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PREVENÇÃO
SETEMBRO AMARELO – PREVENÇÃO AO SUICÍDIO
Falar sobre suicídio ainda é um assunto muito carregado de tabus e que, por isso, acaba sendo evitado nas escolas, nas famílias e na sociedade em geral. Apesar disso, os casos de tentativa de suicídio e de suicídio consumado crescem a cada ano, tanto em países desenvolvidos ou não, como o Brasil. Para saber mais sobre a importância de se discutir o assunto, leia a entrevista com o médico psiquiatra, mestre em Ciências da Saúde, professor de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da UFG, chefe da Unidade de Atenção Psicossocial do HC-UFG/Ebserh e coordenador do Programa de Residência Médica em Psiquiatria desta Instituição, Murilo Ferreira Caetano.
O que é o suicídio?
Suicídio é o ato de matar a si mesmo de maneira deliberada, ou seja, não acidental. Tal comportamento é, em geral, fruto de extremo sofrimento e, sem dúvida, é uma das coisas mais assustadoras pelas quais podem passar uma pessoa e sua família.
Por questões culturais, religiosas e, também, por contrariar aquilo que as pessoas tendem a dar mais valor, sua própria vida, trata-se o comportamento suicida como um assunto a ser evitado, um grande tabu.
Esse tabu necessita ser vencido, pois o comportamento suicida é extremamente comum, um verdadeiro problema de saúde pública. Nos países desenvolvidos já se morre mais de suicídio do que de homicídio. Em vários países morre-se mais de suicídio do que de acidentes de trânsito. Mesmo em países subdesenvolvidos, como o Brasil, as taxas não param de crescer.
Quando alguém tenta se matar é, em geral, porque não aguenta mais sofrer ou porque não vê mais sentido na própria existência e não tem esperança de que as coisas melhorem. Mais do que simplesmente querer estar morto, a maioria das pessoas quer, simplesmente, parar de sofrer. No entanto, não encontram uma saída melhor naquele momento.
O que é o comportamento suicida?
Suicídio é o ato final, consumado, do comportamento suicida. Quando falamos em comportamento suicida estamos falando de uma série de outros fenômenos que o antecedem: desejo de estar morto sem se matar, desejo de se matar, planejamento suicida, tentativa de suicídio e suicídio consumado.
É importante ficar atento aos sinais iniciais: quando a pessoa fala que não aguenta mais viver, que preferia estar morto, que vai se matar, que quer sumir etc. Muitas vezes, antes do suicídio consumado, a pessoa organiza uma série de coisas para a família e, quase sempre, comunica o desejo a alguém. Esse alguém pode ser um médico, um psicólogo, um professor, um amigo, um familiar ou uma postagem em redes sociais. Sendo assim, toda a sociedade precisa ficar atenta aos sinais.
Há um detalhe muito relevante que vale a pena ser mencionado: tem sido muito comum, principalmente em adolescentes, a ocorrência de automutilação através de cortes. Tal ato, em geral, não está diretamente relacionado ao comportamento suicida. É uma forma que muitas pessoas encontram de buscar alívio para a dor emocional. Curiosamente, pessoas deprimidas ou vítimas de trauma, muitas vezes, se automutilam, pois a dor física devolve a elas o sentimento de estarem vivas. A dor física ameniza a dor psíquica. Isso não significa que esses cortes superficiais feitos por essas pessoas sejam realizados como tentativa de se matar.
Quais os principais fatores de risco para o suicídio?
O principal e maior fator preditor de suicídio é a pessoa já ter feito alguma tentativa prévia de suicídio.
Na maioria das vezes constata-se a presença de algum transtorno psiquiátrico, que pode ser desde um transtorno do humor (depressão ou transtorno bipolar), esquizofrenia, transtornos de personalidade, até transtornos por uso de substâncias (alcoolismo, dependência de cocaína, maconha, etc.). Sabemos, por exemplo, que o risco de suicídio em quem tem transtorno bipolar chega a ser de 20 a 30 vezes maior do que o risco na população em geral. Nos casos de depressão unipolar, 15% tentam suicídio.
