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CIÊNCIA E TECNOLOGIA
Dados que salvam vidas: Hupes-UFBA implanta tecnologia que antecipa riscos
Salvador (BA) – Uma pequena fração de tempo pode ser determinante para salvar a vida de um(a) paciente. Atento a isso, o Hospital Universitário Professor Edgard Santos, da Universidade Federal da Bahia (Hupes-UFBA), vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), implantou, a partir do dia 9 de março, uma nova tecnologia na Enfermaria 2D: um painel eletrônico que, além de exibir informações que fazem parte da rotina do cuidado da pessoa internada, também analisa esses dados a cada cinco minutos para identificar o risco de piora clínica do(a) paciente e, assim, evitar desfechos graves.
Profissionais que atuam nessa enfermaria contam agora com o auxílio do Painel de Monitoramento de Indicadores Assistenciais (PMIA). O recurso foi desenvolvido a partir do projeto de doutorado da enfermeira do hospital e pesquisadora, Alessandra Rabelo Gonçalves Fernandes, e implementado com uma única premissa: colocar a tecnologia a serviço do cuidado, reduzindo riscos, qualificando processos e fortalecendo a assistência prestada pelo Hupes-UFBA a usuários(as) do Sistema Único de Saúde (SUS).
“Para a saúde pública brasileira, a relevância está na escala e no impacto direto sobre a vida das pessoas. O SUS atende milhões de brasileiros todos os dias, e investir em tecnologia em saúde dentro dos hospitais universitários federais é investir na segurança e na qualidade do cuidado ofertado a esses usuários. Segurança do paciente não é um conceito abstrato, constrói-se em cada decisão clínica, em cada alerta atendido a tempo, em cada protocolo ativado no momento certo”, destacou.
Inovação aplicada à assistência
De acordo com Alessandra, o PMIA nada mais é do que uma ferramenta digital desenvolvida em plataforma Power BI, que transforma dados dispersos em quadros interativos e visuais. No painel do Hupes-UFBA, profissionais podem acompanhar, em um só lugar e em curto intervalo de tempo, diversos indicadores assistenciais, como sinais vitais, prescrições, status de exames, precauções baseadas na transmissão, risco de queda e lesões por pressão, protocolo para identificação precoce e tratamento imediato de infecção generalizada (rota sepse), fluxo cirúrgico, notificações de alta médica, etc.
Com o apoio da ferramenta National Early Warning Score 2 (NEWS2), um sistema de pontuação fisiológica desenvolvido no Reino Unido, o PMIA se torna capaz também de identificar situações de risco e emitir alertas à equipe assistencial. O NEWS2 atribui notas a informações sobre sinais vitais, uso de oxigênio e nível de consciência. A soma delas indica quais são as chances de a pessoa internada piorar, o que permite maior previsibilidade, agilidade na tomada de decisão e melhor desfecho clínico para o(a) paciente.
Caminho até a implantação
A pesquisadora conta que sua tese só saiu do papel e se transformou em solução real graças ao apoio da gestão do Hupes-UFBA, e da atuação do Setor de Tecnologia da Informação e Saúde Digital (SETISD) e do Núcleo Gestor do AGHU. “Em três meses, o analista de Tecnologia da Informação do hospital, Luciano Frank Mattos, transformou um conceito acadêmico em uma ferramenta funcional, integrada ao sistema institucional e pronta para uso assistencial. Isso diz muito sobre a cultura de inovação que o hospital vem construindo”, ressaltou.
De acordo com Luciano, essa não foi uma tarefa fácil, mas seu resultado foi determinante para ampliar ainda mais a segurança de usuários(as) do Hupes-UFBA. "O principal desafio foi garantir que as informações do AGHU chegassem ao painel de forma confiável e em tempo real. Em um ambiente hospitalar, dados desatualizados podem comprometer decisões clínicas. Por isso, a atualização a cada cinco minutos foi uma exigência assistencial. Construímos uma solução que transforma informação em apoio direto ao cuidado do paciente", relatou.
Próximos passos
Até o momento, o PMIA é considerado um projeto piloto, com o objetivo de validar a ferramenta no ambiente assistencial real para identificar possíveis ajustes, observar a adesão da equipe e consolidar os resultados antes de sua ampliação. A Unidade 2D foi escolhida para receber o painel, justamente por ser uma enfermaria que costuma atender pacientes que demandam maior vigilância clínica. Além disso, profissionais dessa unidade já estão capacitados(as) para a aplicação e interpretação do score NEWS2.
Após essa primeira fase, o painel será integrado a outros setores do hospital, como Farmácia, Laboratório e Equipe de Resposta Rápida. A ideia é que o PMIA cumpra o papel estratégico de democratizar a informação e minimizar os gargalos assistenciais provocados pela comunicação fragmentada.
Segundo a gerente de Atenção à Saúde (GAS), Carolina Calixto, esse processo deve se concretizar ainda este ano. "O desenvolvimento de uma ferramenta com esse nível de integração e aplicabilidade clínica, desenvolvida pela própria instituição, demonstra a capacidade técnica e o potencial inovador do nosso hospital. Essa gerência tem o compromisso de apoiar iniciativas que fortaleçam a assistência e cheguem, de fato, à ponta do cuidado. Acreditamos no potencial dessa tecnologia para transformar a forma como nossas equipes monitoram e cuidam dos pacientes. Trabalharemos para que o painel alcance todas as unidades assistenciais do Hupes-UFBA ainda em 2026", afirmou.
Projeto de pesquisa
O PMIA é produto da tese de doutorado intitulada "Validade do National Early Warning Score 2 (NEWS2) e análise da performance dos algoritmos de machine learning na predição da deterioração clínica em pacientes hospitalizados". O estudo pioneiro conduzido por Alessandra é vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e está em fase de conclusão.
Sobre a Ebserh
Desde 2013, o Hupes-UFBA é filiado à Rede Ebserh. A Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Redação e revisão: Ana Ulhôa