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SAÚDE MATERNO-INFANTIL
Pré-natal e diagnóstico precoce são essenciais para prevenir e tratar defeitos congênitos
Natal (RN) - Os defeitos congênitos, também chamados de anomalias congênitas, são alterações estruturais que ocorrem durante o desenvolvimento do feto. Especialistas da Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC-UFRN), vinculada à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), explicam os tipos mais comuns de malformações e defendem o pré-natal como uma das principais estratégias para prevenção e diagnóstico precoce.
As malformações congênitas podem ser classificadas em maiores e menores. Segundo a neonatologista Anna Christina Granjeiro, da MEJC-UFRN, as menores são mais frequentes e geralmente têm correção simples, como a polidactilia (dedo extra). Já as maiores, como cardiopatias, hérnia diafragmática, defeitos da parede abdominal e alterações do trato abdominal e do sistema nervoso, podem exigir cirurgias complexas logo após o nascimento.
“Há sempre uma quebra de expectativa muito grande. O desejo dos pais é ter um filho saudável, e mesmo defeitos pequenos geram ansiedade e medo”, explica Anna. Dependendo da gravidade, as consequências podem incluir morte intrauterina, óbito após o nascimento ou sequelas permanentes, o que pode causar impactos emocionais, sociais e financeiros significativos para as famílias.
Cardiopatias estão entre as malformações mais frequentes
Entre as malformações mais comuns estão as cardiopatias congênitas, que podem variar de quadros leves a condições críticas que exigem intervenção imediata após o nascimento. De acordo com a cardiopediatra da MEJC-UFRN/Ebserh, Melina Lima, estima-se que essas alterações ocorram em cerca de um a cada 100 nascidos vivos. “Na maioria dos casos, podem ter evolução benigna ou manifestação tardia após o período neonatal. No entanto, cerca de 30% são cardiopatias críticas, ou seja, defeitos que podem impedir o coração de funcionar adequadamente”, explica.
Segundo a especialista, quando o coração não funciona corretamente, todo o organismo pode ser afetado. Entre os possíveis sintomas estão cianose (quando o bebê apresenta coloração arroxeada na pele devido à falta de oxigenação), dificuldade para respirar, cansaço para mamar, palidez e até choque circulatório, situação grave em que o sangue não circula adequadamente pelo corpo e pelos pulmões. “O diagnóstico precoce é fundamental para realizar o melhor tratamento e evitar óbitos e sequelas, permitindo que esses bebês tenham uma vida saudável”, afirma.
Ecocardiografia fetal ajuda a planejar o cuidado
Uma das principais ferramentas para identificar essas alterações ainda durante a gestação é o ecocardiograma fetal, exame que permite avaliar a estrutura e o funcionamento do coração do bebê. Segundo Melina Lima, o procedimento possibilita detectar cardiopatias que podem causar repercussões ainda no útero ou logo após o nascimento. “O exame consegue diagnosticar cardiopatias congênitas que podem comprometer o desenvolvimento do bebê ainda no útero ou provocar complicações precoces no período neonatal”, explica.
Com o diagnóstico antecipado, a equipe médica pode planejar melhor a assistência. Em alguns casos, é possível indicar tratamentos ainda durante a gestação, antecipar o nascimento quando necessário ou programar o parto em um hospital com estrutura adequada, incluindo cirurgia cardíaca neonatal.
Acolhimento e planejamento do cuidado
Quando a cardiopatia é identificada no pré-natal, o acompanhamento multiprofissional torna-se essencial para garantir segurança ao bebê e à família. “A equipe acolhe a família e explica o diagnóstico, quais sintomas o bebê pode apresentar e quais cuidados poderão ser necessários após o nascimento, como vaga em UTI neonatal, uso de sonda para alimentação, monitorização cardíaca ou apoio ventilatório”, afirma Melina.
Esse processo, de acordo com a cardiopediatra, ajuda os familiares a compreender melhor a situação e a participar do cuidado. Dependendo do caso, o tratamento pode envolver procedimentos por cateterismo ou cirurgia cardíaca após o nascimento.
Intervenções ainda na gestação
Em situações específicas e mais graves, alguns procedimentos podem ser realizados ainda durante a gestação. É o caso das valvoplastias intrauterinas, indicadas em cardiopatias críticas que podem comprometer a função cardíaca do feto. “Quando há risco elevado para o bebê ainda dentro do útero, como em doenças críticas da valva aórtica ou pulmonar, o feto pode desenvolver insuficiência cardíaca. Nesses casos, o ecocardiograma fetal é decisivo para indicar a valvoplastia percutânea em centros de referência”, explica Melina.
O objetivo do procedimento é melhorar a circulação do feto e restabelecer a função cardíaca, permitindo que o bebê continue se desenvolvendo até o momento adequado do nascimento, quando o tratamento definitivo poderá ser realizado.
Pré-natal é decisivo para prevenção e tratamento
Para os especialistas, a qualidade do pré-natal é determinante tanto para prevenir quanto para diagnosticar precocemente as malformações congênitas. “Quando o diagnóstico é realizado no pré-natal, há mais tempo para que essa família seja acompanhada e receba o suporte necessário para o enfrentamento da situação”, salienta Anna Christina Granjeiro.
Melina Lima também destaca que os cuidados começam antes mesmo da gravidez. “Garantir um pré-natal de qualidade envolve planejamento familiar, vacinação da gestante, orientação nutricional adequada, suplementação com ferro e ácido fólico antes da gestação e controle de condições como diabetes e obesidade”, afirma.
Segundo ela, após a confirmação da gravidez, exames como o ultrassom morfológico e o ecocardiograma fetal são fundamentais para acompanhar o desenvolvimento do bebê e garantir um parto mais seguro. “Esses exames permitem identificar precocemente possíveis alterações e organizar toda a linha de cuidado para o binômio mãe-bebê”, conclui.
Sobre a Ebserh
A MEJC-UFRN faz parte da Rede Ebserh desde 2013. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.