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SAÚDE MENTAL
Combate à desinformação e ao preconceito são aliados no tratamento do transtorno de bipolaridade
O transtorno de bipolaridade necessita de tratamento progressivo (Imagem ilustrativa: Freepik).
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Brasília (DF) – “Inconstante”, “muda do dia pra noite”, “difícil de lidar”. Essas são algumas expressões discriminatórias que rotineiramente são associadas a pessoas com diagnóstico de transtorno de bipolaridade (TB). Além do preconceito, também revelam desinformação. Neste 30 de março, Dia Mundial do Transtorno Bipolar, psiquiatras de hospitais universitários vinculados à HU Brasil esclarecem mitos e verdades relacionados a esse transtorno, do tratamento ofertado no Sistema Único de Saúde (SUS) e da importância da boa informação.
“O transtorno bipolar é uma doença tratável. O estigma e o preconceito agravam o sofrimento e dificultam o tratamento”, afirma Eduardo Alves, psiquiatra do Complexo do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR).
Tipos
Existem dois tipos principais de transtorno bipolar. O Tipo I, também conhecido por mania, é caracterizado por momentos de humor e energia aumentados; pensamento acelerado; taquilalia (distúrbio na fala caracterizada por sua aceleração); grandiosidade; envolvimento em atividades prazerosas sem mensurar adequadamente os riscos; esses episódios duram cerca de sete dias, de acordo com Fábio Gomes de Matos, psiquiatra do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC-UFC), do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Ceará (CH-UFC).
No Tipo II, conhecido por episódios de hipomania, há sintomas parecidos aos de mania, mas em menor intensidade e com duração de quatro dias. Nessa fase, também são comuns comportamentos depressivos. Existe, também, o episódio misto, “quando há a coexistência simultânea de sintomas maníacos e depressivos”, explica Eduardo Alves. Ele ainda informa que, entre um episódio e outro, as pessoas com TB podem permanecer sem sintomas ou apresentar sintomas residuais persistentes.
“O que diferencia os dois tipos é a gravidade dos momentos de euforia. O tipo 1, que tem episódios de euforia mais graves, muitas vezes precisando de internamento, tem igual distribuição entre homens e mulheres. Já o tipo 2, que tem episódios de euforia mais atenuados, muitas vezes passando despercebidos, é mais comum em mulheres. Em linhas gerais, acomete 1-2% da população e tem início no começo da vida adulta”, complementa Aldo Castello Branco, médico psiquiatra, idealizador e responsável técnico pelo Ambulatório de Transtorno Bipolar do Hospital das Clínicas, da Universidade Federal de Pernambuco (HC-UFPE).
Causas
O transtorno bipolar possui causas multifatoriais: biológicas, genéticas, ambientais e psicossociais. As pessoas com maior risco de desenvolverem transtorno bipolar são aquelas que possuem familiares de primeiro grau diagnosticados com TB; mudanças genéticas (epigenética), que “se refere a experiências negativas que podem modificar a expressão do DNA como por exemplo maus tratos na infância e uso de substâncias psicoativas na adolescência”, destaca Fábio Gomes.
“Portanto, o transtorno bipolar surge da vulnerabilidade biológica associada a fatores desencadeantes ambientais, e não de fraqueza emocional ou falha de caráter”, reforça Eduardo Alves.
Tratamento
O TB precisa de tratamento progressivo. Se o transtorno não for tratado adequadamente, os episódios de alteração de humor podem se agravar. Sendo assim, o SUS oferece cuidados que promovem a qualidade de vida a essas pessoas. Nesse caso, o tratamento envolve medicações estabilizadoras de humor, como carbonato de lítio, valproato ou lamotrigina. “O objetivo do tratamento não é apenas tirar das fases de euforia e depressão, mas também evitar que o humor fique oscilando entre essas fases”, frisa Aldo Castello.
O CHC-UFPR é referência no tratamento do transtorno de bipolaridade no Paraná. O Programa de Transtornos de Humor e Ansiedade (PROTHA), que possui 20 anos de história, oferece atendimento de casos refratários, crônicos e complexos; avaliação diagnóstica especializada; foco em suspeita ou confirmação de Transtorno Bipolar; pacientes encaminhados pelos ambulatórios de Psiquiatria Geral do CHC; e atuação alinhada às melhores evidências científicas.
Em Pernambuco, o Ambulatório de Transtorno Afetivo Bipolar (AMBIP) do HC-UFPE surgiu há dois anos, com o objetivo de prestar melhor assistência às pessoas com transtorno bipolar. “Sabemos que é um transtorno complexo, muitas vezes com um reconhecimento e tratamento difíceis e, por isso, surgiu a ideia de abrir um serviço especializado direcionado a essa população.”, comenta Aldo Castello Branco.
A atuação do HUWC-UFC também tem sido preponderante através do Grupo de Estudos em Transtornos Afetivos (GETA) que atende pessoas com TB no Ceará. “Além dos atendimentos realizados pela equipe interdisciplinar, os pacientes recebem algumas medicações de alto custo no Hospital, favorecendo a adesão ao tratamento”, informa Fábio Gomes. O especialista também chama atenção para a importância do tratamento não farmacológico, o que envolve adoção de estilo de vida saudável, alimentação equilibrada, sono adequado, prática regular de exercícios e de psicoeducação e psicoterapia, além de evitar consumo de bebidas alcoólicas e outras substâncias.
Na contramão do preconceito
O tratamento humanizado e acolhedor para além das fronteiras hospitalares também ingressa como uma prática não farmacológica eficaz, uma vez que contribui com a qualidade de vida das pessoas com TB e incentiva a busca pelo tratamento adequado. “É importante combater informações que dizem, por exemplo, que o TB não tem tratamento. TB é um transtorno mental crônico e conta com tratamentos eficazes, e a pessoa que tem acesso ao tratamento de qualidade pode ter um bom funcionamento e superar as dificuldades. Transtorno bipolar é muito associado a suicídio e falar sobre isso com os pacientes é muito importante”, detalha o psiquiatra Fábio Gomes.
“Para mim, o maior mito relacionado ao transtorno bipolar é que a pessoa que convive com o TB é aquela que ‘muda do dia para noite’ e que, muitas vezes, acaba sendo traduzida como uma pessoa de ‘muito difícil convívio’ ou ‘imprevisível”, assevera Aldo Castello. “Na verdade, as fases do transtorno bipolar são sustentadas por semanas a meses. A pessoa passa várias semanas eufórica ou deprimida – e essas fases são marcadamente diferentes do funcionamento fora da crise”, conclui.
A data
O Dia Mundial do Transtorno Bipolar foi instituído pela International Society for Bipolar Disorders (ISBD), em parceria com a International Bipolar Foundation e a Asian Network of Bipolar Disorder. A data foi escolhida por coincidir com o aniversário do pintor Vincent van Gogh, artista holandês que, segundo registros históricos, possivelmente apresentava sintomas relacionados ao transtorno bipolar. Desde então, a data é marcada por campanhas educativas, ações de saúde mental e debates sobre diagnóstico, tratamento e qualidade de vida das pessoas que vivem com o transtorno.
Sobre a HU Brasil
Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a HU Brasil nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares – Ebserh. É responsável pela administração de 45 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Em 2026, em um reposicionamento junto à sociedade, ao mercado e instituições parceiras, passou a ter um novo nome, que carrega sua essência: HU Brasil.
Redação: Elizabeth Souza, com revisão de Danielle Campos.
Coordenadoria de Comunicação Social/HU Brasil