CONSCIÊNCIA NEGRA

Do gramado ao governo: a trajetória de Michael Jackson na promoção das mulheres no esporte e no enfrentamento ao racismo

Da infância no interior do Rio de Janeiro ao comando de políticas para a promoção do futebol feminino no Ministério do Esporte, a gestora narra como ajuda a construir o caminho que leva o Brasil à Copa do Mundo Feminina de 2027 e além

Publicado em 20/11/2025 12:35Modificado em 21/11/2025 19:13
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Michael Jackson, diretora de políticas de futebol e de promoção do futebol feminino. Foto: Ronaldo Caldas/MEsp

Neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, a diretora de Políticas de Futebol e Promoção do Futebol Feminino do MEsp, Mariléia dos Santos, a Michael Jackson, relembra sua trajetória marcada pela luta contra o racismo e pelo direito das mulheres no esporte. Ela celebra sua atuação no governo do Brasil, o que percebe como uma "oportunidade de devolver ao esporte tudo que recebeu."

Antes de vestir a camisa da seleção brasileira ou trabalhar como treinadora,  antes mesmo de atuar na construção de políticas públicas, Mariléia foi uma menina preta da periferia de Valença (RJ). Filha mais nova de uma família de 11 irmãos e irmãs, ela conta que o racismo em sua vida nunca se resumiu a ofensas explícitas. Ele se apresentava em portas que se fechavam sem explicação, em olhares de desconfiança e em perguntas que vinham carregadas de estranhamento.

No futebol, essas barreiras ficaram mais visíveis. O campo, historicamente negado às mulheres, parecia ainda mais proibido para uma jovem preta. “Havia quem achasse que eu era atrevida por querer estar ali. Ser mulher e ser negra era uma combinação que incomodava muita gente”, recorda. Hoje, do lugar de gestora pública, ela descreve essa trajetória com a nitidez de quem nunca esqueceu de onde veio. Ao atuar na construção de políticas de enfrentamento ao racismo e de promoção das mulheres no esporte, Michael afirma que sente  responsabilidade e, ao mesmo tempo, liberdade. “Eu sei como o racismo dói. Eu sei também que o mundo se transforma quando abrimos caminhos para outras meninas”, disse ao refletir sobre 20 de novembro e sobre o próprio aniversário, celebrado um dia antes, no dia 19. É como se a vida tivesse decidido alinhar as datas para lembrá-la de de sua trajetória e de sua luta.

Nascida em 1963, ela cresceu em Valença, no interior do Rio de Janeiro, em um ambiente de rotinas rígidas e possibilidades limitadas. A bola surgiu como ponto de fuga e alegria. Ela corria para o campinho do bairro, onde jogava com vizinhos, vizinhas, irmãos e irmãs. Foi ali sua primeira arena até que um dia, por iniciativa da prefeitura, um campeonato interbairros chamou a atenção do visitante Eurico Lira, fundador do Radar Futebol Clube, time de grande destaque nos anos 1980. “O Radar sim foi a primeira seleção brasileira de futebol feminino”, afirma Michael. 

Ao vê-la jogar Eurico não teve dúvidas e a convidou para integrar o Radar. “Ele me disse que eu podia ficar uma semana e se eu gostasse já estava contratada. Imagina, eu tinha 17 anos e sai do interior do Rio de Janeiro para morar em Copacabana”, recorda. Até hoje a sede do Radar é no mesmo local onde a jovem começou a se dedicar somente ao esporte. “Eu ia receber um salário para jogar futebol”, relembra com um sorriso largo. 

Primeira geração da seleção

Integrar a primeira seleção feminina significou enfrentar não apenas adversárias, mas também as marcas de décadas de proibição oficial. De 1941 a 1979, mulheres foram impedidas por lei de praticar futebol no Brasil. Quando a seleção começou a se formar, a estrutura era mínima. 

O primeiro torneio mundial experimental, organizado pela Fifa, ocorreu em 1988. Mariléia relembra as dificuldades daquele momento da história do futebol feminino, tais como as jogadoras serem obrigadas a usar uniformes da equipe masculina e terem que se esforçar muito para mostrar que mulheres jogavam futebol profissional. 

Michael recorda que entrar em campo com a camisa da seleção significava conquistar um território que jamais deveria ter sido negado às mulheres. Além de assumir seu lugar como mulher negra na história do futebol brasileiro. “A gente sabia que precisava existir para que outras pudessem existir depois”, resume. Essa consciência tornou a equipe pioneira mais forte do que qualquer limitação estrutural.

