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PREVENÇÃO E CONSCIENTIZAÇÃO
Pressão alta na gestação exige diagnóstico precoce para evitar mortes maternas
Diagnóstico precoce e acompanhamento contínuo ajudam a prevenir complicações causadas pela pressão alta durante a gestação (Imagem ilustrativa: Magnific).
Brasília (DF) – Dor de cabeça persistente, inchaço repentino, alterações na visão e falta de ar podem parecer sintomas comuns da gravidez, mas também indicar um quadro grave. As síndromes hipertensivas da gestação estão entre as principais causas de morte materna no Brasil e exigem diagnóstico precoce, acompanhamento contínuo e atendimento imediato diante dos sinais de alerta.
Nos hospitais universitários federais que integram a Rede HU Brasil, o cuidado com gestantes de risco inclui monitoramento constante da pressão arterial, identificação precoce de complicações e orientação para que mulheres e familiares reconheçam sintomas que não devem ser ignorados. O alerta ganha ainda mais importância no Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, lembrado em 28 de maio.
Diagnóstico precoce pode evitar mortes maternas
O professor Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) e integrante da Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez, Mário Dias, informa que as síndromes hipertensivas atingem entre 3% e 8% das gestações no país. Segundo ele, parte dessas mulheres já tinha hipertensão antes da gravidez, enquanto outras desenvolvem a doença durante a gestação, quadro conhecido como pré-eclâmpsia. “Essas síndromes atingem cerca de 120 mil gestações por ano no Brasil. Há casos leves, em que mãe e bebê chegam saudáveis ao final da gestação, mas também situações graves que podem exigir a interrupção prematura da gravidez”, pontua.
O especialista frisa que, com a redução das mortes relacionadas à hemorragia pós-parto, as doenças hipertensivas passaram a ocupar o primeiro lugar entre as causas de mortalidade materna no Brasil. Por isso, o acompanhamento precisa começar ainda no primeiro trimestre da gestação, com identificação precoce dos fatores de risco e adoção de medidas preventivas, como controle do peso, prática de atividade física moderada e verificação de doenças como hipertensão crônica e diabetes.
Mário também chama atenção para os principais obstáculos que dificultam o atendimento adequado das gestantes, como o atraso na busca por assistência, dificuldades de acesso ao sistema de saúde e demora na identificação do quadro pelas equipes. “As pacientes devem ser orientadas sobre quais sinais representam risco e exigem atendimento imediato. Educação em saúde também reduz mortalidade materna”, reforça.
Sintomas podem evoluir rapidamente e exigir atendimento imediato
Do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes da Universidade Federal de Alagoas (HUPAA-Ufal), a obstetra Jennifer Peroba alerta que as síndromes hipertensivas da gestação costumam surgir após as 20 semanas e podem evoluir rapidamente. Entre os sinais de alerta que exigem avaliação médica imediata estão dor de cabeça intensa e persistente, alterações visuais, dor na parte superior do abdome, náuseas no final da gestação, falta de ar e redução dos movimentos do bebê.
“Um dos grandes desafios é que muitos sinais acabam sendo minimizados ou confundidos com desconfortos normais da gravidez. Além disso, muitas pacientes podem apresentar pressão alta sem sintomas evidentes, o que reforça a importância do acompanhamento pré-natal regular”, afirma. A obstetra explica que a pré-eclâmpsia é uma doença sistêmica e imprevisível, que pode comprometer múltiplos órgãos maternos e causar complicações graves como convulsões, edema agudo de pulmão, AVC, insuficiência renal e alterações da coagulação.
Os riscos também atingem diretamente o bebê, com possibilidade de restrição de crescimento fetal, sofrimento fetal, prematuridade e aumento do risco de óbito perinatal. Em alguns casos, a interrupção precoce da gestação torna-se necessária para preservar a vida da mãe e da criança. “Identificar fatores de risco, monitorar pressão arterial e orientar a gestante sobre sinais de gravidade são medidas essenciais para reduzir mortalidade materna”, destaca Jennifer.
Pré-natal contínuo ajuda a reduzir complicações graves
No Hospital Universitário Antônio Pedro da Universidade Federal Fluminense (Huap-UFF), a cardiologista do Ambulatório de Cardio-Obstetrícia, Larissa Carestiano, ressalta que a mortalidade materna é zero, isso se deve ao trabalho contínuo da equipe multidisciplinar. Nesse sentido, ela enfatiza que o pré-natal é fundamental para o rastreamento precoce da hipertensão e de outras doenças que podem comprometer a gestação. “O pré-natal está indicado para todas as gestantes, sem exceção. Por abranger toda a população de grávidas, torna-se uma oportunidade importante para o diagnóstico precoce da hipertensão”.
Segundo a médica, a hipertensão pode existir antes da gravidez ou surgir ao longo da gestação. O diagnóstico é simples e pode ser realizado nas consultas de rotina, com aferição da pressão arterial e exames complementares, como o MAPA de 24 horas. O cuidado ideal começa ainda no planejamento gestacional, especialmente para mulheres com hipertensão, obesidade e diabetes, condições que aumentam o risco de complicações maternas e fetais.
