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SÉRIE SAÚDE MENTAL
Como acolher alguém em sofrimento emocional? Psicóloga do HU-UFGD explica
Brasília (DF) - Perceber a dor do outro é uma dimensão delicada, e encontrar a melhor forma de oferecer apoio é um desafio que precisa ser enfrentado: de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), interações sociais positivas e vínculos comunitários fortes estão entre os fatores mais importantes de proteção da saúde mental. Neste Dia Mundial da Saúde Mental, 10 de outubro, especialistas da HU Brasil orientam sobre como oferecer escuta e acolhimento.
O que não dizer
Às vezes, em um momento sensível, algo feito na melhor das intenções pode acabar tendo um efeito negativo. “Mesmo quando são ditas na tentativa de ajudar, algumas frases podem aumentar sentimentos de culpa, vergonha e isolamento”, explica Rafaela Perez, psicóloga do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (HU-UFGD). Veja algumas dessas falas destacadas pelos especialistas.
“Vai passar.”
Pode até ser verdade, mas, naquele momento, não parece. “O sofrente tem a certeza de que não vai passar”, salienta Marcos Portela, psicólogo do Complexo do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR).
“Você já tem tudo do bom e do melhor. Tem gente passando por coisa muito pior.”
Parece uma constatação lógica, mas não reflete a realidade: ninguém é imune a esse tipo de dor. “O sofrimento emocional não pode ser avaliado apenas pelas condições externas de vida”, afirma Camila Louise, psicóloga do Hospital Universitário Professor Polydoro Ernani de São Thiago da Universidade Federal de Santa Catarina (HU-UFSC).
“Você precisa ser mais forte.”
Para Camila Louise, esse tipo de reação é uma invalidação da dor: “Essas falas transmitem a ideia de que a pessoa deveria conseguir sair daquela situação sozinha”, ressalta ela.
“Parece que você não quer fazer a sua parte para melhorar.”
“Se o sofrente realmente conseguisse, ele certamente sairia do atoleiro em que se encontra”, afirma Marcos Portela.
“Você precisa ter mais fé. Isso é falta de Deus.”
De acordo com Rafaela Perez, é comum que a tentativa de ajudar inclua “arrastar” a pessoa para uma igreja, um culto ou uma missa. “Mas não é porque determinado lugar
ou atividade faz bem para mim que necessariamente fará bem para o outro”, explica. Para Rafaela, a espiritualidade pode ser uma fonte muito importante de sentido, apoio e proteção, mas as pessoas podem vivenciá-la de maneiras diferentes. Se o outro já tem as próprias crenças - ou se é ateu ou agnóstico - , isso deve ser respeitado.
“Que drama! Você está querendo chamar a atenção.”
Diante dessa fala, Marcos Portela é categórico: “Então, vamos dar a devida atenção!”.
“Esses remédios viciam. Você não vai conseguir parar de usar nunca.”
Para Betty Nesanelovicz, psiquiatra do Hospital Universitário dos Servidores do Estado da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Huse-Unirio), essa fala pode se tornar um obstáculo para a pessoa procurar a ajuda de que precisa. “Existem inúmeras evidências científicas e pesquisas seguras que comprovam a atuação dos psicotrópicos nos sistemas do organismo, trazendo bons resultados clínicos”, lembra ela.
“Isso aí é preguiça.”
De acordo com Rafaela Perez, é importante compreender que uma pessoa em esgotamento emocional nem sempre deixa de fazer as coisas por ser preguiçosa, acomodada ou relaxada. “Muitas vezes, ela está tão sobrecarregada emocionalmente que até atividades simples exigem um esforço muito maior”, explica.
“Não fale besteira! Deus me livre, nem diga uma coisa dessas!”
Quando alguém fala de morte, essa é uma reação bastante comum. “Isso pode levar a pessoa a entender que aquele é um assunto proibido, assustador ou vergonhoso e deixar de falar justamente quando mais precisa de ajuda”, destaca Rafaela Perez.
“Que frescura. Na minha época, ninguém tinha isso.”
“Isso passa a impressão de que a errada é a pessoa em sofrimento”, explica Estéfane Lima, psicóloga do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes da Universidade Federal de Alagoas (HUPAA-Ufal).
“Acho que você é bipolar. / Isso é depressão. / Você com certeza tem TDAH.”
Um diagnóstico envolve avaliação profissional e não deve ser tratado de maneira banal. “Mesmo quando existe boa intenção, comentários desse tipo podem gerar medo, preconceito e até interferir na continuidade de um tratamento”, afirma Rafaela Perez.
O que dizer
Para ajudar, o mais importante é escutar, mas também há o que dizer. Veja alguns exemplos dos especialistas.
“Estou aqui. Quer me contar o que está acontecendo?”
Para Camila Louise, é importante demonstrar presença sem impor expectativa. “Muitas vezes, diante do sofrimento, a primeira necessidade não é receber uma solução, mas sentir-se escutada e não julgada, criando assim um espaço seguro para acolhimento”, avalia.
“Não precisamos conversar sobre isso agora, mas estou aqui e podemos retomar quando você quiser.”
“Respeitar o espaço não significa abandonar a pessoa. Às vezes ela diz que não quer conversar, está irritada ou precisa ficar sozinha. Podemos respeitar isso, mas manter uma porta aberta”, ressalta Camila Louise.
“O que você sente faz sentido. Imagino como deve estar sendo difícil.”
“Às vezes, só é preciso estar presente acolhendo o choro, ficando do lado enquanto o outro vivencia a dor dele”, explica Estéfane Lima.
“Posso ficar com você e ajudar em alguma tarefa que você precise fazer?”
Às vezes, a sobrecarga emocional paralisa a pessoa e algumas tarefas vão se acumulando, como cuidar da casa, por exemplo. “É como se, naquele momento, faltasse aquela força interna que normalmente nos impulsiona a realizar as atividades do dia a dia”, explica Rafaela Perez.
“Posso te ajudar a encontrar um profissional e marcar uma consulta?”
De acordo com Rafaela Perez, uma pessoa em sofrimento emocional intenso pode ter dificuldade para encontrar saídas. “Às vezes ela até sabe o que poderia fazer, mas a sobrecarga emocional é tão grande que ela fica paralisada. Por isso, ter alguém que se dispõe a ajudar a procurar um profissional, marcar uma consulta ou acompanhá-la pode fazer muita diferença”, explica.
“Você não acha esquisito que essa situação esteja se prolongando por tanto tempo?”
Para Marcos Portela, essa abordagem pode gerar um estranhamento em casos específicos, como o de uma pessoa que sofre por um ex de quem nem gostava muito, por exemplo. “Ao gerar uma pergunta sobre o sofrimento, temos a chance de ajudar a pessoa a se transformar em um agente e não apenas uma vítima do seu sofrimento”, explica.
Por Paula Lemos, com edição de Danielle Campos
Gerência Executiva de Comunicação Social da HU Brasil
Categoria
Saúde e Vigilância Sanitária
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