Notícias
Saúde
GAMAH celebra 20 anos no HUB com consultório itinerante
Em 2004, Maria José Miranda, com 46 anos, à época, trabalhava como caixa de supermercado quando foi passar um saco de arroz de 5 KG na caixa registradora e “sentiu que faltou as mãos”. “Derrubei o saco no chão e falei para a encarregada do meu setor que tinha achado muito estranho, que achava que precisava ir ao médico... Estava sentindo a mão caindo ‘as coisas’”, exemplifica ela.
No dia seguinte, Marisé, como é conhecida, foi a um posto de saúde e a funcionária sugeriu que ela fizesse um exame. Quando foi receber o resultado deu positivo para hanseníase. Saiu de lá, segundo ela, já com a cartela de remédio e com o corticoide porque tinha aparecido uma mancha no cotovelo. “Essa mancha eu não tinha percebido ainda, mas um dia eu vinha no ônibus e notei que eu encostava e não sentia. Era uma mancha branca, dormente”.
Com evolução lenta, hanseníase é uma doença infectocontagiosa que se manifesta através de sinais e sintomas dermatoneurológicos - lesões de pele e comprometimento dos troncos nervosos, principalmente os olhos, mãos e pés.“Esse diagnóstico realmente abala a gente, eu fiquei um tempo depressiva... Aí depois eu entrei no grupo, comecei a fazer tapete, biscuit, fiz amizades e até hoje eu estou aqui. Hoje eu ajudo outras pessoas,” afirma Marizé.
O grupo que ela se refere é o Grupo de Apoio às Mulheres Atingidas pela Hanseníase (Gamah). Completando 20 anos de existência, o Gamah foi criado em 2003, através das interações entre os pacientes na sala de espera do ambulatório de Hanseníase do Hospital Universitário de Brasília (HUB-UnB/Ebserh). Liderado por Marly Araújo, a ideia era fortalecer a autoestima das pessoas com a doença, promovendo a reabilitação social e o autocuidado, encontrando, ainda, alternativas de geração de renda e garantia de direitos. Hoje são 80 pessoas assistidas pela associação.
Didi Barros, 67 anos, é uma das fundadoras do Gamah. Atualmente é voluntária a distância do grupo, pois mora em Curitiba. “Viajei 28 horas de ônibus para participar do aniversário do Gamah aqui no HUB. Vim pelo respeito e consideração que tenho pelo trabalho da Marli porque ela é uma de nós, que passou por essa doença e hoje, está aqui, ajudando sem olhar a quem porque essa é a nossa missão”, destaca Didi.
Didi, sorrindo orgulhosa, acrescenta: “Olha, e a gente já fez a diferença na vida de muita gente: Muita gente se reintegrou, muito casal reatou e voltou a morar junto... Porque o preconceito é muito grande e as pessoas não têm informação e ficavam separados se gostando... Muito pai, muita mãe voltou a procurar sua religião, voltou a procurar a família em si porque não se sentavam mais na mesa juntos... Nosso trabalho já mudou a cabeça de muita gente e isso fortifica a gente quanto pessoa”.
Sandra de Castro, representante do Ministério Saúde, esteve no evento e comentou sobre os projetos voltados ao combate a hanseníase previstos. “Firmamos parcerias com ONGs e universidades para trabalhar essa questão do estigma da doença, estamos buscando capacitação da atenção primária. Temos a incorporação do teste sorológico, que não é um teste diagnóstico, mas vai ajudar no acompanhamento de contatos e o teste que foi incorporado no SUS ano passado, que é o DNA do bacilo Mycobacterium leprae, facilitando a detecção precoce da doença”, afirma a representante do Ministério da Saúde.
Dayde Mendonça, gerente de ensino e pesquisa HUB, destacou a importância do trabalho realizado pelo GAMAH. “São 20 anos de existência e a Marly mantem essa chama acesa que é essencial pois as doenças negligenciadas precisam de busca ativa e de mobilização e o HUB está aqui, compondo a rede de atenção à saúde, somando”, pontua Dayde.
Ciro Martins, dermatologista do HUB, ressalta que no currículo de Residência Médica de Dermatologia exige que os residentes tenham contato com o movimento social. “Aqui no Hospital Universitário de Brasília os residentes têm esse contato constante. E isso é muito importante para promoção de atividades de capacitação e ensino aos acadêmicos no diagnóstico e tratamento destas afecções”, destaca o médico.
Sobre o Consultório Itinerante para Prevenção e Enfrentamento da Hanseníase (Cipeh):
Estacionado entre os ambulatórios 1 e 2 do no Hospital Universitário de Brasília HUB – UnB/Ebserh os atendimentos acontecem das 9h às 16h até a sexta (12).O projeto, que tem percorrido diversas áreas do Distrito Federal, contribui para o combate à hanseníase oferecendo, ainda, treinamento aos profissionais das unidades básicas de saúde e aos estudantes da área de saúde, que realizam diariamente atendimento a pacientes com suspeita da doença. Dentro do veículo, há quatro salas de atendimento que reúnem especialistas da Universidade de Brasília (UnB) e do Hospital Universitário de Brasília (HUB) capazes de realizar o diagnóstico, iniciando o tratamento de forma rápida, e, se for o caso, o paciente já sai com as primeiras medicações e encaminhado para um centro especializado.
Sobre a hanseníase:
O contágio dá-se através das vias respiratórias de uma pessoa doente, portadora do Bacilo de Hansen, não tratada. O diagnóstico precoce evita a instalação de incapacidades físicas e a propagação da doença. Hanseníase tem cura.