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CUIDADO MULTIPROFISSIONAL
Transtornos alimentares: reconhecer os primeiros sinais é essencial para o tratamento precoce
Belo Horizonte (MG) – “Hoje, o meu comportamento mudou muito. Antes, toda vez que eu via um prato de comida, começava a tremer. Chegava a bater a cabeça na parede e, quando comia, provocava vômito”, conta Tércia Marilac Vieira Pinto, paciente do Núcleo de Investigação em Anorexia e Bulimia (Niab) do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Ela é uma das cerca de 50 pessoas que costumam procurar a unidade vinculada à HU Brasil, em Belo Horizonte, todos os anos para tratar os mais diversos tipos de transtornos alimentares e distorções da imagem corporal.
Os quadros mais comuns são o de anorexia nervosa isolada, anorexia com sintomas de bulimia (restrição alimentar associada a um método de purgação) e apenas bulimia. No Niab, os casos são distribuídos da seguinte forma:

- Gráfico Transtornos Alimentares Niab Credito Ana Ulhoa_Flourish
Principais sintomas
Tais condições afetam a saúde física e mental e podem comprometer significativamente a qualidade de vida. Por isso, é importante reconhecer os sinais precoces e buscar ajuda profissional, especialmente quando a relação com a comida, a preocupação com o peso e com a aparência passam a interferir na rotina e no bem-estar.
Segundo o coordenador do Niab, o nutrólogo Henrique Torres, os principais comportamentos associados a esses transtornos incluem as práticas de purgação ou restrição, como indução de vômitos, uso inadequado de laxativos e diuréticos, contagem excessiva de calorias, além de atividade física extenuante. “Essas questões podem ocupar espaços importantes da vida das pessoas, como os ocupados por estudo, trabalho e interação social”, alerta. Ele destaca ainda que alguns pacientes sofrem de distúrbio de imagem, ou seja, se veem acima do peso, mesmo quando já se encontram com massa corporal baixa ou muito baixa.
Reconhecer o transtorno é o primeiro passo
Nesses casos, Henrique explica que é comum encontrar pacientes muito emagrecidos ou com importantes desequilíbrios clínicos, que não reconhecem a gravidade do próprio quadro e não apresentam demanda espontânea por tratamento. “Muitas vezes, o encaminhamento é feito por familiares, professores ou pessoas próximas", afirma.
Esse é o caso de Técia. Os sinais do quadro de bulimia nervosa começaram há 20 anos, quando ela sofreu um trauma. “Uma pessoa me fez tomar querosene. Eu quase morri. Então, desse dia em diante, tudo o que eu como, provoco vômito, com receio de doer o estômago, de morrer engasgada ou de ficar asfixiada. Tenho medo da comida até hoje. Não percebia que isso era uma doença. Pra mim, ao fazer isso, eu ia me sentir melhor”, revela.
A paciente só descobriu, de fato, o que estava acontecendo quando procurou um Centro de Saúde e foi encaminhada para o Niab. Desde então, Técia realiza acompanhamento constante com uma equipe multiprofissional especializada. “Eu faço tratamento com o psicólogo toda semana e com o psiquiatra uma vez por mês. Vou às consultas com o nutricionista e também realizo todos os exames que preciso aqui”, esclarece. Em seis meses de tratamento, a paciente já apresentou melhoras. Hoje, ela consegue ingerir alimentos líquidos sem induzir vômito e já ganhou nove quilos.
Para Técia, o maior desafio para quem enfrenta esse tipo de transtorno é a aceitação. “Quem tem bulimia e anorexia não aceita, eu também não aceitava. Achava que isso não era doença. Eu só caí na real depois que eu conversei com o médico. Cheguei aqui praticamente destruída, mas eu estou superando, um dia de cada vez. Foi muito importante para mim. Se encontro alguém que tem esse problema, eu falo: ‘procura um tratamento, vai te ajudar. Isso é muito importante’”, ressalta.

- Os primeiros sinais dos transtornos alimentares surgem quando a relação com a comida, o peso e a aparência passa a comprometer a rotina e o bem-estar.
Serviço
O tratamento oferecido pelo HC-UFMG envolve acompanhamento clínico, nutricional e psicológico pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta é compreender os transtornos alimentares para além das questões relacionadas ao peso e à alimentação, considerando também aspectos emocionais e subjetivos que influenciam o desenvolvimento da doença.
O atendimento é regulado pela Secretaria Municipal de Saúde. Os Centros de Saúde enviam os casos para avaliação da equipe, que realiza o acolhimento e define a conduta adequada, conforme a gravidade de cada situação.
Sobre a HU Brasil
O HC-UFMG integra a Rede HU Brasil desde dezembro de 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.
Por Ana Ulhôa
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