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Estudo ocorrido no HUGG-Unirio/Ebserh apresenta a espiritualidade como fator de proteção contra a ansiedade em trabalhadores da saúde
Pela natureza de sua ocupação, os profissionais de saúde estão dentre aqueles que mais sofrem de sintomas de ansiedade (SA). E, de acordo com estudos prévios, a espiritualidade pode gerar um efeito protetor nos níveis de SA da população em geral. A partir desses dois dados, pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Neurologia (PPGNeuro) avaliaram 118 trabalhadores da saúde do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (HUGG-Unirio/Ebserh), durante o período da pandemia de Covid-19, para analisar como diferentes níveis de espiritualidade atuavam no controle da ansiedade. O resultado: As dimensões da espiritualidade conferiram proteção contra a ansiedade aguda durante a pandemia.
A espiritualidade pode envolver estados cognitivos e emocionais como crenças, motivações e um sentimento de gratidão, podendo ser avaliada por meio de questionários estruturados. Nessa perspectiva, o espiritual é entendido como um aspecto particularmente humano, não se relacionando a algo da sacralidade ou religiosidade, mas com algo que possibilita ao homem praticar sua aptidão de unicidade e de procura pelo sentido da vida.
Além disso, de acordo com os pesquisadores, o estudo sobre espiritualidade no Brasil tem grande relevância devido ao seu contexto cultural, uma vez que espiritualidade e religião são comuns na cultura brasileira.
O estudo observacional foi realizado em profissionais de saúde de 12 de maio a 10 de julho de 2020 no HUGG, hospital de referência para COVID-19. Foram incluídos colaboradores de ambos os sexos com idades entre 20 e 60 anos.
Inicialmente, todos preencheram um questionário presencial sobre espiritualidade e sintomas de ansiedade. Como o primeiro caso de COVID-19 no Brasil foi notificado em 26 de fevereiro de 2020, foi possível identificar os participantes que apresentavam SA iniciada antes e persistente após essa data (ansiedade crônica), aqueles que iniciaram a SA apenas durante a pandemia (grupo de ansiedade aguda) e os demais que permaneceram sem sintomas de ansiedade durante todo o período.
Para alcançar os resultados junto ao corpo de trabalho do HUGG, os investigadores utilizaram a escala FACIT-Sp-12 ( Functional Assessment of Chronic Illness Therapy - Spiritual Well-Being) que foi concebida para mensurar a espiritualidade geral e três dimensões psicologicamente significativas: significado e propósito na vida; harmonia e paz; e sensação de conforto a partir da fé. Esses domínios de espiritualidade são considerados como construtos separados que compõem o bem-estar espiritual. É um questionário autoaplicável composto por 12 itens, divididos igualmente entre as três dimensões.
O estudo demonstrou o impacto do bem-estar espiritual entre profissionais de saúde na ansiedade crônica e aguda. A alta espiritualidade envolve emoções positivas e crenças espirituais, que podem proporcionar uma melhor adaptação psicológica contra os SAs. Outra possível razão, de acordo com os especialistas, é que a espiritualidade tem se mostrado um fator de resiliência consistente. Como uma espiritualidade mais elevada foi o preditor mais confiável de ansiedade menos aguda, pôde-se inferir que os profissionais de saúde com maior bem-estar espiritual tendem a desenvolver mecanismos internos que os ajudam a lidar com as adversidades associadas à atual pandemia.
Um mecanismo potencial para proteção da espiritualidade nos sintomas de ansiedade pode estar relacionado, também, aos substratos neurobiológicos da espiritualidade. Embora várias regiões cerebrais possam contribuir para a espiritualidade, o córtex parietal (área responsável pelas sensações do corpo humano) é sem dúvida a região cerebral mais frequentemente implicada relacionada à espiritualidade.
DIMENSÕES PAZ E FÉ
Mais detalhadamente, a dimensão espiritualidade da paz foi um pressagiador significativo de menos sintomas de ansiedade entre os profissionais de saúde, independentemente de esses sintomas serem crônicos ou agudos durante a pandemia. Tal fato pode ser explicado porque a subescala paz é uma expressão afetiva da espiritualidade, refletindo uma sensação de harmonia interior, e tem sido especificamente relacionada à saúde mental.
Além disso, a dimensão da fé previu significativamente sintomas de ansiedade que começaram apenas durante a pandemia. Essa descoberta indicou a importância da fé pessoal como um fator de proteção adicional para a ansiedade aguda no surto atual. Dentre as explicações possíveis de tal fato estão: a fé pode ser uma fonte de esperança para o futuro; a fé pode fornecer uma visão de mundo otimista, que é inversamente associada aos sintomas de ansiedade; e, finalmente, cultivar expressões de fé pode aumentar a resistência psicológica e, consequentemente, mitigar o SA. O estudo ressalta, ainda, que a fé pessoal é mais subjetiva e mais profunda do que a filiação religiosa.
Esses dados sugerem, portanto, que a fé pessoal pode representar uma importante estratégia de enfrentamento frente a um grave momento de estresse entre os profissionais de saúde. Ou seja, intervenções baseadas na melhoria do bem-estar espiritual, considerando essas dimensões da espiritualidade, poderiam ser desenhadas e implementadas nos profissionais de saúde.
ARTIGO
O estudo publicado na Revista Plos One foi desenvolvido por: Julio César Tolentino, Ana Lucia Taboada; Carolina Ribeiro Mello; Simone Gonçalves de Assis; André Casarsa Marques; Áureo do Carmo Filho; Helen Rose Salazar; Eelco van Duinkerken e Sérgio Luis Schmidt.
Sobre a Rede Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) foi criada em 2011 e, atualmente, administra 41 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência.
Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), e, principalmente, apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas.
Devido a essa natureza educacional, os hospitais universitários são campos de formação de profissionais de saúde. Com isso, a Rede Ebserh atua de forma complementar ao SUS, não sendo responsável pela totalidade dos atendimentos de saúde do país.