Notícias
SAÚDE
Café: Saiba quais são os efeitos da cafeína no organismo
Em doses moderadas, o consumo de café pode trazer benefícios(Imagem ilustrativa: Freepik).
Nesta matéria, você verá:
Brasília (DF) - Presente no dia a dia dos brasileiros, o café é destaque no mês de abril, quando o produto é celebrado. Para esclarecer dúvidas sobre seus efeitos no organismo, especialistas da HU Brasil explicam como a cafeína atua no corpo e quais são seus impactos sobre o sono e a saúde digestiva.
De acordo com a médica do sono do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC-UFPE), Clélia Franco, a cafeína atua no sistema nervoso central ao bloquear a ação da adenosina, substância responsável por sinalizar ao cérebro a necessidade de descanso.
“A cafeína age principalmente como antagonista da adenosina, inibindo a sinalização feita por ela na área do cérebro que regula o ciclo sono-vigília, reforçando a vigília. Além do bloqueio da adenosina, a cafeína pode atrasar a liberação de melatonina, o hormônio que prepara o corpo para o início do sono”, explica.
A dose faz o veneno
A questão-chave, segundo a especialista, está na quantidade. Em doses moderadas — até cerca de 400 mg por dia —, o consumo pode trazer benefícios. “A cafeína melhora o foco e pode favorecer o aprendizado e a memória”, afirma, acrescentando que a substância também pode contribuir para o humor e a disposição.
Em estudo recentemente publicado no periódico científico JAMA, a pesquisadora registra que “um maior consumo de café e chá com cafeína foi associado a um menor risco de demência e a uma função cognitiva ligeiramente melhor, sendo a associação mais pronunciada em níveis de consumo moderados (equivalente a aproximadamente 2 a 3 xícaras por dia de café com cafeína ou 1 a 2 xícaras por dia de chá)”.
Por outro lado, o excesso da bebida pode trazer prejuízos importantes para públicos específicos. “Em pessoas sensíveis ou em doses elevadas, o café pode desencadear insônia, agitação, tremores e crises de pânico”, alerta. E acrescenta que a qualidade do descanso pode ser comprometida com a “redução do sono profundo e alterações no sono REM”, fases essenciais para a recuperação do organismo e a consolidação da memória.
Outro ponto importante é o horário da ingestão. O consumo no período da tarde ou à noite aumenta as chances de dificuldade para dormir, embora a resposta varie entre os indivíduos. “Há pessoas mais sensíveis, que permanecem em alerta por horas, enquanto outras têm menos impacto”, observa, reforçando que a moderação e a atenção aos sinais do corpo são fundamentais.
No HC-UFPE, uma parceria entre pesquisadores, docentes e estudantes resultou na elaboração de um Manual do Sono, que reúne orientações baseadas em evidências científicas para a promoção de hábitos saudáveis e melhoria da qualidade do descanso.
Estimulantes e qualidade da respiração durante o sono
No Complexo Hospitalar Universitário da Universidade Federal do Pará (CHU-UFPA), o médico do sono e otorrinolaringologista, Roberto Capeloni, ressalta que a relação entre café e distúrbios do sono deve ser analisada amplamente, considerando, além da genética, os hábitos de vida.
O especialista adverte que a estratégia popular de consumo de café para compensar noites mal dormidas não é recomendada, especialmente em excesso. “O paciente deve fazer uma pausa e cochilar por 40 minutos a 1 hora quando isso lhe for possível”, orienta. Ele reforça que evidências indicam que a cafeína não substitui o descanso adequado, enquanto cochilos breves e programados podem melhorar a sonolência e aumentar a segurança nas atividades diárias.
Embora não interfira diretamente na respiração, a cafeína pode impactar a qualidade do sono em pessoas com distúrbios respiratórios. “Como estimulante, pode exercer ação sistêmica e superficializar o sono do indivíduo que ronca e tem apneia, agravando a fragmentação do sono”, afirma o médico.
No CHU-UFPA, os hábitos de vida dos pacientes são avaliados abrangentemente, incluindo o uso de substâncias estimulantes presentes em alimentos e medicamentos. “Procuro modular o consumo e não me colocar contrário ao uso; equilíbrio é a chave”, relata o médico, que indica ainda que o efeito da cafeína “varia conforme a suscetibilidade genética de cada pessoa, podendo ser tanto aliado quanto vilão”.
O ambulatório de medicina do sono do Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza (HUBFS/CHU-UFPA) é referência na região Norte no atendimento a distúrbios respiratórios do sono, como ronco e apneia, além de outras condições. O serviço conta com protocolos estruturados e exames específicos, como a polissonografia dos tipos 1 e 4, fundamentais para o diagnóstico e acompanhamento dos pacientes.
Café e saúde digestiva
O consumo da cafeína também impacta a saúde digestiva. A gastroenterologista do Hospital Universitário Getúlio Vargas da Universidade Federal do Amazonas (HUGV-Ufam), Ananda Ale, explica que o café provoca múltiplas alterações fisiológicas no estômago e no intestino, como o aumento da secreção ácida gástrica, o relaxamento gástrico, a estimulação dos movimentos intestinais e a modulação da microbiota.
De acordo com a especialista, o hábito de consumo apresenta benefícios predominantemente protetores para o sistema digestivo. “O café está associado à redução do risco de várias condições gastrointestinais, especialmente relacionadas ao fígado, como esteatose, fibrose, cirrose e câncer hepático. A bebida também apresenta propriedades anti-inflamatórias intestinais”, afirma.
Por outro lado, pode agravar sintomas de refluxo gastroesofágico em indivíduos suscetíveis. Nesses casos, os efeitos adversos mais comuns incluem azia, dor na região do estômago, diarreia e urgência evacuatória. “O mecanismo envolve a redução da pressão do esfíncter esofágico inferior, facilitando o refluxo”, detalha a médica, destacando que diretrizes recomendam evitar mais de duas xícaras diárias nesses pacientes.
Além disso, a percepção de que o café estimula o funcionamento intestinal encontra respaldo científico. Segundo a especialista, aproximadamente 29% das pessoas saudáveis (63% mulheres) relatam vontade de evacuar após o consumo da bebida. Ela ainda acrescenta que não há evidências de que a adição de gordura potencialize esses efeitos gastrointestinais ou aumente a diarreia, exceto em pacientes com intolerância à lactose, que podem ter os sintomas exacerbados ao consumir a bebida com creme, por exemplo.
Sobre a HU Brasil
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a HU Brasil foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Elisa Andrade, com revisão de Rosenato Barreto
Coordenadoria de Comunicação Social da Rede HU Brasil