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DIA MUNDIAL DA ALERGIA
Poluição, clima e hábitos de vida contribuem para aumento das alergias no mundo
Brasília (DF) – Não só o Brasil, mas o mundo está ficando mais alérgico. Estima-se que, em 2030, até 50% da população mundial possa ter algum tipo de alergia, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Além de afetarem a qualidade de vida, algumas dessas condições podem provocar reações graves e exigir atendimento médico imediato.
“Atualmente, calculamos que cerca de 30% da população mundial tem algum tipo de alergia”, aponta o médico do Complexo do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR), Herberto Chong.
O aumento das alergias vem ocorrendo devido aos hábitos alimentares e de vida. Alterações no microbioma, tanto intestinal quanto da pele, também favorecem o desenvolvimento de doenças alérgicas. “Estamos com menos contato com a natureza, comendo alimentos cada vez mais processados e ultraprocessados, em vez de alimentos naturais. Outro ponto importante é a poluição dentro e fora de casa. Tudo isso muda o microbioma do intestino e faz com que desvie a resposta imunológica para o desenvolvimento de doenças alérgicas”, complementa Chong.
Além disso, produtos como detergentes e sabão também são conhecidos por aumentar a alergia, porque modificam o microbioma da pele, “fazendo com que se quebre a barreira de defesa da pele e entrem alérgenos, estimulando o sistema imunológico”, explica.
Diagnóstico correto para tratamento apropriado
Entre as doenças alérgicas mais frequentes estão a rinite, a asma, a dermatite atópica, e a urticária, bem como as alergias alimentares, medicamentosas e as causadas por picadas de insetos. Embora menos comuns, as reações de anafilaxia, aquelas desencadeadas por alimentos, medicamentos ou venenos de insetos, merecem atenção especial por representarem risco de morte.
A médica alergista Jane da Silva, gerente de Ensino e Pesquisa do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (HU-UFSC), ressalta que nem todo sintoma respiratório ou dermatológico tem origem alérgica. “Nem toda falta de ar é asma, nem toda coceira é alergia, ou nariz entupido é rinite alérgica”, diz. Segundo a especialista, o diagnóstico exige uma boa história clínica, sendo necessário avaliar o tempo de evolução, desencadeantes, sazonalidade, exposição ambiental, resposta a tratamentos, exame físico e, quando indicado, realização de exames complementares.
Segundo Chong, os casos mais frequentes no ambulatório do CHC-UFPR são de pacientes alérgicos à proteína do leite de vaca e do ovo, principalmente da clara. “Mas vem aumentando casos de alergias a frutas como banana, kiwi e pêssego, bem como às castanhas e ao amendoim. Além disso, uma condição bastante comum aqui no sul do país é alergia a pólen, especialmente de gramíneas. Porém, as alergias aos ácaros são as mais dominantes nos quadros respiratórios”, observa.
Tratamentos
Uma ferramenta importante no tratamento é a imunoterapia ou terapia de dessensibilização, conhecida popularmente como vacina antialérgica. O procedimento é indicado principalmente para pacientes com rinite alérgica, conjuntivite alérgica, alguns casos de asma alérgica controlada, alergias alimentares e alergia ao veneno de abelhas e vespas. Antes do início do tratamento, é necessário confirmar a sensibilidade ao alérgeno e estabelecer a relação entre a substância e os sintomas apresentados.
“A imunoterapia busca modificar a resposta do sistema imunológico, promovendo tolerância ao agente causador da alergia”, expõe Jane da Silva. Entre os seus benefícios estão a redução das crises, a diminuição do uso de medicamentos, a melhora da qualidade de vida e os efeitos que podem permanecer mesmo após o término do tratamento. Apesar dos bons resultados, a alergista destaca que a imunoterapia deve ser indicada apenas em casos específicos e sempre acompanhada por um médico especialista, já que, embora incomuns, podem ocorrer reações sistêmicas durante o tratamento.
Atenção aos primeiros sintomas
As alergias podem aparecer em qualquer momento da vida, independentemente de sexo, raça ou etnia, ressalta Guilherme Azizi, médico alergista do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/CH-UFRJ). “Todo médico da atenção primária, de família ou aquele que estiver mais próximo do paciente, deve conseguir reconhecer se aquele sintoma que a pessoa está apresentando pode ser decorrente de alergia. Assim que o sintoma começa a comprometer a qualidade de vida, a pessoa deve buscar o primeiro atendimento”, afirma.
Urticária colinérgica: Conhecida como alergia ao suor
“Percebi que em momentos de estresse ou exercício físico meu braço ficava empolado. Não dei atenção, após um tempo, as áreas foram aumentando e situações do cotidiano, como andar e tomar banho, começaram a me deixar ainda mais com o problema”, relembra Nelyana Oliveira, de 29 anos, paciente atendida no HUFF-UFRJ. Ela acrescenta que, com o passar do tempo, as lesões deixaram de aparecer apenas nos braços e se espalharam pelas pernas, barriga e rosto. “Precisava ter cuidado ao levantar, tomar banho e não podia andar rápido. Isso era um gatilho para a urticária. O principal desencadeador das crises era o estresse”, conta.
A paciente recebeu diagnóstico do quadro de urticária colinérgica associada ao dermografismo por meio de um método desenvolvido pelos médicos alergistas e imunologistas Guilherme Azizi e Solange Valle, do HUCFF-UFRJ. “A pessoa desenvolve uma reação ao próprio suor. Quando a temperatura corporal aumenta, surgem lesões que coçam bastante e comprometem significativamente a qualidade de vida”, relata Azizi.
Método replicável para diagnosticar a urticária colinérgica
Os métodos tradicionais para reconhecer esse problema dependem de equipamentos pouco acessíveis, como bicicletas ergométricas ou banheiras com água aquecida, limitando sua aplicação em ambulatórios e unidades de saúde. “Boa parte dos colegas acaba se baseando apenas no relato do paciente, porque não consegue realizar um teste que comprove o diagnóstico”, explica Azizi.
O método Azizi-Valle é baseado em um protocolo simples, de baixo custo e facilmente reproduzível. No teste, o paciente sobe e desce lances de escada sob monitoramento da frequência cardíaca, elevada gradualmente em 15 batimentos por minuto a cada cinco minutos. Durante todo o procedimento, são aferidas as temperaturas da fronte, da região timpânica e da boca.
“O objetivo é aumentar a temperatura corporal de forma controlada e monitorada. A partir do momento em que o paciente começa a apresentar as lesões características, o diagnóstico é confirmado e já é possível indicar o tratamento adequado”, afirma Azizi.
De acordo com o médico, por utilizar apenas uma escada, um frequencímetro e termômetros, a técnica reduz custos e facilita o reconhecimento do problema. Atualmente, o método já é utilizado em hospitais das redes pública e privada em estados como Pernambuco, Bahia, São Paulo e Paraná, além de instituições no Equador e na Colômbia.
A experiência de Nelyana ilustra a dificuldade enfrentada por muitos pacientes com urticária colinérgica, condição na qual o aumento da temperatura corporal desencadeia lesões avermelhadas e intensamente pruriginosas na pele. Exercícios físicos, ingestão de bebidas quentes, alimentos picantes ou mesmo episódios de estresse podem provocar a reação.
Sobre a HU Brasil
Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.
Por Claudia Holanda com revisão de Rosenato Barreto
Gerência Executiva de Comunicação Social da HU Brasil