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SAÚDE MENTAL
Projeto Acolhe completa seis meses no HUSM-UFSM com quase 100 atendimentos
Santa Maria (RS) – No Hospital Universitário de Santa Maria, da Universidade Federal de Santa Maria (HUSM-UFSM), vinculado à HU Brasil, cuidar de quem cuida tem sido um compromisso cada vez mais concreto. O Projeto Acolhe, idealizado pela Administração Central da Ebserh e implementado no hospital por meio da Divisão de Gestão de Pessoas (DivGP) e da Unidade de Desenvolvimento de Pessoas (UDP), completa seis meses de funcionamento consolidando-se como um espaço institucional de escuta qualificada, diálogo e promoção da saúde mental dos trabalhadores. A iniciativa integra o Plano Diretor Estratégico (PDE) 2024–2028 do HUSM, reforçando o compromisso da instituição com o cuidado de quem cuida.
Desde o início dos atendimentos, em julho de 2025, o projeto já realizou 96 atendimentos de acolhimento, sendo 55 atendimentos individuais e 41 retornos, além de seis visitas domiciliares a profissionais afastados. Também foram promovidas 33 reuniões com chefias, 11 encaminhamentos ao médico do trabalho e uma série de práticas voltadas ao bem-estar integral: 295 atendimentos de Reiki, 130 de auriculoterapia, 15 aulas de ioga (atualmente com fila de espera) e três encontros de educação financeira. Mais do que números, os dados revelam adesão e confiança em um espaço que nasceu para ser seguro, confidencial e humanizado.
Para o superintendente do HUSM, Humberto Moreira Palma, “O Acolhe tem uma função estratégica no Hospital”. Segundo ele, a iniciativa é voltada ao bem-estar dos trabalhadores, independentemente da categoria: “Sejam RJU, celetistas, todos necessitam, em momentos de dificuldade emocional, social ou de qualquer outra natureza, de um local de escuta, de um espaço para serem ouvidos e orientados”.
O gestor ressalta que o projeto não tem caráter clínico. “Não é um local para fazer clínica, especificamente”, explica, mas um ambiente estruturado de acolhimento, onde as demandas são escutadas e, quando necessário, encaminhadas para os fluxos adequados.
Para Humberto, reconhecer a dimensão humana da instituição é essencial. “O Hospital é feito de pessoas. As paredes não pulsam, não sentem. Nós temos momentos de alegria, de tristeza, de dificuldades.” Ele observa que é impossível separar completamente a vida pessoal da profissional: “A gente não isola a vida do trabalho da vida doméstica. Dificuldades em casa, nos relacionamentos, com os filhos, acabam sendo transportadas para o nosso ambiente de trabalho. Por isso, é fundamental ter com quem contar e permitir-se ser acolhido”.
Reduzir riscos e fortalecer vínculos
A chefe da UDP, Cláudia Lavich, reforça que investir em saúde mental no ambiente hospitalar é uma decisão estratégica. Segundo ela, hospitais operam sob alta pressão emocional, com exposição constante ao sofrimento, decisões críticas e grande sobrecarga de trabalho - realidade especialmente presente em instituições públicas. “Isso causa um impacto psicológico muito grande e, quando não é dada a devida atenção, compromete o desempenho profissional e, consequentemente, o institucional”, afirma. Para ela, o sucesso do desenvolvimento de uma instituição está diretamente ligado à saúde mental de seus colaboradores.
Claúdia destaca que investir nessa área significa reduzir riscos de estresse e afastamentos por doenças psíquicas, além de contribuir para a motivação e o engajamento. “Impacta em ambientes de trabalho mais saudáveis, humanizados e colaborativos”, pontua. Também fortalece o vínculo institucional e valoriza os trabalhadores, elementos considerados fundamentais para a sustentabilidade organizacional.
A assistente social e coordenadora do Acolhe, Jurema Martirena, explica que o projeto nasceu diante de um cenário preocupante: “A motivação foi diminuir o número de afastamentos de colaboradores com problemas de saúde mental e promover a escuta e o diálogo”. A iniciativa começou em parceria com psicólogas organizacionais, antes de sua chegada à Unidade de Saúde Ocupacional e Segurança do Trabalho (Usost) para assumir a coordenação.
As demandas mais frequentes estão relacionadas a questões emocionais. “São problemas gerados pelo estresse do trabalho, conflitos com a equipe e situações familiares, que acabam abalando ou iniciando um sofrimento mais intenso no colaborador”, descreve. Em um hospital universitário, onde a dor e a vulnerabilidade social fazem parte da rotina, o impacto emocional não se restringe à assistência direta. “Trabalhamos em uma instituição de cuidados em saúde. Os pacientes chegam com uma carga emocional adoecida e, muitas vezes, em situação de vulnerabilidade. Isso acaba sendo repassado aos colaboradores, sejam eles da área assistencial ou administrativa”, relata Jurema.
