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HUSM reforça importância da vacinação contra HPV na prevenção do câncer de colo de útero
Março é o mês de reforçar a importância da prevenção do câncer de colo de útero — uma doença que pode ser evitada com informação, vacinação contra o HPV e realização periódica do exame preventivo.
Santa Maria (RS) - O câncer de colo de útero é uma doença com causa bem estabelecida: a infecção persistente por tipos oncogênicos do Papilomavírus Humano (HPV). Diferentemente de outros tumores que apresentam forte componente hereditário, o câncer de colo uterino não está associado à história familiar, mas sim à presença contínua do vírus em células do colo do útero. “Não existe câncer de colo de útero sem infecção prévia por HPV. O que ocorre é que, na maioria das pessoas, o organismo elimina o vírus espontaneamente. O problema está na infecção persistente pelos tipos de alto risco, que podem provocar alterações celulares e evoluir para lesões pré-neoplásicas e, posteriormente, para câncer”, explica a médica ginecologista e obstetra Luciana Zaffari Cunha, do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), vinculado a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh).
Segundo a especialista, trata-se de um dos poucos tipos de câncer que apresentam uma etapa intermediária claramente identificável e tratável antes da doença invasiva se instalar. As chamadas lesões intraepiteliais de alto grau (como NIC 2 e NIC 3) podem ser diagnosticadas e removidas antes da progressão. “Quando identificamos uma lesão pré-neoplásica, o tratamento consiste na retirada da área alterada e no acompanhamento periódico com citologia e colposcopia. Nessa fase, as taxas de resolução são muito altas”, afirma. Já nos casos em que o diagnóstico aponta câncer invasivo, a conduta depende do estadiamento clínico. Em estágios iniciais, a cirurgia pode ser realizada com intenção curativa; nas fases mais avançadas, o tratamento costuma envolver quimioterapia associada à radioterapia externa e à braquiterapia — modalidade de radioterapia interna em que a fonte de radiação é posicionada próxima ou dentro do tumor, permitindo alta dose direcionada à área afetada com menor impacto nos tecidos vizinhos. Quanto mais precoce o diagnóstico, maiores são as chances de controle da doença e de adoção de terapias menos invasivas.
A principal estratégia de prevenção é a vacinação contra o HPV. O imunizante disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) é a vacina quadrivalente, que protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do vírus — sendo os tipos 16 e 18 responsáveis por aproximadamente 70% dos casos de câncer de colo de útero. Na rede privada, está disponível a vacina nonavalente, que amplia a cobertura para nove tipos de HPV e pode alcançar proteção estimada em cerca de 90% dos casos relacionados aos subtipos incluídos na vacina.
“A vacina não elimina totalmente o risco, mas reduz de forma expressiva a probabilidade de infecção, desenvolvimento de lesão e as formas mais graves da doença. Do ponto de vista de saúde pública, é uma das intervenções mais efetivas na prevenção de câncer”, destaca Luciana.
A vacinação é indicada pelo Ministério da Saúde para meninas e meninos de 9 até 14 anos, 11 meses e 29 dias, preferencialmente antes do início da vida sexual, quando a resposta imunológica é mais robusta e antes da exposição ao vírus. Nessa faixa etária, todos podem receber a vacina HPV, gratuitamente, pelo SUS.
No ambiente hospitalar, a vacina também pode ser disponibilizada para grupos específicos fora da faixa etária do calendário regular, como pessoas imunossuprimidas, pacientes oncológicas, transplantadas ou vivendo com HIV, mediante avaliação clínica.
Panorama da Cobertura Vacinal
Segundo o Ministério de Saúde, em 2024, o Brasil atingiu mais de 82% de cobertura vacinal contra HPV entre meninas de 9 a 14 anos e cerca de 67% entre meninos da mesma faixa etária, superando a média global de 12%, em parte devido à adoção do esquema de dose única e à retomada de estratégias de vacinação em Unidades Básicas de Saúde e escolas, com objetivo de alcançar 90% até 2030.
No Rio Grande do Sul, dados oficiais estimam cobertura de aproximadamente 86,3% em meninas e 70,4% em meninos de 9 a 14 anos, os maiores valores estaduais nos últimos anos, embora ainda abaixo da meta ideal, e, em Santa Maria, a cobertura vacinal na mesma faixa etária foi de 63,12% em 2024, segundo painel de indicadores municipais — evidenciando necessidade de intensificação das ações de mobilização e resgate vacinal em diferentes níveis de atenção à saúde.
Rastreamento e linha de cuidado no HUSM
Mesmo com a vacinação, o rastreamento continua sendo fundamental, uma vez que as vacinas não cobrem todos os tipos oncogênicos de HPV. Tradicionalmente, o rastreio é realizado por meio do exame citopatológico do colo do útero (Papanicolau), recomendado a partir dos 25 anos. Após dois exames anuais consecutivos com resultado normal, o intervalo pode ser ampliado para três anos, conforme diretrizes do Ministério da Saúde. Trata-se de um exame consolidado, mas que depende da adequada coleta e da interpretação laboratorial.
O Ministério da Saúde vem implementando gradualmente o teste molecular para detecção do HPV de alto risco como método primário de rastreamento. Nesse modelo, identifica-se inicialmente a presença do vírus; se o resultado for positivo para subtipos oncogênicos, a paciente é encaminhada para colposcopia, exame que permite avaliação detalhada do colo uterino e definição da necessidade de biópsia. O diagnóstico definitivo é estabelecido por meio da análise histopatológica do tecido coletado.
No fluxo assistencial, o rastreamento é realizado prioritariamente na Atenção Básica. Diante de alterações, a paciente é encaminhada para avaliação especializada. O HUSM conta com ambulatório de lesões pré-neoplásicas e ambulatório oncológico, além de realizar procedimentos cirúrgicos e integrar a linha de cuidado para pacientes que necessitam de quimioterapia e radioterapia.
Nos estágios iniciais, a doença pode ser assintomática. Quando há sintomas, os mais frequentes incluem sangramento após relação sexual, sangramento fora do período menstrual, corrimento vaginal com odor forte e dor durante a relação. “Qualquer sangramento fora do padrão habitual deve ser investigado. O diagnóstico precoce permite tratamentos menos invasivos e melhores resultados”, orienta a médica.
A especialista reforça que a prevenção do câncer de colo de útero se baseia em três pilares: vacinação na faixa etária recomendada, realização periódica do exame de rastreamento e investigação imediata de alterações clínicas. “É uma doença amplamente evitável quando seguimos as recomendações. Informação qualificada e acesso ao cuidado fazem toda a diferença”, conclui.
Texto: Mariângela Recchia
