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Fevereiro roxo amplia debate sobre o Alzheimer
Transtorno neurodegenerativo progressivo que afeta, principalmente, o sistema cognitivo e a memória, o Alzheimer é o tipo de demência mais comum no mundo. Estima-se que cerca de 1,2 milhão de brasileiros convivam com a doença.
Para ampliar o debate sobre o assunto, o mês de fevereiro chama a atenção para doença e a importância do diagnóstico e tratamento precoce. O Hospital das Clínicas da UFMG/Ebserh, que possui um dos maiores serviços de geriatria pelo SUS de Minas Gerais, é referência no tratamento do Alzheimer. Em entrevista, a geriatra da equipe do HC, Camila Alcântara, explica o que é a doença, sintomas e esclarece as principais dúvidas sobre o tema.
1- O que é Alzheimer
Demência de Alzheimer (DA) é considerada uma doença neurodegenerativa progressiva, cujos principais achados neuropatológicos são a perda de neurônios e a degeneração sináptica intensa. Ela é responsável por quase 70% dos casos de demência. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, estima-se que, em 2050, cerca de 150 milhões de pessoas estarão vivendo com a enfermidade, que é uma das principais causas de perda de independência entre os idosos, trazendo enormes impactos físicos, psicológicos, sociais e econômicos não apenas às pessoas acometidas pela demência, mas também para seus cuidadores, familiares e sociedade.
2- Quais são os principais sintomas?
É observado surgimento gradual e progressivo de várias alterações cognitivas, que podem ocorrer em intensidades diferentes:
- esquecimento de fatos recentes (o que o faz ficar repetitivo)
- dificuldade na atenção e aprendizado (é distraído com facilidade em ambientes com vários estímulos, dificuldade em manter novas informações)
- dificuldade na execução de tarefas que anteriormente eram executadas com muita facilidade (dificuldades no trabalho, no controle financeiro, nas atividades domésticas, necessidade de confiar em outros para planejar atividades importantes da vida diária ou tomar decisões), o que pode ser confundido com preguiça ou desânimo “da idade”
- desorientação espacial e temporal (o paciente começa a se perder em locais conhecidos por ele, erro de rotas, dificuldade com datas, dia de semana)
- alterações de linguagem (dificuldade em encontrar palavras, substituindo-as por expressões genéricas, prejuízo em lembrar nomes de pessoas)
Essas alterações cognitivas devem estar associadas ao prejuízo funcional do indivíduo, ou seja, o paciente deixou de exercer atividades que outrora fazia com destreza devido ao declínio cognitivo. Com o progredir da doença, a perda das funções cognitivas leva à maior dependência para realização de atividades e à perda de autonomia. Em uma fase mais avançada, atividades mais simples do autocuidado, como banho e se vestir, continência urinária e fecal, a transferência e a capacidade de se alimentar, tornam-se prejudicadas.
Alterações de comportamento e psicológicas também podem estar presentes e, quando não atribuídas ao quadro demencial, podem gerar intenso sofrimento para familiares e paciente. Esses sintomas causam tanto sofrimento ou até mais que as manifestações cognitivas, sendo com frequência a razão para a consulta médica.
3- Todo esquecimento é Alzheimer? Como distinguir esquecimento esporádico do Alzheimer?
Não, nem todo esquecimento é Alzheimer. Alterações cognitivas leves podem ser encontradas no envelhecimento normal, como lentidão do processamento das informações, no entanto, não são progressivas nem incapacitantes. Importante destacar que nessa situação não é observado prejuízo funcional do paciente, ou seja, os esquecimentos acontecem, porém, não interferem na realização das atividades cotidianas.
Diversas doenças podem se apresentar com presença de alterações de memória e podem ser confundidas com DA. Episódio depressivo, transtornos de ansiedade ou situações de stress, burn out e/ou luto podem causar esquecimentos. Outras doenças orgânicas também podem causar alterações de memória, como hipotireoidismo, cirrose, anemia, doenças renais, bem como infecções agudas (causando delirium). Não podemos esquecer que vários medicamentos influenciam de forma intensa e negativa na memória.
