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DE OLHO NA PESQUISA
Ciência e cuidado contra um vírus invisível
No Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG-Unirio), vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), uma linha de pesquisa se debruça, há mais de três décadas, sobre uma infecção silenciosa, negligenciada e cheia de lacunas. Causado por um vírus pouco conhecido, o HTLV-1, esse enigma da medicina desafia diagnósticos, impõe sofrimento e atravessa gerações. Aliando ciência, sensibilidade e persistência, o trabalho conduzido no HUGG busca conectar peças dispersas de um quebra-cabeça que, quando montado, pode transformar o cuidado e o conhecimento sobre a doença. No De Olho na Pesquisa deste mês, destacamos essa trajetória que une investigação clínica, formação de alunos e compromisso social: a pesquisa em HTLV-1.
Responsável pela linha de pesquisa no HUGG, a Professora Titular da Escola de Medicina e Cirurgia da Unirio, Marzia Puccioni, iniciou os estudos sobre HTLV-1 no final dos anos 1980, quando o vírus ainda era pouco conhecido no Brasil e no mundo. Seus primeiros estudos relatando a experiência no acompanhamento de pacientes com manifestações neurológicas, inclusive subclínicas, associadas à infecção pelo HTLV-1 foram apresentados no Congrès de Neurologie Tropicale, Limoges, França, em 1991: "Manifestations neurologiques associées à l’infection par le HTLV-I chez une famille brésilienne" e "Neurological disorders associated with HTLV-I in Rio de Janeiro, Brazil".
Na ocasião, observou que 32% (15/47) de seus pacientes com paraparesia espástica apresentavam anticorpos anti-HTLV-1 (ELISA, confirmado por Western blot). Por outro lado, destacou a presença de manifestações neurológicas subclínicas em indivíduos com infecção pelo HTLV-1, o que foi questionado na ocasião, porém, posteriormente, amplamente reconhecida e incluída no critério de diagnóstico da mielopatia associada ao HTLV-1 desde 2006 (Castro-Costa et al., 2006). Desde então, ela acompanha a trajetória da infecção e suas consequências em pacientes que muitas vezes convivem com o vírus por anos sem diagnóstico. “É uma infecção silenciosa, que pode evoluir lentamente e causar uma paralisia progressiva, linfomas agressivos e até depressão, além de outras manifestações tais como dermatológicas, reumatológicas, oftalmológicas, dentre outras, mesmo antes do aparecimento dos sintomas neurológicos”, explica.
O HTLV-1 pertence à mesma família do HIV e infecta células de defesa do organismo. No entanto, ao invés de destruí-las, como no caso da Aids, o HTLV provoca a proliferação anormal dessas células, gerando inflamações e tumores. A transmissão pode ocorrer por via sexual, amamentação, transfusão sanguínea, transplante de órgãos ou compartilhamento de seringas. Estima-se que o Brasil concentre entre 800 mil e 2,5 milhões de casos, mas não há notificação compulsória, o que dificulta a compreensão da real extensão do problema.
No HUGG, as pesquisas abrangem diversas frentes, como o estudo do líquido cefalorraquidiano (fluido que envolve o sistema nervoso central), desenvolvimento de testes diagnósticos, a avaliação de marcadores neuroinflamatórios e o uso de exames de imagem e testes neuropsicológicos para investigar lesões cerebrais. “Estudamos a relação entre alterações cognitivas, lesões de substância branca no encéfalo e a carga proviral em células do sangue periférico, que é a quantidade de vírus no sangue, além do estudo da mielopatia. Com isso, buscamos entender melhor os mecanismos da doença e propor estratégias de monitoramento e diagnóstico precoce mais eficazes”, afirma a pesquisadora. Parte das descobertas trouxeram evidências de que o vírus, antes associado apenas à medula espinhal, também afeta o encéfalo desde os estágios iniciais da infecção.
O trabalho desenvolvido ao longo dos anos já resultou em publicações internacionais, colaborações com instituições e universidades como Georg August Universität, Göttingen (Alemanha), New York Blood Center, National Institutes of Health (NIH), Food and Drug Administration, Harvard Medical School (EUA), Imperial College London (Reino Unido), St. Marianna University School of Medicine, Kawasaki (Japão), Universidade Federal do Rio de Janeiro, HEMORIO, Instituto de Medicina Tropical da USP, Instituto de Infectologia Emílio Ribas (SP) e Fiocruz do Rio de Janeiro e da Bahia, além de estudos realizados com o apoio do National Institutes of Health (NIH), dos Estados Unidos, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e do Medical Research Council (Reino Unido). O HTLV foi o tema de seu doutorado na Alemanha (apoio do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico – DAAD – e CNPq) e, posteriormente, do pós-doutorado no NIH (Bethesda, EUA, com apoio da Capes e do NIH). Seus alunos de graduação da Escola de Medicina e Cirurgia têm recebido bolsas de iniciação científica da FAPERJ, UNIRIO, PIBIC e Ebserh-HUGG.
Além do impacto científico, a pesquisa tem um papel social relevante. Muitos pacientes atendidos no ambulatório do HUGG enfrentam dificuldades de diagnóstico e tratamento, e a própria descoberta da infecção pode causar sofrimento emocional. “Recebemos famílias com grande número de membros afetados pela infecção. Mães, filhos e netos, todos infectados. É um problema social que atinge, em sua maioria, mulheres, pessoas de cor de pele preta e parda, com grande vulnerabilidade socioeconômica. Não existe vacina ou cura para a infecção. O tratamento se restringe à melhora dos sintomas e da qualidade de vida dos indivíduos infectados. E por isso precisa de maior visibilidade e recursos para pesquisa, assim como centros multidisciplinares especializados no acolhimento e na assistência das pessoas que vivem com HTLV”, defende Marzia.
A atuação no hospital universitário também promove a formação de novos profissionais com consciência crítica e sensibilidade social. Alunos da graduação em Medicina participam ativamente das pesquisas, do atendimento e da produção científica. “Eles aprendem a ouvir, a observar, a pensar. E desenvolvem não só conhecimento técnico, mas também humanidade médica. Isso faz toda a diferença na formação”, ressalta.
Hoje, o HUGG oferece o teste de triagem para HTLV-1/2 no laboratório geral, e o teste confirmatório passou a ser realizado pelo LACEN-RJ, após intensa mobilização da comunidade científica e publicação da portaria do Ministério da Saúde que recomenda a testagem (triagem e confirmatório) na gestante e em crianças filhas de mães infectadas, publicada em fevereiro de 2024, ainda em fase de implementação em território nacional. A possibilidade da realização dos testes diagnósticos com confirmatório na rede pública representa um passo importante para garantir diagnósticos mais precisos e evitar sofrimento desnecessário, especialmente em casos cujo teste de triagem apresenta falso positivo.
A pesquisa sobre o HTLV-1 continua, agora com foco na detecção de novos biomarcadores, capazes de indicar precocemente a neuroinflamação causada pelo vírus. “É como montar um quebra-cabeça. A cada estudo, descobrimos uma nova peça. E mesmo quando parece que o trabalho acabou, surgem novas perguntas, novos caminhos”, afirma Marzia. Para ela, a motivação vai além da ciência. “A pesquisa me realiza. Estar com os alunos, com os pacientes, construir conhecimento e manter intercâmbio em uma rede de solidariedade e apoio mútuo entre colegas. Isso é o que me move.”
Sobre a Ebserh
O Hospital Universitário Gaffrée e Guinle faz parte da Rede Ebserh desde 2015. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Felipe Monteiro
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh