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PERCURSO
O caminho dos pacientes bariátricos na busca por qualidade de vida
Qual fator primordial para definir uma conquista: focar em cruzar a linha de chegada ou definir um percurso sólido durante o processo? Esse dilema surge na vida das pessoas em vários momentos em que precisam atingir algum objetivo, porém, outros fatores concorrem para dificultar ou tornar tal objetivo distante do nosso contexto atual. Pacientes que buscam realizar o procedimento de gastroplastia para tratamento da obesidade precisam enfrentar situações-limite antes mesmo de tornarem-se candidatos aptos ao procedimento.
Quando o assunto é ganho de gordura corporal, o estigma social representa o maior ‘peso’ na vida das pessoas que enfrentam essa realidade. A perda sistemática da autoconfiança, por vezes, acaba por gerar sequelas psicossomáticas em que se alimentar representa uma forma de se sentir confortável. Porém, a perda na mobilidade, com o aumento do volume do corpo, traz consigo o isolamento social e a constante dependência de pessoas próximas para realizar tarefas simples.
Cada vez mais essa sequência de situações levam a pessoa com obesidade à desesperança, enquanto alguns atribuem à falta de determinação em se cuidar como causa de todo o problema. Com a saúde geral comprometida, a obesidade torna-se uma condição limitante, aumentando a predisposição a outras doenças associadas. O início do percurso para quem sofre com a obesidade ocorre a partir da conscientização para melhora em seu quadro clínico e na busca por ajuda. Para muitos, a rede municipal de atenção primária à saúde é o ponto de partida.
As barreiras do percurso e pequenas vitórias no trajeto
Antes de seguir o caminho até uma cirurgia bariátrica, os pacientes são inicialmente acolhidos na chamada Linha de Cuidado de Obesidade, um grupo de ações e serviços organizados dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) para prevenir, tratar e acompanhar pessoas com obesidade em diferentes níveis de atenção. Quando o caso requer um acompanhamento mais especializado, instituições de saúde como o Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe (HU-UFS), da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), recebem esses pacientes e iniciam um tratamento multidisciplinar integrado às necessidades de cada pessoa.
Simone de Oliveira Gois, lavradora de 49 anos, paciente acompanhada pelo Hospital Universitário da UFS, em Aracaju, conta uma história bastante similar aos pacientes que aderiram ao serviço de acompanhamento pré-bariátrico do HU-UFS/Ebserh. Natural da Bahia, Simone se considera sergipana, pois, desde muito pequena, estabeleceu-se com a família em Cristinápolis, cidade do interior de Sergipe, distante aproximadamente 115 km de Aracaju.
Ainda na infância, a criança Simone já apresentava algum sobrepeso “como dizia a minha mãe: rolicinha”, lembra Simone. A adolescência trouxe algumas dificuldades relacionadas à depressão, que culminou com o acúmulo excessivo de gordura abdominal após a sua segunda gravidez. “Tive rejeição à minha criança e meu peso não diminuiu como na primeira gravidez. Comecei a perceber que estava perdendo o controle do meu corpo 25 anos atrás”.
A depressão pós-parto é um transtorno emocional que acomete mulheres puérperas, com possibilidade de durar semanas ou até meses e tem um impacto significativo no bem-estar emocional da mãe. Para mães com sobrepeso, o problema pode agravar ainda mais a compulsão por alimentos. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Terapias Cognitivas e Comportamentais investigou as relações entre sintomas de depressão, ansiedade e estresse e comportamentos alimentares. Os resultados indicaram que sintomas depressivos estão associados a padrões alimentares prejudiciais, como a alimentação emocional, onde a comida é utilizada para lidar com emoções negativas.
Após superar essa fase, aceitou o filho e retomou a vida profissional, porém Simone já estava com 85kg e, com o avanço da idade, as dificuldades em executar atividades começaram. “Hoje, conto com a ajuda dos filhos para poder lavar os cabelos, preciso ir ao salão para conseguir fazer depilação e não consigo fazer a minha faxina em casa, sinto muito essa parte”. Sua caminhada em busca da qualidade de vida também começou na rede municipal de saúde em Cristinápolis, sendo encaminhada ao HU-UFS em 2008 para receber acompanhamento multiprofissional especializado, nessa época o principal motivo foi tratar a tireoide. Mesmo após passar por cirurgia, seu peso não reduziu. Para Simone, realizar uma cirurgia bariátrica era apenas para corpos muito grandes e ela nunca cogitou a possibilidade nos anos subsequentes, até o momento em que a equipe médica propôs o procedimento para controlar doenças secundárias correlacionadas. Ela já havia atingido os 115Kg.
Ninguém caminha sozinho
Simone se desloca de Cristinápolis duas vezes na semana para receber acompanhamento da equipe multiprofissional do hospital universitário em Aracaju. Desde 2007, o HU-UFS/Ebserh adota um protocolo de acompanhamento com uma equipe multidisciplinar, alinhado às melhores práticas internacionais, que inclui consultas com endocrinologistas, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e outros especialistas. Esse processo visa garantir que o paciente esteja preparado para a intervenção e para as mudanças subsequentes em seu estilo de vida.
Antes de chegar ao consultório do cirurgião, o paciente deve obter o aval de diversos profissionais de saúde, garantindo uma abordagem integral e segura. Para os pacientes obesos, enfrentar o dia a dia na perspectiva de realizar uma cirurgia bariátrica é desafiador e ao mesmo tempo angustiante, daí a importância do acompanhamento de natureza mental e física, visto que uma intervenção representa, por si, o risco típico de uma cirurgia. Quando não há coesão no tratamento pré-bariátrico, o paciente fica mais exposto a complicações psíquicas, capazes de comprometer a eficácia da cirurgia, podendo gerar óbito em casos extremos.
Com um passo de cada vez, Simone comparece animada à sessão de treinamento com o profissional de Educação Física da Unidade de Reabilitação do HU-UFS/Ebserh, Ayslan Jorge Araújo. Apesar das dores na região da nuca nesse dia, a paciente executa seus exercícios supervisionada pelo olhar atento do profissional após uma aplicação de ventosas na região da dor. De acordo com o Ayslan, a educação física está inserida no plano terapêutico multiprofissional, protocolo adotado no acompanhamento personalizado, por exemplo, o paciente não apto a realizar exercícios físicos por lesões nos membros ou coluna, a especialidade fisioterapia entra em ação para reabilitá-lo.
Resultados não estáticos
Para Ayslan Jorge, um dos principais desafios no processo de preparação para uma intervenção bariátrica é a motivação. Além da autoestima afetada, complicações na mobilidade, alguns pacientes desenvolvem o sentimento de estagnação. A grande quantidade de consultas e profissionais a serem visitados, somada à necessidade constante de repetir exames até a data efetiva da cirurgia, transmite a sensação de pausados em uma fila de candidatos. Porém, a sensação não reflete os ganhos em saúde obtidos desde as etapas nos atendimentos primários do município.
A linha de chegada parece distante, mas o caminho trilhado traz pequenas vitórias na busca pela saúde. O cuidado pré-bariátrico tenta uma “abordagem dinâmica, mais humana e prazerosa. Há uma recomendação para que complementem em casa os exercícios executados em atendimento. Os próprios pacientes se reúnem e mantêm contato (via aplicativo de mensagem) para marcar sessões, comentar sobre seu estado de saúde e compartilhar sentimentos e angústias”, explica o educador físico.
Com o objetivo de aumentar os índices de aderência ao tratamento pré-bariátrico no HU-UFS e fomentar acesso universal para pessoas como Simone, que precisa enfrentar estrada para se tratar no hospital, a Unidade de Reabilitação do HU-UFS está em tratativas para viabilizar a modalidade de teleconsultas em alguns serviços, a educação física é um deles. “Incialmente, os pacientes demandam esse acompanhamento próximo, mas a partir do momento que o paciente adquire uma consciência corporal, as sessões virtuais podem substituir as vindas presenciais, desde que as pessoas consigam acesso e tenham um quilo de feijão, cadeira, cabo de vassoura.” exemplifica Ayslan.
Linha de chegada
Simone comemora a proximidade da sua cirurgia bariátrica: “Minha expectativa é de liberdade porque sei que em breve vou me libertar daquela bolsinha de medicações. Não vou andar mais com aparelho de pressão, oxímetro, glicemia me controlando todo canto”. Com expectativas renovadas, ela confirma que a corrida até linha de chegada é permeada por curvas, subidas e descidas, mas quem persevera até seu objetivo final não fica sem premiação.
“A bariátrica não é apenas para perda de peso, é uma oportunidade para uma vida mais saudável porque a maioria que já fez, afirma que a pressão regulariza, o diabetes volta ao normal, então eu vi que essa era a única oportunidade de voltar a ter minha saúde”, conclui.
Próximos passos
O Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe, vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), é referência no estado para a realização de gastroplastia para tratamento da obesidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, o HU atingiu o marco de 160 cirurgias bariátricas, aplicando-se as técnicas de gastroplastia com derivação intestinal e por videolaparoscopia., um método menos invasivo que proporciona recuperação mais rápida e menos dor ao paciente. Está contratualizada a realização de quatro cirurgias bariátricas/mês e as vagas disponíveis não ficam ociosas. Simone está exatamente nesse trecho do percurso e futuramente seguirá em acompanhamento no hospital universitário no pós-bariátrica. O sucesso do pós-bariátrica, assim como todo o processo, depende do compromisso do paciente com os novos hábitos alimentares e de vida, garantindo uma perda de peso saudável e sustentável, rumo a novos caminhos.
Por Diego Martin