Sem o devido cuidado, alerta, o estresse, a ansiedade e a depressão podem evoluir para quadros mais graves e resultar em afastamentos. “Se não houver amadurecimento emocional e cuidado, o sofrimento pode se intensificar”, pontua a coordenadora.
Construção de confiança
Nos primeiros meses, um dos desafios foi tornar o projeto conhecido. “Inicialmente, o Acolhe precisou se mostrar e provar que existia e que trabalhava com eficiência e eficácia para que os colaboradores passassem a procurar”, recorda Jurema.
Hoje, o fluxo de atendimento é organizado conforme cada situação apresentada. Quando necessário, o trabalhador é encaminhado ao médico do trabalho ou à médica psiquiatra, no caso de empregados da Ebserh. Para servidores do Regime Jurídico Único (RJU), seguem-se os trâmites do setor de qualidade de vida. Em algumas situações, os casos são discutidos com psicólogas organizacionais e podem envolver reuniões com as equipes.
Nem sempre, porém, as soluções são imediatas. “O que mais me marcou é ver o sofrimento do outro e não poder resolver de forma rápida, porque sabemos que muitas vezes não depende apenas do projeto. Existe uma hierarquia e processos institucionais que podem dificultar algumas soluções”, compartilha.
Ainda assim, o espaço vem se consolidando como um porto seguro dentro da instituição. Para Jurema, “Ter um local de escuta onde o próprio colega possa se direcionar para dialogar, questionar e ser escutado, em um ambiente estruturado e com qualidade, faz diferença em momentos de fragilidade”.
Práticas integrativas e cuidado ampliado
Além da escuta qualificada, o Projeto Acolhe investe em Práticas Integrativas e Complementares (PICs), ampliando o cuidado para além da abordagem tradicional. Reiki, auriculoterapia, Chi Kung e ioga têm sido procurados por trabalhadores que buscam reduzir ansiedade, melhorar o sono e aliviar tensões acumuladas ao longo da rotina hospitalar. A procura crescente demonstra que o cuidado integral: físico, emocional e social, é uma demanda real entre os profissionais. A fila de espera para as aulas de ioga, por exemplo, evidencia o interesse por estratégias que promovam equilíbrio e qualidade de vida.
Para 2026, há planos de ampliação. Segundo Cláudia, está sendo buscada parceria com o curso de Fisioterapia da Universidade para desenvolver ações voltadas ao manejo da dor crônica entre os trabalhadores. “É uma proposta inicial do projeto, pois agora temos um espaço físico razoável para criar uma agenda para esses atendimentos”, explica. A intenção também é ampliar a oferta de práticas integrativas.
Outro desafio é contemplar todos os turnos de trabalho, especialmente o noturno. “O projeto ainda está sendo implementado, necessitando ajustes, e um deles é estender os atendimentos de algumas PICS para todos os turnos. Para isso, estamos buscando parceiros voluntários para atender nos três turnos”, destaca a gestora.
Caminho para se tornar política permanente
Diante dos resultados alcançados em apenas seis meses, a possibilidade de transformar o Acolhe em política permanente já está em discussão. “Considerando a importância do projeto para o HUSM nesse período, já se vislumbra torná-lo uma política permanente”, afirma Cláudia.
A proposta é que as ações deixem de ser apenas iniciativas pontuais e passem a integrar a estrutura formal da instituição, legitimando um setor de atenção à saúde mental dos profissionais. “Isso garante respaldo oficial e permite que faça parte das diretrizes estratégicas da instituição, sendo reconhecido como uma das prioridades organizacionais”, explica.
Segundo ela, já houve uma conversa inicial com a gestão do hospital para viabilizar essa iniciativa. A formalização representaria não apenas estabilidade para o projeto, mas também a sinalização clara de que o cuidado com a saúde mental é compromisso institucional contínuo.
Um convite ao cuidado
Para os trabalhadores que ainda não procuraram o Acolhe, a mensagem é direta. “O Projeto Acolhe foi instituído pensando exclusivamente em oferecer cuidado ao colaborador do HUSM”, afirma Cláudia. E reforça que a iniciativa oferece apoio, escuta qualificada e fortalecimento emocional, com a contribuição das práticas integrativas. “É um espaço seguro, confidencial e humanizado de escuta, onde você pode compartilhar desafios, dificuldades, além de receber orientações e encontrar suporte para lidar com as demandas e adversidades do dia a dia.”
Em um ambiente onde salvar vidas é rotina e a pressão faz parte do cotidiano, reconhecer a própria vulnerabilidade é também um ato de responsabilidade. O Projeto Acolhe surge, nesse contexto, como um lembrete de que ninguém cuida sozinho — e que, para sustentar o cuidado ao outro, é preciso, antes, cuidar de si. “O Projeto Acolhe existe para auxiliar no cuidado de quem cuida”, resume a gestora.
Por Andreia Pires
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh