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HISTÓRIA
A voz da primeira patronesse negra da Medicina UFRJ
"O convite para ser Patronesse da turma 255 da Faculdade de Medicina me deixou surpresa e emocionada; foi um dos momentos mais felizes que vivi nos 43 anos de formada e de trabalho no IPPMG. "
A Dra. Regina Célia Mendes da Silva acaba de fazer história na UFRJ. Ela se tornou a primeira patronesse negra e nome da turma 255 da Faculdade de Medicina em mais de dois séculos de instituição.
Formada em 1982, Regina era uma das duas únicas alunas negras em um mar de 280 estudantes. Hoje, com quase 44 anos de dedicação à Pediatria e 30 anos de atuação na Emergência Pediátrica do Instituto, ela vê o cenário mudar com a implantação de políticas afirmativas e a lei de cotas.
Isso não é apenas uma homenagem, é a prova de que a representatividade transforma o futuro.
Em entrevista exclusiva, a Dra. Regina compartilhou suas reflexões sobre o significado desse título e as transformações no ensino médico ao longo das décadas.
P: Dra. Regina, a senhora se formou em 1982 sendo uma de apenas duas alunas negras em um universo de 280. Hoje, a senhora é patronesse de uma turma com 25% de médicos negros. Qual é a sensação de ver o "retrato" da medicina brasileira mudando diante dos seus olhos e saber que a senhora é a moldura dessa nova fase?
“Realmente me formei em Medicina pela UFRJ em 1982. Minha turma tinha 280 alunos. Estranhei o fato de ter apenas 3 alunos negros, ou seja, apenas 1% da turma. A medicina é um curso historicamente elitizado. Dados recentes do Conselho Federal de Medicina mostram que pouco mais de 3% dos médicos do país são negros, número extremamente baixo se compararmos aos 56% da população negra no Brasil.
O convite para ser Patronesse da turma 255 da Faculdade de Medicina me deixou surpresa e emocionada; foi um dos momentos mais felizes que vivi nos 43 anos de formada e de trabalho no IPPMG. Nos últimos anos, com a política de cotas (Lei 12.711/2012), observo um aumento no acesso da população negra à UFRJ. A turma 255 demonstra que jovens negros não só entraram, como permaneceram na universidade, mostrando um desempenho acadêmico semelhante aos estudantes não cotistas. Fico feliz em servir de inspiração para jovens médicos, sendo eles cotistas ou não.”
P: Durante quase 40 anos, a senhora conciliou o atendimento pediátrico com a formação de novos profissionais. Como a senhora acredita que a sua presença física e sua autoridade médica impactaram no senso de pertencimento dos estudantes negros ao longo dessas décadas?
“Creio que encontrar uma médica negra nos corredores da emergência, ambulatório e enfermaria deva gerar admiração e curiosidade. Alguns perguntam se eu fiz faculdade na UFRJ e ficam encantados com minha trajetória na universidade e no IPPMG, que tenho como segunda casa. A presença de médicos, professores e preceptores negros serve de inspiração, gerando identificação e senso de pertencimento. A medicina é um espaço que podemos e devemos ocupar”.
P: Ter sua sobrinha, Agnes Léa, entre os formandos da turma que a escolheu como patronesse deve ser um momento de realização pessoal imensa. Que conselho a "Tia Regina" deu para a "Dra. Agnes" sobre os desafios específicos que uma médica negra ainda enfrenta no cotidiano hospitalar?
“Acredito que minha sobrinha teve uma boa formação acadêmica na UFRJ. A família torceu muito por ela, que sempre manifestou o desejo de ser médica pediatra. Os conselhos que dei a ela são os mesmos que repassei aos queridos formandos da turma 255: saber que ser médico, no sentido mais amplo da palavra, é ter a sensação de fazer a diferença na vida de outras pessoas, ajudando-as no momento de maior fragilidade”.
Acolher bem o paciente, tratá-lo com amor, respeito e sensibilidade, ou seja, da mesma forma que gostaria de ser tratado se estivesse do outro lado, é nosso maior dever. O caminho é desafiador, mas com dedicação, estudo, humildade e empatia pelo paciente, o sucesso profissional acontece.
P: A senhora viveu as mudanças do sistema de saúde e do ensino médico desde os anos 80. Olhando para os próximos 200 anos da UFRJ, qual o próximo grande avanço que a senhora espera ver na relação entre a medicina e a população negra, tanto no atendimento quanto na academia?
“Espero que, com a consolidação da lei de cotas, a presença de alunos negros nas universidades siga crescendo. É importante que os alunos entrem e permaneçam na universidade até a formação, aumentando, assim, o número de médicos negros no ambiente universitário e acadêmico”.