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HUMANIZAÇÃO
Música também é cuidado
Rio de Janeiro (RJ) — Uma vez por semana, entre uivos de sirenes, bipes de monitores e rangidos de macas, as notas de uma canção atravessam o Hospital Universitário dos Servidores do Estado (HUSE-Unirio). É o sinal de que, ao longo de toda a tarde, haverá músicos percorrendo ambulatórios, enfermarias e setores administrativos, convidando todo mundo a cantar junto. “O objetivo é levar a humanização através da música a pacientes, famílias e profissionais da casa”, explica a psicóloga Priscila Cassemiro, presidente da Comissão de Humanização do HUSE. As ações musicais são realizadas por dois grupos: o do programa de extensão Florescer, composto por alunos de diversos cursos da Unirio, e o do projeto Vozes do Coração, formado por voluntários que atuam em hospitais, orfanatos e asilos há mais de dez anos.
A importância de uma iniciativa como essa é maior do que se imagina. Em um relatório que reuniu resultados de mais de três mil estudos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) destacou o papel das artes na prevenção de doenças, na promoção da saúde e no manejo e tratamento de enfermidades. No caso do projeto do HUSE-Unirio, o estudante de licenciatura em música Marvin Malheiros explica que não se trata de musicoterapia, que é uma prática mais especializada. “O que a gente faz é uma performance artística, o que também é muito interessante pros pacientes. Quando você está no hospital, talvez sem estímulo e sem ter o que fazer, ter um momentinho desses ali às vezes já salva o dia”, diz ele.
Nesse contexto, uma das preocupações dos integrantes do projeto é trazer um repertório variado. “Às vezes, a gente vai numa enfermaria e a galera pede samba, forró, MPB. Aí passamos para outra e todo mundo pede louvor”, comenta Marvin. Nas alas infantis, é comum a escolha de canções com rimas, sons de animais, letras engraçadas e espaços para interação. Em geral, as preferências pessoais são levadas em consideração: “Muitas vezes, o próprio paciente ou acompanhante escolhe a música a ser cantada, o que tem uma importância muito grande na valorização da subjetividade e autonomia, princípios fundamentais quando falamos em humanização do cuidado”, destaca Priscila.
Do meu jeito assim, que alegre o meu viver
Para os músicos, são muitas as histórias que se tornam inesquecíveis. Certa tarde, em um Centro de Terapia Intensiva (CTI), eles encontraram uma paciente que, segundo a equipe de enfermagem, estava sem fazer movimentos havia uma semana. Até que os acordes de um forró começaram a tocar. “Ela começou a se sacudir, a se balançar, a querer dançar, reagindo aos estímulos externos ali naquele momento”, conta Marvin. O forró em questão era o clássico “Eu só quero um xodó”, de Dominguinhos/Gilberto Gil.
Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer
Antes de entrar ou se aproximar de um leito, os voluntários sempre perguntam se o paciente e a família gostariam de ouvir música. Às vezes, as pessoas estão vivendo momentos muito sensíveis e recusam, mas há aceitações que surpreendem. “Teve um dia em que a equipe falou de um paciente que estava em processo de morte. E aí, quando perguntaram para a família se tudo bem tocar, a esposa do cara veio até nós e falou: ‘gente, por favor, toquem’. Ele era baterista e ela era cantora”, relata Marvin. A música escolhida pela esposa do paciente foi “Como é grande o meu amor por você”, de Roberto Carlos, que ela cantou junto sem soltar a mão do marido.
Tem que lutar, não se abater
“Deixe de lado esse baixo astral, erga a cabeça, enfrente o mal, que agindo assim será vital para o seu coração” — muitas vezes, ao entrar em um novo espaço, os músicos escolhem começar com “Conselho”, de Adilson Bispo e Zé Roberto. Foi assim no dia em que a acompanhante de um paciente apareceu de trás da cortina chorando, de rosto vermelho e inchado. “Parecia que havia recebido uma notícia muito difícil. Ela acompanhou com o olhar as músicas, mas sempre triste e visivelmente abatida. Saí rapidamente para alinhar a próxima enfermaria a ser visitada e, quando retornei, ela estava rodeada pelos alunos do projeto. Muito emocionada, dizia que a jornada de cuidado com seu esposo estava sendo muito difícil, mas não tinha se permitido chorar até então. Segundo ela, a música chegou no momento exato em que ela estava precisando”, lembra Priscila.
Um recado
Para quem se interessa por projetos de humanização em hospitais universitários, Priscila deixa um recado: “Todos nós estamos envolvidos e podemos fazer a diferença, seja fazendo parte de comissões ou de projetos ou, e talvez principalmente, sendo agentes de humanização nas nossas áreas de atuação. Àqueles que tiverem interesse de fazer parte da comissão de humanização ou do programa Florescer, serão sempre bem-vindos!”.
Sobre a HU Brasil
O HUSE-Unirio, resultado da fusão entre o HFSE e o HUGG, integra a HU Brasil desde dezembro de 2025. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.
Por Paula Lemos
Gerência Executiva de Comunicação Social da HU Brasil