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SETEMBRO AMARELO
Quando não é só uma fase: veja como reconhecer o sofrimento psíquico na adolescência
Segundo a OMS, um em cada sete jovens de 10 a 19 anos apresenta algum transtorno mental, e metade dos adultos que enfrentam esses transtornos já os vivenciavam antes dos 18 anos (Imagem ilustrativa: Magnific).
Brasília (DF) – “Falar sobre suicídio não ‘coloca uma ideia na cabeça’ do jovem. Muitas vezes, oferece a primeira oportunidade para que ele fale sobre algo que já estava vivendo sozinho”, afirma Leonardo Oliveira, psicólogo do Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP-UFF). Em uma questão tão complexa e sensível, o receio de falar sobre suicídio se torna um obstáculo à prevenção.
Para muitos pais e outros adultos que convivem com jovens, mudanças de comportamento podem ser vistas como parte de uma fase naturalmente marcada por transformações, conflitos e descobertas. Por isso, a reportagem conversou com especialistas da HU Brasil sobre como reconhecer os sinais de que algo não vai bem e como agir para fazer a diferença.
Para a psiquiatra Márcia Fávero, do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF), a escuta dos jovens precisa ser atenta: “Quando os adolescentes decidem compartilhar algum ponto de seu sofrimento, relatam aos poucos enquanto observam as reações dos pais. Se ocorre uma precipitação em tranquilizar ou repreender, isso pode resultar em uma inibição dos adolescentes”, explica ela.
Quando os sinais são importantes
Segundo a OMS, um em cada sete jovens de 10 a 19 anos apresenta algum transtorno mental, e metade dos adultos que enfrentam esses transtornos já os vivenciavam antes dos 18 anos. É por isso que não dá para dizer automaticamente que “é só uma fase”. Como a adolescência é um momento de mudanças e pressões, pode ser difícil distinguir comportamentos típicos de sintomas, mas o esforço precisa ser feito. “Na prática, eu considero particularmente importantes a intensidade, a duração e, principalmente, o prejuízo funcional”, opina Leonardo Oliveira.
Para a psicóloga Laís Arilo, do Hospital Universitário do Piauí (HU-UFPI), é importante perceber alterações de comportamentos; por exemplo, se o adolescente tem um padrão extrovertido e de repente passa a se isolar. “A mudança abrupta de determinada característica é o que precisa da nossa atenção”, destaca Laís.
Já a psicóloga Paula Lima, do Hospital Universitário de Lagarto (HUL-UFS), chama atenção para fatores de risco que podem aparecer na história de vida: “Negligência de cuidados parentais durante a infância, baixa autoestima, histórico de abusos, problemas com a sexualidade, problemas financeiros, términos de relacionamento ou doenças”, lista ela.

Quando o sofrimento vira isolamento
“Devemos levar em conta que muitos jovens atravessaram momentos especialmente difíceis na pandemia, quando ficaram longe da escola e de colegas, confinados com os pais e/ou cuidadores em situações das mais diversas. É uma geração atravessada pela tecnologia, que perdeu espaços de troca e intimidade e teve de se reinventar”, analisa a psicóloga Fernanda Klumb, do Hospital Universitário dos Servidores do Estado (Huse-Unirio).
Segundo Márcia Fávero, o isolamento ligado à tecnologia pode prejudicar o desenvolvimento das competências socioemocionais dos jovens, que dependem de uma interação em grupo. “Como eles estão em formação de uma identidade, a identificação com o grupo permite uma série de descobertas e experimentações, em relativa proteção recíproca, até que uma identidade própria se configure”, explica.

Quando a internet parece ter as respostas
Um estudo de 2025 publicado no Acta Psychologica constatou que 75% dos participantes, com idades entre 16 e 25 anos, chegaram à primeira consulta com um profissional de saúde mental já suspeitando de um diagnóstico, e a maioria deles apontou as redes sociais como influência.
Para Leonardo Oliveira, essa é uma tendência que tem lados positivos e negativos. “Pesquisar sobre saúde mental é válido; usar essas informações para compreender que talvez seja necessário procurar ajuda é positivo. O que a internet não consegue substituir é uma avaliação clínica individualizada”, ressalta ele.
Paula Lima reforça, dizendo que não se pode esquecer a máxima de que cada caso é um caso: “É importante ter muito cuidado com os autodiagnósticos, visto que o sofrimento faz parte da vida e nem toda dor é patológica”.

Quando o contágio se torna um risco
Um estudo de Gould (1990), com participantes expostos a relatos de suicídio, revelou que os adolescentes entre 15 e 19 anos tinham entre duas e quatro vezes mais chances de cometê-lo do que pessoas de outras faixas etárias. É isso que muitos chamam de “efeito contágio”.
Tal risco, no entanto, não significa que não se deva falar sobre suicídio. “Conversar diretamente e de maneira acolhedora sobre ideação suicida é uma estratégia de prevenção; romantizar, glorificar ou apresentar detalhadamente um suicídio pode produzir o efeito oposto”, atesta Leonardo Oliveira.
Para Laís Arilo, essa diferença precisa ser especialmente enfatizada em campanhas, sobretudo no Setembro Amarelo: “Ao mesmo tempo em que é preciso falar sobre suicídio, também é preciso ter cuidado ao falar sobre suicídio”, declara.

Gerência Executiva de Comunicação Social da Rede HU Brasil