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ACOLHIMENTO
Psicólogo do Humap-UFMS explica comoção pelo macaquinho Punch
A comoção ocorre porque a história reúne três elementos muito potentes: filhote vulnerável, sinais visíveis de sofrimento e busca de conforto. Isso ativa empatia imediata nas pessoas
O abandono e a hostilidade com o macaquinho Punch, num zoológico no Japão, causou comoção mundial nas últimas semanas, além de ter feito disparar as vendas do bichinho de pelúcia que foi oferecido a Punch como companhia pelos funcionários do zoológico. Mas por que essa comoção generalizada? Quais instintos humanos são despertados nessas situações? E qual a razão para o bichinho de pelúcia ter esgotado nas lojas?
O psicólogo Thiago Ayala, do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/Ebserh), especialista em Psicologia da Saúde, explica nessa entrevista.
“O que toca tanta gente nessa história não é só a imagem de um filhote com uma pelúcia, é o que essa cena representa. Ela lembra, de um jeito muito simples e muito forte, que quando falta acolhimento, qualquer sinal de conforto ganha um valor enorme. A pelúcia não resolve tudo, mas mostra uma verdade profunda: todo ser que sofre, busca, de algum modo, um lugar de segurança. E talvez a comoção mundial venha justamente daí, porque no fundo essa história não fala só de um macaquinho, ela fala da necessidade de cuidado que existe em todos nós”.
Qual a razão dessa comoção generalizada?
A comoção ocorre porque a história reúne três elementos muito potentes: filhote vulnerável, sinais visíveis de sofrimento e busca de conforto. Isso ativa empatia imediata nas pessoas. Ao mesmo tempo, é importante ter cautela para não transformar tudo em uma leitura totalmente humana, ignorando o contexto de socialização da espécie.
As pessoas tendem a ser mais sensíveis quando violência e/ou abandono envolvem filhotes e crianças? Por quê?
Sim. Filhotes e crianças ativam, de forma muito intensa, respostas de proteção, cuidado e senso de injustiça. Psicologicamente, a dependência e a fragilidade tornam o sofrimento mais mobilizador. Por isso, cenas de abandono nessa fase costumam gerar indignação e empatia muito maiores.
O macaquinho de pelúcia que fez companhia ao Punch está esgotado nas lojas. Onde nasce esse desejo das pessoas de terem a pelúcia? Por quê?
Esse desejo nasce da identificação emocional com a história. A pelúcia deixa de ser só um objeto e passa a representar cuidado, acolhimento e vínculo. Também há um componente social: ao comprar, muitas pessoas sentem que participam simbolicamente daquela narrativa que as comoveu.
Como e por que uma pelúcia pode ser fonte de conforto emocional?
Quando um filhote está em sofrimento, ele não busca apenas alimento, ele busca amparo. Em situações de medo, rejeição ou estresse, o corpo procura algo que transmita segurança, contato e estabilidade. Uma pelúcia pode cumprir parcialmente esse papel porque é macia, previsível e “abraçável”, ajudando a reduzir a tensão.
Isso aparece de forma muito marcante em um experimento clássico de apego com macacos, de Harry Harlow. Os filhotes eram colocados diante de duas “mães” artificiais: uma de arame (que fornecia alimento) e outra revestida de pano (macia, sem alimento). Mesmo quando se alimentavam na de arame, eles passavam a maior parte do tempo agarrados à de pano e corriam para ela quando se assustavam. O achado mostrou que o vínculo também é sustentado por conforto de contato, não só por nutrição.
Na leitura de Winnicott, isso dialoga com a ideia de objeto transicional, como um paninho, cobertor ou ursinho que ajuda a criança a suportar ausência, medo e frustração. Esse objeto não substitui o cuidado humano real, mas funciona como uma ponte emocional: oferece continuidade e ajuda na regulação afetiva em momentos de insegurança.
Rede Ebserh
O Humap-UFMS faz parte da Rede da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Rede Ebserh) desde dezembro de 2013. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo em que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.