MULHERES E CLIMA

Plenária das Mulheres e Juventudes do Bioma Pampa reúne vozes dos territórios para construir propostas de justiça climática

Encontro realizado em Porto Alegre destacou os impactos da crise climática sobre mulheres, juventudes, povos indígenas, quilombolas e comunidades rurais, além de apontar prioridades para políticas públicas construídas com participação social

Publicado em 12/06/2026 22:02
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Plenária Mulheres e Juventudes no Bioma Pampa - Fotos: Lawrin Ritter
Foto: Lawrin Ritter

Mulheres, jovens, representantes de movimentos sociais, povos indígenas, comunidades quilombolas, agricultores familiares, pesquisadoras e gestores públicos participaram, no dia 10 de junho, da Plenária das Mulheres e Juventudes nos Biomas Pós-COP30 - Etapa Pampa, realizada no Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários). 

A atividade integrou a série nacional promovida pelo Ministério das Mulheres em parceria com a Secretaria-Geral da Presidência da República, por meio da Secretaria Nacional de Juventude, com apoio do Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa), do Conselho Nacional da Juventude (Conjuve) e da Jovem Campeã Climática da Presidência da COP30 (PYCC). 

Ao longo do dia, participantes compartilharam experiências e construíram coletivamente propostas para o enfrentamento da crise climática a partir da realidade dos territórios. O encontro teve como foco a justiça climática, a igualdade de gênero, a participação social e a valorização dos saberes locais, considerando as especificidades do Pampa – bioma presente exclusivamente no Rio Grande do Sul em território brasileiro.

A programação contou com uma mesa de abertura, seguida pelo painel Território, justiça climática e desigualdades. À tarde, os debates foram aprofundados em quatro grupos temáticos: impactos da crise climática no bioma; papel do Pampa na dinâmica climática; prioridades políticas, governança e financiamento climático; e boas práticas territoriais em emergências climáticas e desastres com foco em gênero.

Um dos destaques da plenária foi a participação de estudantes da EMEF Marcílio Goulart, que contribuíram ativamente para os debates. Seus relatos sobre dificuldades enfrentadas durante períodos de chuva, como problemas de mobilidade e acesso a serviços, ajudaram a construir as prioridades apontadas pelos grupos de trabalho e evidenciaram como a crise climática afeta o cotidiano das comunidades.

As discussões reuniram experiências de diferentes regiões do estado e demonstraram como os eventos extremos impactam de forma desigual as populações. As enchentes de 2024, a seca prolongada, a insegurança alimentar, a dificuldade de acesso à água potável, o êxodo rural e a perda de territórios tradicionais estiveram entre os temas mais recorrentes.

Representando a Marcha Mundial das Mulheres e o Coletivo Periferia Feminista, Jheiny Carolina Amarante de Souza destacou a importância de construir respostas coletivas a partir das experiências das comunidades diretamente afetadas.

“Enquanto a gente fica à frente de eventos climáticos extremos, como o caso das enchentes de 2024 aqui no Rio Grande do Sul, nós conseguimos entender quem são as pessoas mais afetadas por esse sistema. São comunidades periféricas, indígenas, quilombolas, povos ribeirinhos e pessoas que têm contato direto com a natureza. A construção coletiva precisa passar pelas pessoas que vivem nos territórios e pelas suas experiências exitosas”, afirmou.

Plenária Mulheres e Juventudes no Bioma Pampa - Fotos: Lawrin Ritter
Fotos: Lawrin Ritter

Pampa, território e pertencimento

As discussões também reforçaram a necessidade de ampliar o reconhecimento do Pampa e de suas características ambientais, culturais e sociais. Entre as propostas apresentadas pelos participantes estão o fortalecimento da educação climática conectada ao território, o incentivo a práticas produtivas sustentáveis, a valorização dos conhecimentos tradicionais e o apoio às comunidades que atuam na preservação ambiental.

Delegada do Bioma Pampa para a COP30, Paula Hahn destacou que um dos principais desafios é tornar o bioma mais conhecido pela própria população.

“É importante que as pessoas entendam que o Pampa não é apenas uma imagem genérica de meio ambiente. Nosso território é formado por campos, áreas úmidas e banhados que cumprem funções fundamentais para o equilíbrio climático. A educação climática precisa dialogar com essa realidade e ajudar as pessoas a compreenderem as relações entre os territórios e os impactos que vivenciam”, ressaltou.

Entre as prioridades apontadas pelos grupos de trabalho estão a ampliação do acesso à terra e à informação sobre processos de regularização fundiária e demarcação de territórios, o fortalecimento da educação ambiental e climática, a valorização de iniciativas comunitárias de proteção ambiental, a implementação de mecanismos de pagamento por serviços ambientais e a maior transparência na aplicação dos recursos destinados ao enfrentamento da crise climática.

Plenária Mulheres e Juventudes no Bioma Pampa - Fotos: Lawrin Ritter
Fotos: Lawrin Ritter

Povos indígenas e proteção dos biomas

A ativista indígena do povo Kaingang e coordenadora-geral da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (ARPINSUL), Luana Kaingang, chamou atenção para a necessidade de fortalecer a visibilidade dos biomas do Sul do país e dos povos que atuam em sua proteção.

“É importante falar da proteção dos biomas levando em consideração os povos indígenas que vivem nesses territórios e ajudam a preservar essa biodiversidade. Precisamos levar e ecoar essas vozes, porque a resposta somos nós”, afirmou.

Os debates também destacaram a contribuição da agricultura familiar, da agroecologia, dos sistemas produtivos tradicionais, das cozinhas solidárias, das hortas comunitárias e das redes de apoio organizadas durante as enchentes de 2024 como exemplos de iniciativas que fortalecem a resiliência dos territórios diante da crise climática. 

Plenária Mulheres e Juventudes no Bioma Pampa - Fotos: Lawrin Ritter
Fotos: Lawrin Ritter

Contribuições para políticas públicas

Durante o encontro, a assessora da Secretaria-Executiva do Ministério das Mulheres, Laís Rezende, destacou que as plenárias representam uma etapa importante de escuta e mobilização social em torno da agenda climática.

Segundo ela, os acúmulos produzidos ao longo do ciclo serão sistematizados em documentos que reunirão as percepções, prioridades e propostas apresentadas por mulheres e juventudes dos diferentes biomas brasileiros. O material servirá de subsídio para organizações da sociedade civil e para a formulação e o aprimoramento de políticas públicas.

As mesas de debate também reuniram representantes da Secretaria Nacional de Juventude, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Secretaria Estadual de Mulheres do Rio Grande do Sul, da Coordenadoria da Mulher de Porto Alegre e de organizações da sociedade civil, como Amigas da Terra Brasil, Eco Pelo Clima, Marcha Mundial das Mulheres e Umbuntu Alvorada.

Sobre as plenárias

O ciclo de Plenárias das Mulheres e Juventudes nos Biomas Pós-COP30 é resultado de uma agenda construída a partir dos debates realizados durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) e busca fortalecer a participação social na construção de respostas à crise climática nos territórios.

A iniciativa já passou pelos biomas Mata Atlântica, Pantanal, Amazônia e Caatinga. Após a etapa do Pampa, o ciclo será concluído no Cerrado, em Brasília, no dia 17 de junho, reunindo contribuições de mulheres e juventudes dos seis biomas brasileiros para fortalecer a agenda de justiça climática, igualdade de gênero e desenvolvimento sustentável.

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