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LUDOPATIA
Dependência em apostas é doença reconhecida e pode causar endividamento, conflitos familiares e prejuízos no trabalho
A dificuldade de interromper as apostas está relacionada tanto ao funcionamento do cérebro quanto às características das próprias plataformas. Imagem ilustrativa: Magnific.
Salvador (BA) - Com a popularização das plataformas digitais, as apostas passaram a estar disponíveis 24 horas por dia, diretamente pelo celular, e ganharam ampla divulgação nas redes sociais, em eventos esportivos e por influenciadores. Esse crescimento tem ampliado a preocupação com os impactos na saúde mental, nas relações familiares e na vida financeira dos apostadores.
O transtorno do jogo, também conhecido como jogo patológico ou ludopatia, é reconhecido como uma condição de saúde que está inserida entre os transtornos dos hábitos e dos impulsos. Segundo a psiquiatra Paula Dhione, do Hospital Universitário Professor Edgard Santos da Universidade Federal da Bahia (Hupes-UFBA), vinculado à HU Brasil, o diagnóstico é clínico, ou seja, é feito considerando o histórico relatado pelo paciente e a avaliação do estado mental.
“Os critérios estabelecidos para a realização do diagnóstico contemplam tentativas frustradas de parar ou controlar a prática, aumento progressivo das quantias apostadas e dificuldade em admitir a extensão do dano causado pelas apostas, entre outros aspectos semelhantes aos utilizados no diagnóstico da dependência química”, explica.
Quando o lazer se transforma em dependência
De acordo com a especialista, nem toda pessoa que faz uma aposta desenvolve o transtorno. O alerta aparece quando o comportamento deixa de ser ocasional e começa a ocupar um espaço cada vez maior na rotina, comprometendo áreas importantes da vida.
“Os sinais envolvem prejuízos na vida pessoal, no trabalho, nas finanças e nas relações afetivas, além do gasto de tempo e energia cada vez maiores direcionados ao ato de jogar”, afirma Paula Dhione.
Outro indicativo, segundo a psiquiatra, é o desenvolvimento da tolerância, que ocorre quando a pessoa passa a apostar valores progressivamente maiores para experimentar sensações semelhantes às obtidas anteriormente. Também podem ocorrer tentativas repetidas de recuperar o dinheiro perdido por meio de novas apostas, agravando o endividamento.
Por que é tão difícil parar?
A dificuldade de interromper as apostas está relacionada tanto ao funcionamento do cérebro quanto às características das próprias plataformas. “Múltiplos circuitos neuroquímicos estão implicados no ato de jogar. Sistemas adrenérgicos contribuem para a sensação de excitação, enquanto vias dopaminérgicas participam do reforço positivo nos sistemas de recompensa. Outras substâncias estão relacionadas às sensações de alívio e prazer”, detalha a psiquiatra.
Um dos principais mecanismos envolvidos é o chamado reforço intermitente. Como a recompensa não ocorre em todas as tentativas e não pode ser prevista, o apostador permanece na expectativa de que a próxima jogada possa trazer uma vitória. “O fato de a recompensa acontecer apenas em algumas tentativas gera uma expectativa contínua e uma forte resistência a parar de jogar. Além disso, a incerteza faz com que o sistema de recompensa cerebral seja ativado de maneira mais intensa quando a vitória ocorre”, ressalta.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que o comportamento repetitivo de apostar pode evoluir para um transtorno quando provoca sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento pessoal, familiar, social, educacional ou profissional. A entidade também alerta que os danos podem ocorrer mesmo antes de a pessoa preencher todos os critérios para um diagnóstico.
Vulnerabilidade não é falta de força de vontade
Segundo a especialista, algumas pessoas podem apresentar maior vulnerabilidade, especialmente quando expostas de forma contínua à publicidade e a discursos que associam as apostas a dinheiro fácil, sucesso ou habilidade pessoal.
“Pessoas mais sugestionáveis estão mais propensas a ceder aos estímulos de marketing, como os realizados por influenciadores digitais. Também podem acreditar que possuem habilidade para controlar ou prever os resultados ou que determinado padrão externo poderá influenciar o acaso, justificando novas tentativas mesmo após perdas significativas”, destaca.
Impactos ultrapassam a vida financeira
As consequências não se restringem à perda de dinheiro. O transtorno pode provocar ansiedade, alterações de humor, isolamento, conflitos familiares, problemas profissionais e perda da capacidade de administrar os próprios recursos.
“Os profissionais que trabalham na assistência têm percebido aumento da demanda por internação em razão das repercussões do transtorno, incluindo alterações do humor, comprometimento das perspectivas de futuro e fragilização dos vínculos familiares”, relata Paula Dhione.
Segundo ela, é comum que os pacientes também precisem de apoio para reorganizar as finanças, pois podem chegar ao serviço de saúde endividados e, temporária ou permanentemente, com a capacidade de controlar os próprios gastos comprometida.
Tratamento deve ser individualizado
O tratamento depende da gravidade da situação, das condições clínicas e da existência de uma rede familiar ou social de apoio. O acompanhamento pode ocorrer em ambulatório, hospital-dia ou, nos casos mais graves, exigir internação integral.
“É importante que a abordagem seja multidisciplinar, envolvendo médico, psicólogo e outros profissionais de saúde. Medicamentos também podem integrar o plano terapêutico, especialmente quando há dificuldade acentuada de controlar os impulsos ou outros transtornos associados. No entanto, a indicação deve ser individualizada e realizada por profissional habilitado”, acrescenta Paula Dhione.
A psicoterapia, a reconstrução dos vínculos familiares, a reorganização financeira e a criação de barreiras ao acesso às apostas podem fazer parte do tratamento. Pessoas que percebam perda de controle, prejuízos financeiros ou conflitos relacionados às apostas devem procurar uma Unidade Básica de Saúde ou um serviço da Rede de Atenção Psicossocial do SUS.
Por Luiz Carlos Lima, com edição de Maria Carvalho Costa
Gerência Executiva de Comunicação social (GESC) da HU Brasil