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SAÚDE DA CRIANÇA
HUSM-UFSM atualiza protocolo do teste da orelhinha e reforça diagnóstico precoce em recém-nascidos
Teste da orelhinha é realizado ainda nos primeiros dias de vida para identificar possíveis alterações auditivas.
Santa Maria (RS) – No início da vida, cada som importa. É por meio deles que o bebê começa a reconhecer vozes, construir vínculos e dar os primeiros passos no desenvolvimento da linguagem. Com esse olhar atento ao cuidado desde o nascimento, o Hospital Universitário de Santa Maria, da Universidade Federal de Santa Maria (HUSM-UFSM), vinculado à HUBrasil , atualizou, em novembro de 2025, o protocolo da Triagem Auditiva Neonatal (TAN), mais conhecido como teste da orelhinha. A ação ocorre no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e é realizada pelo Ambulatório de Fonoaudiologia.
A atualização segue o novo guia do Ministério da Saúde e reorganiza o fluxo de atendimento para garantir que o exame seja realizado ainda na maternidade, com continuidade nas etapas de reteste e diagnóstico. O objetivo é identificar precocemente possíveis alterações auditivas e evitar a interrupção do acompanhamento das crianças. O teste da orelhinha é um exame simples, rápido e indolor, realizado nos primeiros dias de vida do bebê. Ele permite identificar alterações auditivas antes que elas sejam percebidas pela família ou pelos profissionais de saúde.
Desde a Lei nº 12.303/2010, o exame é obrigatório em hospitais e maternidades de todo o país. A medida integra as ações do SUS voltadas à saúde da criança. A identificação precoce de alterações auditivas possibilita o início do acompanhamento e de intervenções no tempo adequado. Isso contribui para o desenvolvimento da linguagem, da comunicação e da aprendizagem.
Novo protocolo organiza fluxo e amplia acompanhamento
Com a atualização, o HUSM reforça o protocolo conhecido como 1-2-3: triagem, reteste e diagnóstico. O fluxo foi reorganizado para facilitar o acesso das famílias e garantir a continuidade do cuidado. Entre as mudanças, estão a priorização da realização do exame ainda durante a internação na maternidade e a indicação do exame Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico (PEATE) para o diagnóstico audiológico de recém-nascidos que apresentarem falha no teste e no reteste da TAN, etapa realizada posteriormente ao nível ambulatorial.
Também foram incluídas estratégias para reduzir a perda de seguimento, quando a família não retorna para as próximas etapas. A proposta é assegurar que todos os bebês com indicação completem o processo de avaliação. A fonoaudióloga do HUSM, Maria Rita Leal Ghisleni, destacou que a atualização alinha o serviço às diretrizes do Ministério da Saúde e contribui para tornar o fluxo mais ágil e resolutivo. “Com a adoção do fluxo preconizado, é possível realizar a triagem auditiva ainda na maternidade, por meio das Emissões Otoacústicas Transientes (EOAT). Nos casos de falha, o reteste ocorre ainda durante a internação, com o uso do Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico Automático (PEATE-A)”, explicou.
A etapa diagnóstica, realizada ao nível ambulatorial pelas fonoaudiólogas Letícia Kunst e Stella Quinto, também vem sendo fortalecida. Nos últimos anos, o serviço enfrentou desafios que impactaram diretamente os prazos, como problemas recorrentes com equipamentos, limitações de infraestrutura e interferências elétricas. Atualmente, com a ampliação da equipe e a previsão de novos equipamentos, o cenário é de retomada e qualificação do atendimento, com foco na resolutividade e no cuidado oportuno.
Os dados mais recentes evidenciam a consolidação do serviço. Em 2025, o HUSM registrou 2.069 nascidos vivos. Desses, 2.039 realizaram a Triagem Auditiva Neonatal, isso significa que 98,6% dos bebês foram testados. Esse índice está acima da meta mínima de 95% preconizada pelo Ministério da Saúde. Ao longo de 2025, a cobertura mensal se manteve estável e elevada, com percentuais que variaram entre 97,4% e 99,5%.
Entre os bebês triados, 213 precisaram retornar para o reteste, etapa fundamental para confirmar ou descartar alterações iniciais. Desses, 13 foram encaminhados para diagnóstico audiológico mais aprofundado. Até o momento, três casos apresentaram alteração do tipo condutiva, e um segue em investigação. Nos casos em que há indicação de reteste ou avaliação diagnóstica, é necessário comparecer às consultas agendadas. O acompanhamento completo é importante para a confirmação do diagnóstico e definição de condutas quando necessário.
