.
A Enfermagem me ensinou, acima de tudo, a resiliência. Tornou-me mais forte, corajosa, destemida e empoderada. Também facilitou o cuidado com minhas filhas quando bebês, especialmente pelas experiências que já havia vivido no ciclo gravídico-puerperal. Tive a oportunidade de implantar o primeiro serviço assistencial de enfermagem domiciliar do Brasil voltado ao cuidado da mãe e do bebê, além de atuar em UBS, maternidade e berçário, acompanhando gestantes, puérperas e recém-nascidos em sua integralidade.
A profissão me ensinou que nem tudo é ‘para já’; é preciso manter a ordem e estabelecer prioridades. Mais do que isso, ensinou-me que cuidar do amor de alguém é uma responsabilidade que exige ciência, empatia, esforço, generosidade, compromisso, ética, respeito, técnica, competência e habilidade.”
Momentos marcantes
“Inúmeros momentos marcaram minha trajetória, mas destaco especialmente a história do senhor Damasceno. Portador de hipertensão, diabetes, doença arterial obstrutiva periférica e insuficiência renal crônica — tendo, inclusive, passado por transplante — ele também sofreu amputação parcial de um membro inferior.
Damasceno foi submetido à terapia larval, técnica em que somos pioneiros no Brasil desde 2012, utilizada no tratamento de feridas de difícil cicatrização por meio da aplicação de larvas esterilizadas de moscas. Como ele próprio diz: ‘Essa terapia salvou a minha vida’.
Após mais de 60 dias de internação e cinco procedimentos cirúrgicos, ele foi avaliado por nossa comissão e iniciou o tratamento. Em apenas duas semanas, a ferida apresentou grande evolução. Recebeu alta e seguiu em acompanhamento ambulatorial até a completa cicatrização.
Hoje, mesmo utilizando prótese, caminha, dirige, pratica atividade física e leva uma vida normal. Contribuir para a autonomia e a qualidade de vida das pessoas é um dos pilares que norteiam o meu fazer.”
Desafios e delicadezas da missão
“O maior desafio está na dinâmica imposta pelo exercício profissional: quando um filho adoece, quando nossa presença é necessária em uma comemoração escolar e não conseguimos estar lá, quando o cansaço supera as forças e nos sentimos culpadas por não atender plenamente às necessidades deles.
Mas a delicadeza da profissão está justamente em sua essência. Ser enfermeira me faz enxergar além, cuidar de forma integral e entregar o melhor de mim em cada momento vivido, tanto na Enfermagem quanto na maternidade.
O que me fortalece é a certeza de que nasci para desempenhar, com amor e dedicação, ambos os papéis.”
O papel da Enfermagem
“Acredito que, na Enfermagem, somos ponte. Intermediamos todos os processos e somos a categoria que chega e permanece quando todos os outros já partiram. Somos o início, o meio e o fim do ciclo assistencial.
Cuidar é uma arte amorosa, árdua, exaustiva, diligente, atenciosa e instintiva, capaz de levar esperança, conforto e proteção. Cada toque, palavra e atitude pode transformar a vida de quem cruza o nosso caminho — seja como mãe, seja como enfermeira.
A mensagem que deixo é: seja FAROL para todas as vidas que cruzarem a sua.”
Depoimento de Julianny Barreto Ferraz
Enfermeira do HUOL-UFRN-HU BRASIL