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SAÚDE PÚBLICA
HU-Furg e Laboratório de Micologia completam 8 anos de atendimento a pacientes com suspeita de esporotricose humana
Foto Freepik: Rede de assistência garante diagnóstico e tratamento da esporotricose em Rio Grande
Rio Grande (RS) – Depois de um simples passeio, o gato volta com uma pequena ferida, aparentemente inofensiva. ‘É só um arranhão’, pensa o tutor. Mas os dias passam, e o machucado não cicatriza. Em muitos domicílios, essa cena marca o início de uma longa caminhada até o diagnóstico da esporotricose, uma infecção que atinge animais e humanos, que pode se agravar se não for tratada.
O Laboratório de Micologia (LabMico) da Faculdade de Medicina (FaMed) da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), atua no diagnóstico laboratorial das doenças fúngicas e desenvolve ações de pesquisa, ensino, extensão e inovação voltadas ao enfrentamento das micoses de interesse em saúde pública. Foi a partir dos estudos do Grupo de Micologia Médica da FaMed/Furg, coordenado pela professora Melissa Xavier, que as pesquisadoras Karine Sanchotene, Vanice Poester e Lívia Munhoz evidenciaram, em suas teses, a problemática da esporotricose humana e animal no extremo sul do Brasil, caracterizando o município do Rio Grande como área hiperendêmica para a doença.
Frente à problemática identificada nas pesquisas científicas, e como estratégia de enfrentamento, foi criada, em 2027, a Rede de Assistência à Esporotricose Humana, com garantia de tratamento gratuito por meio da Secretaria Municipal de Saúde do Rio Grande. A Rede está vinculada ao LabMico/Furg e ao Serviço de Atendimento Especializado em Infectologia (SAE Infectologia) do Hospital Universitário Dr. Miguel Riet Corrêa Jr. (HU-Furg), que integra a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). O atendimento é gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e é referência para diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos casos em Rio Grande e região.
A Rede realiza assistência integral com equipe multiprofissional, notificações obrigatórias e ações educativas para prevenção e identificação precoce da doença, que atinge humanos e animais. Segundo a infectologista e chefe da Unidade de Doenças Infecciosas e Parasitárias, Rossana Basso, “Todo paciente que tenha uma lesão de pele, com evolução de mais de uma semana e que teve contato com gato com lesão suspeita deve ser avaliado o mais breve possível, em virtude de estarmos em uma região hiperendêmica. O uso indevido de medicações como antibióticos ou até mesmo antifúngicos posterga o diagnóstico correto”.
Atuação contínua e especializada
A equipe é composta pelas micologistas Melissa e Vanice, pela médica Rossana, pela pediatra Mariza Zanchi, pela farmacêutica e bioquímica Karine, pela enfermeira Bianca Blan e pela biomédica Monica Campos. O serviço realiza investigação laboratorial, consulta de triagem, prescrição de medicamentos, acompanhamento mensal e emissão de notificações conforme previsto na Portaria GM/MS nº 6.734/2025, que inclui a esporotricose entre os agravos de notificação compulsória nacional.
Desde a implantação da Rede, aproximadamente 300 pacientes já foram atendidos. Em 73% desses casos, houve confirmação da doença. Isso reforça a relevância do trabalho desenvolvido para o controle de uma micose considerada hiperendêmica na região. “O SAE Infectologia é referência de atendimento para diversos municípios da região, a Rede de Assistência à Esporotricose Humana faz parte das especialidades de atuação do setor, e, portanto, tem pactuação assistencial garantida aos pacientes oriundos de outros municípios, bem como a oferta de transporte gratuito ao usuário do SUS”, pontuou Rossana.
Como salientou Karine, “O padrão ouro para diagnóstico da esporotricose é o cultivo micológico de amostra clínica obtida a partir da lesão do paciente. Com sete a 10 dias do processamento em meios específicos dessa coleta, geralmente conseguimos diagnosticar os casos positivos. O principal desafio observado é durante a consulta de triagem na avaliação clínica das lesões, em que presenciamos, muitas vezes, pacientes em prática de automedicação do itraconazol, fármaco de eleição para a esporotricose, prejudicando a sensibilidade do cultivo fúngico, proporcionando resultados falso-negativos para o fungo em questão”.
Segundo Rossana, “A disponibilização de tratamento ocorre pela farmácia municipal do município de origem do paciente, tendo em vista que o antifúngico de eleição para o tratamento da esporotricose faz parte do componente básico da assistência farmacêutica do SUS”.
O que é esporotricose e por que é um problema de saúde pública?
A esporotricose é a principal micose de implantação do Brasil, causada por fungos do gênero Sporothrix sp. A transmissão ocorre por duas formas:
- Sapronótica: quando o fungo penetra na pele por meio de pequenos traumas com materiais orgânicos contaminados, como palha e madeira em decomposição;
- Zoonótica: a infecção acontece por arranhões ou mordidas de felinos infectados.
Em humanos, a doença pode causar uma lesão única ou múltiplas lesões na pele, que se espalham ao longo dos vasos linfáticos. Nos gatos, a forma disseminada é mais comum. A transmissão da esporotricose é uma interface entre saúde humana e saúde animal. Por isso, o controle da doença exige ações integradas e contínuas, com orientação para manejo adequado dos felinos infectados e conscientização da população.
Segundo a enfermeira Bianca, “O acompanhamento multiprofissional é essencial para garantir a identificação precoce da doença e o início imediato do tratamento, favorecendo a regressão dos sintomas já nas primeiras semanas, geralmente a partir de 15 dias. A esporotricose pode comprometer o bem-estar e as atividades diárias, gerando impactos na qualidade de vida, já que se manifesta de diferentes formas, desde uma lesão única na pele, com ou sem secreção, até múltiplas lesões que podem seguir o trajeto dos vasos linfáticos ou se espalhar por todo o corpo. Essas lesões podem estar associadas a manchas ou nódulos dolorosos, dores nas articulações e aumento dos gânglios (linfonodos)”.
Além disso, Bianca explicou: “Durante os atendimentos, orientamos os pacientes sobre a importância de seguir corretamente o tratamento prescrito, as formas de prevenção de novos casos e o encaminhamento adequado de gatos doentes para atendimento veterinário, já que esses animais são os transmissores da doença na forma zoonótica. Também promovemos ações de educação em saúde com base no conceito de ‘Saúde Única’, que considera a interligação entre a saúde humana, animal e ambiental no enfrentamento da esporotricose”.
Uma alternativa ou complemento ao tratamento com antifúngicos, “especialmente em casos em que seu uso é contraindicado, como em gestantes, pode-se utilizar a termoterapia. Essa técnica consiste na aplicação de calor local na lesão, reduzindo a capacidade de sobrevivência do fungo e favorece a atuação do sistema imunológico na eliminação da infecção”, pontuou Bianca.
A prevenção da esporotricose inclui o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) ao manusear materiais orgânicos ou felinos com lesões, além do encaminhamento imediato de casos suspeitos à Rede de Assistência à Esporotricose Humana. A orientação é que qualquer lesão de pele com evolução atípica seja avaliada por equipe de saúde, especialmente se houver contato recente com gatos ou ambientes com matéria orgânica.
Sobre a Ebserh
O HU-Furg faz parte da Rede Ebserh desde julho de 2015. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Andreia Pires
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh