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SAÚDE MENTAL
Descansar é fundamental para manter a boa saúde física e mental
Descansar é uma necessidade básica, fundamental para uma boa saúde física e mental.
Você tem uma hora livre. Poderia descansar. Mas começa a pensar nas tarefas que estão esperando, no trabalho que ficou pendente ou em tudo aquilo que poderia estar fazendo. Se isso parece familiar, você não está sozinho. Para algumas pessoas, parar não traz alívio: traz culpa.
No entanto, descansar é uma necessidade básica, fundamental para uma boa saúde física e mental. Para marcar o Dia Mundial da Saúde Mental (10/10), quem fala sobre o tema é o psicólogo Thiago Ayala, profissional vinculado à Unidade Multiprofissional do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Humap-UFMS), integrante da HU Brasil. Confira a íntegra da entrevista:
1. Por que algumas pessoas sentem culpa quando estão descansando?
Porque, para muita gente, descansar foi associado a “não estar fazendo nada”, e não a uma necessidade humana básica. Quando a pessoa aprende que só merece se sentir bem depois de produzir, cumprir ou entregar alguma coisa, o descanso pode ser vivido quase como uma transgressão. Ela para fisicamente, mas mentalmente continua se cobrando.
2. De onde pode vir essa necessidade constante de produtividade?
Pode vir de vários lugares: da forma como a pessoa foi educada, de ambientes muito exigentes, de experiências em que ela precisou provar valor, do medo de fracassar ou decepcionar, e também de uma cultura que valoriza desempenho o tempo todo. Em alguns casos, produzir vira uma forma de sentir controle e segurança.
3. Existe uma relação entre a nossa percepção de valor pessoal e aquilo que conseguimos produzir?
Sim, e esse é um ponto muito importante. Algumas pessoas não pensam apenas “eu produzi pouco hoje”; elas concluem “eu sou pouco”. O desempenho deixa de ser algo que a pessoa faz e passa a definir quem ela acredita ser. Quando isso acontece, qualquer pausa, erro ou queda de rendimento pode atingir diretamente a autoestima.
4. Como diferenciar uma rotina produtiva de uma rotina de excesso de cobrança?
Uma rotina produtiva permite esforço, mas também permite pausa, imprevisto e dias de menor rendimento. Já uma rotina de cobrança excessiva é aquela em que nunca parece suficiente. A pessoa termina uma tarefa pensando na próxima, sente culpa ao parar e começa a tratar necessidades básicas como obstáculos ao desempenho.
5. Quais sinais indicam que a pessoa não está conseguindo respeitar seus próprios limites?
Quando ela começa a ultrapassar repetidamente sinais de cansaço, adia alimentação, sono e lazer, fica irritada quando precisa parar ou percebe que só consegue descansar depois de chegar à exaustão. Outro sinal importante é quando o corpo precisa “obrigá-la” a parar porque ela já não consegue fazer isso voluntariamente.
6. O que pode acontecer com a saúde mental quando alguém passa muito tempo sem momentos adequados de descanso?
O organismo pode permanecer em um estado prolongado de ativação e cobrança. Com o tempo, podem aparecer irritabilidade, dificuldade de concentração, queda de memória, ansiedade, alterações do sono, perda de prazer e sensação de esgotamento. E existe uma ironia nisso: quem tenta produzir sem parar muitas vezes acaba produzindo pior justamente porque não consegue mais se recuperar.
7. Por que algumas pessoas têm dificuldade até de identificar que estão cansadas?
Porque passaram muito tempo ignorando os próprios sinais. Quando alguém vive constantemente em função do que precisa fazer, pode perder contato com aquilo que sente. A pessoa percebe prazos, demandas e necessidades dos outros com muita facilidade, mas só reconhece o próprio cansaço quando ele já virou dor, irritação ou exaustão.
8. Descansar é diferente de procrastinar? Como podemos fazer essa distinção?
Sim. Descansar é interromper uma atividade para recuperar recursos físicos ou emocionais. Procrastinar é adiar algo que precisa ser feito, muitas vezes acompanhado de tensão e culpa. Uma diferença importante é observar o efeito: o descanso tende a devolver energia; a procrastinação frequentemente mantém a pessoa presa à tarefa, mesmo sem realizá-la.
9. É possível descansar e ainda assim sentir que estamos “perdendo tempo”? Por que isso acontece?
É muito comum. O corpo pode estar no sofá enquanto a mente continua contabilizando tudo o que deveria estar sendo feito. Isso acontece quando a pessoa aprendeu a medir o valor do tempo apenas pelo que produz. Nesse caso, não basta criar tempo livre; é necessário também rever a crença de que todo momento precisa gerar algum resultado.
10. Como a cobrança por produtividade nas redes sociais pode influenciar essa percepção?
As redes mostram versões muito selecionadas da vida. A pessoa vê alguém treinando cedo, trabalhando, estudando, viajando e “dando conta de tudo”, mas não vê os limites, os dias ruins, a ajuda recebida ou aquilo que ficou para trás. Quando comparamos nossa rotina inteira com os melhores recortes da vida dos outros, podemos criar uma sensação permanente de insuficiência.
11. O que significa, na prática, descansar de verdade?
Descansar de verdade é permitir que exista um período em que você não esteja tentando entregar, resolver ou melhorar alguma coisa. Isso pode ser dormir, conversar, caminhar, ficar em silêncio, ouvir música ou simplesmente não fazer nada. O fundamental é que aquele momento não seja apenas uma pausa estratégica para voltar a produzir ainda mais, mas uma experiência que também tenha valor por si mesma.
12. Como começar a incorporar o descanso à rotina sem transformar isso em mais uma obrigação?
Começando pequeno e retirando a ideia de desempenho do próprio descanso. Não é necessário criar uma rotina perfeita de autocuidado. Pode ser preservar uma refeição sem trabalho, alguns minutos sem celular ou um período do dia em que a pessoa se autorize a não resolver nada. O descanso funciona melhor quando deixa de ser mais uma meta a cumprir e passa a ser entendido como parte normal da vida.
13. Que conselho você daria para quem termina o dia cansado, mas continua pensando em tudo que deveria ter feito?
Eu convidaria essa pessoa a trocar uma pergunta. Em vez de terminar o dia pensando “o que ficou faltando?”, talvez seja importante perguntar “o que eu consegui sustentar hoje e de que eu preciso agora?”. Existe sempre alguma coisa que poderia ter sido feita a mais. Se o critério para descansar for concluir absolutamente tudo, o descanso nunca chega. Reconhecer limites não é desistir de produzir; é entender que ninguém consegue funcionar de forma saudável vivendo permanentemente em dívida consigo mesmo.
Sobre a HU Brasil
O Humap-UFMS faz parte da HU Brasil desde dezembro de 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.