Outros tipos de situações, que não demência de Alzheimer, podem cursar também com acometimento de memória e seu prejuízo, por vezes, pode ser também definitivo, como no acidente vascular cerebral, tumores do sistema nervoso central (SNC), hemorragias cerebrais, infecções do SNC e traumatismos cranioencefálicos. Outras demências, como a demência frontotemporal, demência por corpos de Lewy e demência na doença de Parkinson, também são diagnósticos diferenciais.
4- Podemos dizer que é uma doença da terceira idade?
A Demência de Alzheimer (DA) acontece geralmente em idosos com idade superior a 60 anos de idade, sendo que a prevalência aumenta com o envelhecimento, podendo chegar a uma estimativa de 40% em maiores de 85 anos. Como é uma doença relacionada ao acúmulo de alterações resultantes de degeneração celular, quanto maior o tempo de vida do indivíduo, maior a possibilidade das alterações neurodegenerativas e cerebrovasculares. Mas é válido reforçar que a DA e o envelhecimento não são sinônimos.
5- Não existe um exame específico para detectar a Demência de Alzheimer. Como é o diagnóstico da doença?
Não há exames de imagem ou de sangue que fazem o diagnóstico da doença isoladamente. Ele é realizado por um profissional de saúde capacitado, por meio da história clínica detalhada, fornecida por paciente e familiar, associada a exames que auxiliam no esclarecimento e excluem outras causas para o quadro atual. O diagnóstico segue o Manual de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais da Associação de Psiquiatria Americana IV (DSM-IV), que detalha os critérios e direciona as informações fornecidas. Deve ser observado aparecimento insidioso e evolução gradativa de declínio cognitivo, que se torna importante e começa a gerar preocupação para o indivíduo e ou familiar, pois há interferência na independência em atividades da vida diária. Esse declínio deve ser comprovado por informante próximo e devem ser excluídas doenças agudas ou outros transtornos mentais. Testes cognitivos também devem ser realizados.
6- Também é uma doença sem cura. É possível prevenir e/ou retardar os seus efeitos? Como?
Apesar de numerosas pesquisas na área, ainda não há tratamento curativo para a doença. O cerne do cuidado está direcionado para melhorar a qualidade de vida, o desempenho funcional e manejar os sintomas comportamentais desencadeados pela demência e que causam sofrimento para o paciente e cuidador. Para tanto, coexistem medidas medicamentosas e não medicamentosas que são individualizadas para cada paciente. O apoio de equipe multidisciplinar é essencial, envolvendo profissionais de medicina, enfermagem, psicologia, terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, serviço social e farmácia. Os profissionais atuam em conjunto a todo o tempo, mas com demandas de diferentes intensidades no decorrer da evolução da doença.
Os agentes farmacológicos utilizados para a demência de Alzheimer podem auxiliar na melhora dos desempenhos cognitivo e funcional e na redução da ocorrência dos distúrbios de comportamento e dos sintomas neuropsiquiátricos, mas não devem ser obrigatoriamente prescritos para todos os casos, pois há restrições e não são isentos de efeitos adversos. Técnicas de reabilitação cognitiva e intervenções psicossociais também contribuem para o manejo da doença e devem ser estimuladas.
Os cuidadores devem sempre ser acessados por todos da equipe e a todo tempo quanto ao entendimento da história natural da doença e quanto ao grau de sobrecarga de cuidado, pois assim como o paciente, eles têm papel de extrema importância nesse cenário. O maior fator de risco para a demência de Alzheimer é a idade. Com o aumento da expectativa de vida da população, maior é a prevalência da doença, mas importantes fatores de riscos individuais e modificáveis para a demência de Alzheimer já estão comprovados e atuar sobre eles pode impactar a trajetória de vida do indivíduo. Ter hábitos saudáveis de vida, como praticar atividades físicas regularmente, dieta equilibrada, ter uma mente ativa, realizar controle adequado de pressão arterial e glicose, evitar tabagismo e etilismo, desenvolver uma boa rede de relação afetiva: tudo isso pode proporcionar longevidade com independência e autonomia.
Redação: Luna Normand (Jornalista do HC-UFMG/Ebserh)