A especialista também enfatiza que mulheres que desenvolveram hipertensão durante a gravidez precisam de acompanhamento mesmo após o parto, já que apresentam maior risco de hipertensão crônica, infarto e AVC ao longo da vida. Entre os fatores associados ao maior risco de hipertensão gestacional estão gravidez gemelar, histórico de pré-eclâmpsia, diabetes, doença renal crônica, doenças autoimunes e obesidade. “Com acompanhamento regular conseguimos controlar melhor a pressão arterial, monitorar a vitalidade fetal e identificar precocemente alterações laboratoriais e complicações relacionadas à hipertensão”, explica.
Ela destaca ainda a importância da assistência multiprofissional no acompanhamento dessas pacientes. No Ambulatório de Cardio-Obstetrícia da UFF, enfermeiras, nutricionista, obstetras e cardiologistas atuam de forma integrada no cuidado das gestantes hipertensas. “Muitas pacientes iniciam o acompanhamento após o primeiro trimestre e acabam perdendo a janela ideal para prevenção da pré-eclâmpsia. Também enfrentamos dificuldades relacionadas à adesão ao tratamento e à subestimação dos sintomas”.
Informação pode evitar que quadros se tornem fatais
No Complexo do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR), a ginecologista e especialista em gestação de alto risco, Carla Batiuk, explica que é considerada hipertensão gestacional quando há duas aferições de pressão iguais ou acima de 140 por 90, com intervalo mínimo de quatro horas. Já situações com pressão igual ou superior a 160 por 110 representam urgência hipertensiva.
Segundo a especialista, além da pressão elevada, alguns sintomas indicam gravidade e necessidade de atendimento imediato: “A gestante pode apresentar cefaleia, visão turva, luzes brilhantes na visão, dor abdominal, náuseas, vômitos e falta de ar. Esses são sinais de urgência hipertensiva”. Além disso, muitas mulheres ainda minimizam sintomas importantes: “Não podemos menosprezar cefaleia, alterações visuais, dor abdominal, diminuição da movimentação fetal, sangramento vaginal ou perda de líquido. Nesses casos, é fundamental procurar cuidado médico”.
Sem tratamento adequado e imediato, a crise hipertensiva pode evoluir rapidamente, podendo levar à eclâmpsia, descolamento prematuro da placenta, AVC, trombose cerebral e até ruptura hepática. Segundo a médica, são situações graves que podem levar ao óbito materno e fetal.
Para Carla, “O mais importante no atendimento às gestantes é a informação. O médico precisa transmitir orientações de forma clara para que a mulher reconheça os sinais de emergência e procure ajuda precocemente”.
Reconhecer os sinais de risco pode salvar vidas
Na Maternidade Climério de Oliveira da Universidade Federal da Bahia (MCO-UFBA), o professor Carlos Menezes destaca que grande parte das complicações relacionadas à hipertensão na gravidez pode ser evitada com diagnóstico precoce, tratamento adequado e acesso rápido aos serviços de saúde. Entre as complicações mais graves estão AVC, eclâmpsia, insuficiência renal, edema pulmonar, síndrome HELLP e morte materna. “A melhor forma de prevenir a pré-eclâmpsia em pacientes de maior risco é o uso de aspirina em baixa dose a partir de 12 semanas de gestação, além de cálcio em populações com dieta deficiente”.
Segundo o especialista, mulheres com hipertensão antes da gravidez, diabetes, trombofilias, obesidade, idade acima de 35 anos e condições socioeconômicas desfavoráveis apresentam maior risco de desenvolver complicações. Carlos alerta que o atraso no atendimento ainda é um dos principais fatores relacionados às mortes maternas evitáveis. “O acesso tardio e o retardo assistencial têm impacto devastador nos casos graves de hipertensão na gravidez e são responsáveis pela maioria dessas mortes evitáveis”.
O professor também ressalta a importância do reconhecimento dos sinais de alerta, já que muitas mulheres confundem os sintomas com manifestações comuns da gravidez. “A pré-eclâmpsia pode evoluir rapidamente. Por isso, familiares e acompanhantes precisam reconhecer sinais”.
Além da gestação, ele reforça que os cuidados devem continuar no pós-parto, período em que a pressão arterial pode piorar e novas complicações surgirem. “Mulheres que tiveram pré-eclâmpsia apresentam maior risco de hipertensão crônica, doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca e AVC no futuro. Isso reforça a importância do acompanhamento contínuo mesmo após a gravidez”.
Sobre a HU Brasil
Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a HU Brasil nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 45 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Em 2026, em um reposicionamento junto à sociedade, ao mercado e instituições parceiras, passou a ter um novo nome, que carrega sua essência: HU Brasil.
Por Andreia Pires, com revisão de Rosenato Barreto
Coordenadoria de Comunicação Social/Rede HU Brasil