Por que Michael Jackson? 

O apelido Michael Jackson nasceu no campo, ainda durante os treinos do Radar Futebol Clube, em Copacabana, e eram as próprias colegas que diziam que ela dançava com a bola, sempre rápida, sempre inventiva tal qual o cantor americano. Porém, a comparação só virou marca quando o comunicador Luciano do Valle, que era um grande incentivador do futebol feminino e amigo de Eurico Lira, assistiu a um treino do Radar. 

“Ele me perguntou se poderia me chamar de Michael Jackson. Eu respondi: eu só quero jogar futebol, pode me chamar do que quiser.” O apelido pegou e ela se lembra que nas Olímpiadas de Atlanta, em 1996, o astro norte-americano assistiu a um jogo da seleção brasileira feminina. Até hoje o apelido segue com Marileia, nome pelo qual raramente ela é chamada publicamente. 

Da jogadora à gestora: o legado

O fim da carreira como atleta não marcou um afastamento do esporte e Michael virou treinadora, dirigente e, mais tarde, gestora pública. O primeiro convite para integrar o governo do Brasil veio em 2011, período em que políticas estruturantes avançaram no país, tais como o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, implantado em 2013 e que seguiu sendo realizado pelo governo federal até 2017, quando a Fifa assume a condução. Foi  primeira vez que o país tinha um torneio nacional regular, capaz de revelar talentos, profissionalizar atletas e dar visibilidade à modalidade.

Esse legado segue vivo. Muitas das jogadoras que hoje integram a seleção brasileira surgiram graças àquela estrutura. “Tenho muito orgulho disso. Foi uma conquista enorme. A gente precisava mostrar que o futebol feminino tinha força, e o Brasileiro garantiu isso”, afirma. Michael participou da elaboração e implementação dessas políticas. 

Ao completar 62 anos, Michael olha para sua história com a consciência de que percorreu um caminho improvável. Sabe que seu trabalho como gestora pública transforma vidas. Sabe que seu exemplo inspira meninas e mulheres que se enxergam nela. “Eu cheguei até aqui porque outras mulheres seguraram portas para mim. Agora é a minha vez de segurar essas portas abertas”, afirma.

Copa de Futebol Feminino: o futuro que ela trabalha para construir

Agora, o Brasil se prepara para sediar a Copa do Mundo Feminina de 2027. O torneio já movimenta expectativas, investimentos e planos de curto, médio e longo prazo. Para Michael, essa Copa representa o encontro de duas temporalidades: o passado de luta das pioneiras e o futuro que o país constrói para as próximas gerações, já com políticas públicas sólidas como o Bolsa Atleta. O Ministério do Esporte trabalha na preparação do evento, na articulação com cidades-sede, na inclusão de meninas e mulheres em programas esportivos e na ampliação da estrutura que dará suporte ao torneio.

A Copa 2027 simboliza um ciclo que ela própria ajudou a iniciar. Mostra ao mundo que as meninas que um dia precisaram lutar para jogar agora têm sua maior vitrine aqui mesmo no Brasil. Michael vê nessa realização não apenas um evento esportivo, mas um marco político e social. “Isso vai muito além do futebol. É uma oportunidade de mudar a vida de meninas que nunca imaginaram viver algo assim”, afirma. Ela acredita que 2027 será um divisor de águas, capaz de consolidar o fortalecimento do futebol feminino no país e abrir portas permanentes para novas gerações. 

Para saber mais:

O Dia da Consciência Negra marca a morte de Zumbi dos Palmares e simboliza a luta da população negra contra o racismo e por direitos fundamentais. A data, oficializada em 2011, é um convite à reflexão sobre as desigualdades históricas e à valorização das contribuições negras para a sociedade brasileira. Para Michael Jackson, esse dia atravessa sua trajetória. Ela viveu, enfrentou e superou desigualdades estruturais. Hoje transforma essa experiência em política pública. Sua vida dentro e fora do campo mostra que a luta contra o racismo se faz com memória, coragem e presença e que o esporte pode ser ferramenta poderosa para construir um país com justiça social e racial. 

Confira mais fotos no álbum do Flickr do Ministério do Esporte:

Dia da Consciência Negra.20/11/2025

Assessoria de Comunicação - Ministério do Esporte

Categorias
Cultura, Artes, História e Esportes
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