Notícias
ASSISTÊNCIA ESPECIALIZADA
Transplante de microbiota fecal é realizado no HUSM para tratamento de infecção recorrente
Santa Maria (RS) – O transplante de microbiota fecal é um tratamento indicado para pacientes com infecção recorrente por Clostridioides difficile, bactéria que pode provocar episódios persistentes de diarreia e inflamação intestinal, especialmente após o uso de antibióticos. O procedimento passou a ser realizado no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) em maio deste ano, como alternativa terapêutica para casos em que o tratamento convencional não apresenta resposta adequada. A intervenção foi conduzida por uma equipe multiprofissional formada por especialistas da infectologia, gastroenterologia, Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH), Laboratório de Análises Clínicas (LAC) e enfermagem.
O procedimento foi indicado para um paciente de 45 anos que apresentava infecção recorrente por Clostridioides difficile, bactéria que pode proliferar após o uso de antibióticos e provocar diarreia persistente, inflamação intestinal e outras complicações.
Segundo a médica infectologista Liliane Pacheco, a bactéria encontra condições favoráveis para se desenvolver quando os antibióticos eliminam parte dos microrganismos que normalmente protegem o intestino.
"Quanto mais se consome antibiótico, mais bactérias boas podem morrer. Aí essa bactéria encontra espaço para crescer e causar uma infecção intestinal."
A médica explica que, além dos episódios frequentes de diarreia, a infecção pode evoluir para quadros inflamatórios intestinais graves, podendo levar à ruptura do intestino ou à infecção generalizada.
Os tratamentos convencionais utilizam antibióticos específicos, mas a doença pode retornar mesmo após a terapia inicial. Segundo Liliane, a recorrência ocorre em até um terço dos pacientes. Nesses casos, o transplante de microbiota fecal é considerado uma alternativa terapêutica para restaurar o equilíbrio da flora intestinal.
"Nos casos de falha ou de recidiva está indicado o transplante. É uma forma de recuperar a flora intestinal saudável."
Em países como os Estados Unidos, o transplante de microbiota fecal integra protocolos assistenciais para casos recorrentes da doença.
O transplante de microbiota fecal consiste na transferência de microrganismos intestinais saudáveis de um doador para um paciente. O objetivo é restaurar uma microbiota equilibrada, capaz de controlar a proliferação da bactéria e recuperar o funcionamento adequado do intestino.
"O transplante é uma forma de reflorestar o intestino. A ideia é recuperar uma flora saudável para que ela volte a exercer sua função de proteção", afirma Liliane.
Além de auxiliar na proteção contra infecções, a microbiota intestinal participa de diversos processos do organismo, incluindo mecanismos relacionados ao sistema imunológico.
Como o procedimento foi realizado
A etapa de aplicação da microbiota foi conduzida pela médica residente de gastroenterologia Gabrielle Lenz de Abreu, sob supervisão da gastroenterologista Daniela Gomez da Costa, chefe da Residência de Gastroenterologia do HUSM.
A equipe foi responsável pela administração do material processado por meio de colonoscopia, método amplamente utilizado para esse tipo de tratamento.
Antes do procedimento, o paciente realizou o mesmo preparo exigido para uma colonoscopia convencional, com limpeza intestinal para permitir a visualização adequada do intestino grosso.
"Foi uma colonoscopia normal. Fizemos o preparo intestinal e avançamos com o aparelho até a região inicial do intestino grosso para realizar a infusão do material", explica Gabrielle.
Após o preparo realizado pelo LAC, a microbiota foi descongelada, diluída e aplicada em diferentes segmentos do intestino grosso por meio do canal de trabalho do colonoscópio.
"O material chega em forma líquida. Nós o distribuímos em diferentes partes do intestino para favorecer a colonização das bactérias benéficas."
Ao final do procedimento, a equipe utilizou um tampão retal para prolongar o tempo de contato da microbiota com a mucosa intestinal e favorecer sua fixação. A intervenção foi realizada sob sedação leve a moderada, sem necessidade de anestesia geral, e ocorreu sem intercorrências.
Escolha do doador e preparação da amostra
Uma das etapas mais importantes do transplante foi a seleção do doador. A preferência é por familiares saudáveis, sem doenças ativas, sem uso recente de medicamentos que possam alterar a microbiota intestinal e com baixo contato com ambientes hospitalares. No caso realizado pelo HUSM, o doador foi um primo do paciente.
"A gente procura uma pessoa o mais saudável possível. Ela passa por uma série de exames para garantir a segurança do procedimento", explica Liliane.
Antes da doação, o voluntário passou por uma avaliação clínica e laboratorial, incluindo mais de 30 exames para investigação de doenças infecciosas e outros fatores que poderiam representar riscos ao receptor.
Embora seja popularmente conhecido como transplante fecal, o material utilizado não corresponde às fezes in natura. Após a coleta, a amostra passa por processamento específico para obtenção da microbiota que será transplantada.
O Laboratório de Análises Clínicas participou de todas as etapas, desde a avaliação do doador até o preparo final do material.
"O papel do laboratório no processo foi em três momentos: a coleta da amostra, a testagem e o processamento da amostra para o transplante", explica a farmacêutica bioquímica Juliana Fleck.
A avaliação envolveu exames microbiológicos, imunológicos e testes para doenças infecciosas. O processamento da amostra foi realizado por Juliana Fleck e pela técnica de laboratório Adriana Zancan.
"Os procedimentos são executados dentro de cabines de segurança biológica, em ambientes apropriados para evitar contaminações."
Após o preparo, a amostra foi armazenada a -80 °C para preservar a viabilidade dos microrganismos até o dia do procedimento. No momento da aplicação, o material foi descongelado e encaminhado à equipe médica.
Segurança do procedimento e acompanhamento do paciente
O transplante de microbiota fecal é realizado seguindo protocolos específicos para seleção do doador, processamento laboratorial da amostra e acompanhamento clínico do paciente.
No HUSM, todas as etapas observaram critérios de biossegurança e contaram com a participação de profissionais da infectologia, gastroenterologia, Serviço de Controle de Infecção Hospitalar, Laboratório de Análises Clínicas e enfermagem.
Nos primeiros dias após o procedimento, houve redução dos episódios de diarreia apresentados pelo paciente.
"Quatro dias depois ele já não apresentava mais os episódios de diarreia que vinham ocorrendo diariamente", relata Gabrielle.
O paciente permanece internado para tratamento de outras condições clínicas e segue sendo acompanhado pelas equipes assistenciais.
Organização do procedimento
A realização do transplante exigiu a definição de fluxos assistenciais e laboratoriais para seleção de doadores, processamento da microbiota, armazenamento das amostras e aplicação clínica do material.
Esse trabalho envolveu profissionais da infectologia, gastroenterologia, Serviço de Controle de Infecção Hospitalar e Laboratório de Análises Clínicas.
"Nosso papel é organizar os fluxos, definir como tudo será feito com segurança e garantir que cada etapa esteja adequada para o transplante", destaca Liliane.
O transplante de microbiota fecal é indicado para pacientes com infecção recorrente por Clostridioides difficile quando o tratamento convencional não apresenta resposta adequada. A realização do procedimento no HUSM permite a oferta dessa alternativa terapêutica no contexto assistencial da instituição, conforme indicação clínica e avaliação das equipes responsáveis.
Sobre a HU Brasil
O Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM-UFSM) integra a Rede HU Brasil desde 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.
Por Mariângela Recchia - Unidade de Comunicação do HUSM-UFSM

- infografico

- Os procedimentos são executados dentro de cabines de segurança biológica, em ambientes apropriados para evitar contaminações.