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Perda auditiva: os desafios de descobrir, aceitar e tratar a condição
Imagem ilustrativa: Magnific.
Belo Horizonte (MG) – Mesmo que você já espere, sentar-se diante de um médico e receber um diagnóstico de perda auditiva não é nada fácil. O primeiro pensamento que vem à mente é: “será que um dia vou perder a audição completamente?”. Em fração de segundos, você começa a imaginar como seria a sensação de não poder mais ouvir os pássaros cantarem, a sua música preferida ou, pior, o timbre da voz das pessoas que você ama. Neste momento, é quase impossível conter as lágrimas. Mas é preciso saber que esse tipo de problema tem tratamento e buscar ajuda é determinante para a manutenção da sua saúde e bem-estar.
Se você é um leitor atento, deve ter percebido que não usei aspas no relato que abre esta matéria. Isso porque o cenário descrito acima aconteceu comigo. Neste mês, que se celebra o Dia Nacional da Pessoa com Deficiência Auditiva (26 de setembro), redijo estas linhas para chamar a atenção para o tema, auxiliando na promoção da reflexão, conscientização e defesa dos direitos de todos que vivem o mesmo que eu.
De acordo com o Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem cerca de 2,6 milhões de pessoas de dois anos ou mais com deficiência auditiva. O levantamento considera aquelas que declararam ter muita dificuldade para ouvir ou não conseguir ouvir de modo algum, mesmo com o uso de aparelhos auditivos.
Minha perda auditiva, porém, não se enquadra nesse critério. Ela é moderada e afeta principalmente frequências agudas. Apesar de ter histórico familiar e perceber há alguns anos a dificuldade para compreender algumas palavras durante as interações sociais, rejeitei por muito tempo a minha condição.
De 2022 para cá, notei que precisava pedir para os outros repetirem o que tinham acabado de falar, que necessitava me concentrar para entender bem o que estava sendo dito e que tinha um zumbido constante e irritante nos ouvidos. Porém, foi só neste ano que procurei por um especialista, sendo diagnosticada com uma perda auditiva bilateral neurossensorial moderada em frequências agudas, possivelmente de causa genética.
Segundo Mariana Denaro, otorrinolaringologista da Unidade de Oftalmologia e Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG/HU Brasil), existem diferentes tipos de perda. A condutiva está relacionada a algum empecilho na condução do som até o ouvido interno. Já a neurossensorial ocorre no ouvido interno, normalmente por problemas nas células, no nervo auditivo ou por malformação. Há também a mista, que reúne os dois fatores anteriores.
O grau é outra característica considerada. A perda auditiva também é classificada de acordo com o grau: leve, de 26 a 40 dB; moderada, acima de 40 dB; severa, de 70 a 90 dB; e profunda, acima de 90 dB.
O impacto que vai além da audição
Como qualquer pessoa que se vê diante de uma situação como essa, me senti abalada e necessitei de um tempo para processar o luto causado por minha perda. Contudo, reunir forças e seguir em frente foi a melhor coisa que pude fazer por mim. Afinal, como Mariana lembra, a perda não tratada pode acarretar outros prejuízos para a vida do paciente. Ela é considerada, por exemplo, o principal fator de risco modificável para o desenvolvimento de demência.
A otorrinolaringologista do HC-UFMG observa que não é porque alguém tem uma perda auditiva que necessariamente desenvolverá demência. Entretanto, é importante tratar para reduzir os riscos. “Quem compreende a fala é o cérebro. Se ele não tiver estímulo, perde função”, explica. Além disso, ignorar o problema pode abrir portas para a depressão.
Há tratamentos no SUS para diferentes graus de perda
O diagnóstico precoce é mais importante ainda quando se trata de crianças. Mariana conta que o ideal é que todos os recém-nascidos realizem o teste da orelhinha já nos primeiros dias de vida. “Se for o caso, por exemplo, de uma surdez profunda, essa criança pode ser operada com implante coclear até os nove ou dez meses de idade. Assim, ela tem a possibilidade, com o estímulo fonoaudiológico e o acompanhamento adequado, de ter um desempenho de compreensão, desenvolvimento e fala muito semelhante ao dos seus pais”, afirma.
Atualmente, existem diversos tipos de tratamento, dependendo da causa e do grau de perda. Algumas das opções citadas pela otorrinolaringologista do HC-UFMG são: reconstrução da cadeia ossicular com próteses para conter infecções crônicas, fechamento do tímpano para perfurações, colocação de tubo de ventilação para tratar otite serosa, aparelhos auditivos para perdas leves ou moderadas e o implante coclear, que restaura a percepção dos sons em quem tem perdas severas e profundas. “Quase sempre a gente tem o que fazer”, ressalta.
Mas, para isso, recomendo sempre buscar um especialista em perda auditiva. Além de conhecimento profundo sobre o tema, esses profissionais costumam compreender melhor esse choque inicial que vivenciamos, oferecendo um atendimento humanizado, focado em escuta e acolhimento.
Eles também saberão direcioná-lo às outras especialidades, para uma abordagem multidisciplinar. Mariana esclarece que um paciente que sofre de perda auditiva quase sempre precisa de um acompanhamento com um fonoaudiólogo para mapear o implante coclear, realizar ajustes nos aparelhos auditivos ou fazer fonoterapia, com o objetivo de habilitar, reabilitar ou aperfeiçoar a comunicação. Às vezes há ainda a necessidade de acompanhamento psicológico ou de um assistente social.
No meu caso, o tratamento inclui o uso de Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI) nos dois ouvidos, com visitas periódicas a uma fonoaudióloga para verificar a necessidade de ajustes e acompanhamento anual com um otorrinolaringologista.
No HC-UFMG, o paciente tem acesso gratuitamente, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a todas essas especialidades e tratamentos, desde os exames iniciais até a colocação de aparelhos auditivos e a realização de cirurgias.
Reportagem: Ana Ulhoa
Gerência Executiva de Comunicação Social da HU Brasil