Para a equipe, cada número representa uma história acompanhada de perto. A identificação precoce de alterações auditivas permite intervenções no tempo certo, contribuindo diretamente para o desenvolvimento da linguagem, da comunicação e da qualidade de vida da criança. “Quando conseguimos fechar esse ciclo, da triagem ao diagnóstico, no tempo recomendado, estamos oferecendo mais do que um exame: estamos ampliando as possibilidades de desenvolvimento dessas crianças e apoiando suas famílias desde o início”, reforçou Maria Rita.
Atuação pioneira no Brasil
O HUSM realiza a triagem auditiva neonatal desde a década de 1980, antes mesmo da obrigatoriedade estabelecida por lei, configurando-se como uma das iniciativas pioneiras na incorporação sistemática desse cuidado no contexto hospitalar público brasileiro. Essa atuação contribuiu para a consolidação da TAN no país e para a construção de práticas que, ao longo do tempo, passaram a embasar políticas públicas na área, com participação destacada da docente da UFSM, Tania Tochetto, atualmente aposentada.
Ao longo dos anos, o serviço foi incorporado de forma estruturada ao cuidado ofertado pelo Hospital, com impacto direto na identificação precoce de alterações auditivas em recém-nascidos atendidos pelo SUS. “A triagem auditiva neonatal, popularmente conhecida como teste da orelhinha, está vinculada às atividades de ensino e pesquisa desenvolvidas pela UFSM em parceria com o HUSM”, detalhou a docente da UFSM, Eliara Pinto Vieira Baggio.
Mais recentemente, a fonoaudióloga do HUSM, Maria Rita, e a docente Eliara vêm implementando atualizações no programa de TAN, alinhadas ao Guia de Atenção à Triagem Auditiva Neonatal, publicado em 2025. Segundo Eliara, “O documento do Ministério da Saúde amplia a abordagem da triagem ao propor um modelo de atenção integral, incorporando recomendações internacionais e detalhando fluxos assistenciais, responsabilidades entre os níveis de atenção e estratégias de monitoramento contínuo da audição e da linguagem”.
Entre os avanços, destaca-se a nova classificação dos indicadores de risco para deficiência auditiva, que diferencia condições mais associadas a perdas cocleares daquelas relacionadas à neuropatia auditiva, impactando diretamente a definição dos protocolos de avaliação. Também houve redução do tempo para reteste e reavaliação nos casos de falha na maternidade, além de maior organização do fluxo assistencial, com definição mais clara do papel da Atenção Primária à Saúde no acompanhamento do desenvolvimento auditivo e da linguagem. Já os serviços especializados, como o HUSM, concentram as etapas de diagnóstico e reabilitação. Para Eliara, “a TAN deixa, assim, de ser compreendida como um procedimento pontual e é reconhecida como um processo contínuo de cuidado ao longo da primeira infância”.
O novo modelo também incorpora princípios de equidade, com diretrizes específicas para populações indígenas, quilombolas e migrantes, ampliando o acesso e a efetividade das ações em saúde auditiva no país. “Nesse cenário, a trajetória do HUSM dialoga diretamente com essa evolução nacional, ao antecipar práticas hoje consideradas essenciais e contribuir de forma consistente para o aprimoramento da atenção à saúde auditiva no Brasil”, completou Eliara.
Nesse contexto, a integração entre assistência, ensino e pesquisa consolida o serviço como um importante cenário de formação em saúde. Estudantes de graduação e pós-graduação acompanham as diferentes etapas do cuidado, da triagem ao seguimento, articulando teoria, prática clínica e produção científica.
Para Eliara, “a atuação conjunta entre UFSM, HUSM e Ebserh insere os estudantes em um ambiente real de cuidado, permitindo compreender a complexidade do sistema de saúde, desenvolver raciocínio clínico e atuar de forma interdisciplinar. Esse contato com a prática assistencial qualifica a formação profissional e contribui para um cuidado mais resolutivo, humanizado e baseado em evidências”.
Sobre a HU Brasil
O HUSM-UFSM faz parte da HU Brasil desde 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a HU Brasil nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares – Ebserh. É responsável pela administração de 45 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Em 2026, em um reposicionamento junto à sociedade, ao mercado e instituições parceiras, passou a ter um novo nome, que carrega sua essência: HU Brasil.
Por Andreia Pires
Coordenadoria de Comunicação Social da Rede HU Brasil