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NUTRIÇÃO INFANTIL
“Criança não é adulto pequeno”: o que muda quando falamos de saúde e nutrição na infância?
Rio de Janeiro (RJ) — No dia 7 de julho, aconteceu a terceira edição do Encontro Bem Querer em Nutrição Infantil, realizado por pesquisadores do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A transmissão foi online, com cerca de 170 participantes ao vivo, e contou com quatro apresentações sobre diferentes perspectivas da saúde infantil: efeitos da obesidade, qualidade da alimentação, composição corporal e neurodesenvolvimento. Para Patricia Padilha, uma das palestrantes e líder do Núcleo de Pesquisa em Nutrição e Pediatria (NUTPED), esses são aspectos que precisam ser abordados de forma integrada, com um olhar próprio para a infância: “Criança não é adulto pequeno, nem adulto em miniatura. A gente precisa ter parâmetros específicos adequados para uma boa avaliação nutricional da criança”, afirmou ela.
Quais são os impactos da obesidade na saúde infantil?
De acordo com o relatório anual de nutrição infantil do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), houve um ponto de virada histórico em 2025: pela primeira vez, o mundo registrou mais crianças e adolescentes com obesidade do que com baixo peso. Foi esse o dado que serviu como ponto de partida da primeira palestra, ministrada pela pediatra Mônica Moretzsohn. As consequências para a saúde relacionadas à obesidade são muitas, mas o que muda é que elas estão começando a surgir e a se agravar cada vez mais cedo.
Segundo uma revisão de estudos publicada na revista científica Obesity Reviews, a obesidade na infância e na adolescência aumenta em cerca de cinco vezes o risco de obesidade na vida adulta. Embora não seja uma sentença, o dado reforça a importância de olhar para a complexidade de elementos que influenciam os hábitos desde a infância. “As escolhas alimentares não são isoladas. Elas dependem de múltiplos fatores: exposição à comida, ambiente, interesses políticos e econômicos, desigualdade social, limitações de conhecimento, cultura, enfim”, listou Mônica.
Nesse sentido, a pediatra deu destaque ao problema do consumo excessivo de ultraprocessados, ensinando uma forma simples de identificá-los: olhar para a lista de ingredientes no rótulo e ver se predominam nomes poucos familiares em vez de alimentos que as famílias costumam ter na cozinha. Para além de atitudes individuais como essa, ela também defendeu políticas públicas relacionadas: “A gente precisa de tributação, especialmente sobre bebidas adoçadas. A gente precisa de restrição ao marketing infantil, banindo publicidade desses alimentos para crianças. E a gente precisa de rótulos de advertência para ensinar a reconhecer um alimento não saudável”, salientou Mônica.
O que define uma alimentação infantil de qualidade?
A segunda palestra, conduzida pela nutricionista Beatriz Araújo, discutiu como avaliar a alimentação infantil para além de apenas observar o que a criança come. “Entender a qualidade da alimentação é entender como a nutrição afeta a saúde”, declarou Beatriz. Nesse sentido, entram na avaliação aspectos como comportamento alimentar, contexto familiar, frequência de consumo, oferta de macro e micronutrientes, diversidade de alimentos e grau de processamento.
Entre os desafios desse cenário está o consumo de alimentos ultraprocessados, já abordado por Mônica. Beatriz reforçou que esses alimentos são produtos favorecidos por vários fatores que os tornam quase irresistíveis: palatabilidade, baixo custo, facilidade de acesso, conveniência, propaganda agressiva. No entanto, a nutricionista chamou atenção para um ponto importante: para além de rótulos como “saudável” ou “não saudável”, é muito comum que práticas protetoras e comportamentos de risco coexistam na alimentação de uma criança. “Por isso, é importante a gente reforçar as práticas saudáveis para elas se tornarem predominantes”, concluiu Beatriz.
O que a composição corporal revela sobre a saúde da criança?
“Crescimento e desenvolvimento de criança não é apenas variação de peso”, ressaltou a professora Patricia Padilha, responsável pela terceira apresentação. Para avaliar de forma mais completa o estado nutricional da criança, ela propôs olhar para diferentes dimensões: antropometria (peso, estatura, Índice de Massa Corporal — IMC, perímetro da cintura, relação cintura/estatura), composição corporal (percentual de gordura, massa gorda, massa livre de gordura, massa muscular, gordura visceral), funcionalidade e aspectos do metabolismo (força muscular, perfil lipídico, glicemia e insulina), avaliação dietética e semiologia nutricional (exame físico com foco nas alterações nutricionais).
Essa abordagem mais completa ajuda a evidenciar as limitações do uso isolado do IMC na avaliação pediátrica. “Peso normal significa composição corporal saudável? Jamais. Pessoas com o mesmo IMC podem ter diferentes fenótipos de composição e, portanto, diferentes riscos metabólicos”, explicou Patricia. A discussão também chamou atenção para um ponto que costuma passar despercebido: alterações metabólicas não acontecem apenas em crianças obesas. Durante a transmissão, um dos participantes resumiu essa preocupação no campo de chat: “Pena que o problema da má nutrição, na maioria das vezes, só é evidenciado e criticado pela sociedade quando há sobrepeso ou obesidade”.
Como a nutrição se relaciona com o neurodesenvolvimento?
Na última apresentação, o pediatra Pedro Henrique Vidal discutiu a relação entre nutrição e neurodesenvolvimento, com atenção especial aos primeiros mil dias de vida. “Nesses primeiros anos, há momentos em que o cérebro vai chegar a consumir quase 90% da energia de que o corpo da criança precisa. É uma demanda muito alta, e a nutrição está totalmente ligada ao desenvolvimento infantil, ou seja, à maturação do sistema nervoso central”, explicou Pedro. Dentro dessa discussão, o aleitamento materno ganhou destaque, sendo relacionado a aspectos como linguagem, memória, cognição e comportamento. “Em nenhum momento da vida a gente vai ter tanto valor numa experiência humana quanto nesse início. Uma conversa com a mãe pode mudar todo o futuro da criança”, defendeu o pediatra.
Outro tema que aproximou a discussão da realidade atual das famílias foi o uso de dispositivos digitais durante as refeições. “Uma tela pode diminuir a interação da criança com o alimento, e também produz uma carga de neurotransmissores tão forte no cérebro imaturo que faz com que a criança crie uma dependência desse estímulo”, destacou Pedro. O próprio pediatra, porém, chamou atenção para a complexidade da questão; em famílias em situação de maior vulnerabilidade, as telas podem acabar funcionando como uma espécie de rede de apoio. No chat da transmissão, um dos participantes concordou: “Depois que você trabalha na área da saúde, tendo contato com um público em vulnerabilidade, sua visão muda”.
Ao final, Pedro resumiu a ideia central da apresentação em uma frase: “Cada refeição é uma oportunidade de ver uma criança em seu pleno desenvolvimento infantil”.
Sobre a HU Brasil
O Instituto de Puericultura e Pediatria Martgão Gesteira (IPPMG), hospital universitário pediátrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), integra a HU Brasil desde junho de 2024. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.
Gerência Executiva de Comunicação Social da HU Brasil