Além de estarmos atentos aos transtornos psiquiátricos, é importante estar atento aos fatores de risco que ocorrem durante a vida da pessoa. Ressalto alguns: ter sido vítima de estupro na infância, ser vítima de preconceito por causa de cor, etnia, orientação sexual, sofrer de dor crônica ou outras doenças graves, ter história familiar de suicídio ou de transtornos mentais graves.
Estressores recentes acabam sendo a “gota d’água” para que alguém venha a tentar se matar. Em especial, a perda de emprego ou grande prejuízo financeiro, conflitos e discórdias familiares, perda de um ente querido, rompimentos amorosos, bullying e outras formas de humilhação.
A maioria das mortes por suicídio ocorre em homens adultos (dos 20 aos 60 anos) com pico na faixa dos 30 anos de idade. No entanto, ideação suicida é mais comum em mulheres. Os homens acabam usando métodos mais letais, tais como armas de fogo e enforcamento. Já as mulheres tendem a fazer por ingesta de medicamentos.
Ideação e tentativas de suicídio não consumadas ocorrem em alta frequência em adolescentes e adultos jovens. Os idosos, por outro lado, apesar de fazerem menos tentativas, apresentam maior letalidade (maior número consumado em comparação ao número de tentativas).
Enquanto existem fatores de risco que estão mais relacionados ao indivíduo, tais como a presença de doenças graves, aids, câncer ou transtornos mentais, outros têm a ver com o meio em que ele vive. Ter acesso fácil a armas de fogo e não ter acesso a serviços adequados de saúde mental são importantes fatores de riscos e poderiam ser contornados com melhores políticas públicas.
É importante frisar que há fatores de proteção extremamente importantes. O principal deles é ter laços sociais fortes. Vínculos fortes podem ocorrer pela presença de uma família unida que dê suporte emocional, escuta, compreensão e sentido em viver, mas também podem estar relacionados a pertencer a grupos religiosos, ter bons amigos, trabalhar com causas sociais etc. O fato de a pessoa ter filhos já é estatisticamente um importante fator de proteção.
O sentimento de pertencimento é extremamente relevante. O contrário disso leva ao aumento de casos de suicídio, como o que ocorre em migrantes que passam por um processo de aculturação.
Outro fator de proteção muito estudado é a religiosidade e a espiritualidade. Existem algumas explicações para isso. Uma delas é a religião em si, que contribui para a coesão social. Além disso, promove sentimento de esperança e, via de regra, propaga a ideia de pecado do suicídio. Quando a pessoa acredita piamente que irá para o inferno ao se matar, ela tende a acabar por repensar nisso, o que a protege.
O número de suicídios tem aumentado durante a pandemia de coronavírus? Por quê?
Ainda é muito cedo para termos dados confiáveis sobre isso. Desconheço algum grande estudo epidemiológico multicêntrico que tenha sido conduzido nesse sentido.
No entanto, tal assunto vem sendo muito debatido e temos vários motivos para acreditar que poderá ocorrer um aumento nas taxas de suicídio nesse período. Isso deve ocorrer, em especial, pelo isolamento social, aumento de ansiedade, perda de emprego, ruína financeira, dentre outros fatores.
Se por um lado, a morte de familiares e o medo da doença agravam a ansiedade e o sofrimento, por outro, o fato de tentarmos prevenir a doença através do isolamento tem também alto custo na saúde mental.
Como eu disse anteriormente, um dos principais fatores de proteção ao suicídio é ter laços sociais fortes. Quando esses laços são perdidos pelo isolamento social forçado, pela proibição de sair de casa (como ocorreu em vários países) tem-se aí grande risco.
Como deve ser feita a abordagem do paciente em risco de suicídio?
A abordagem é complexa e deve ser feita por profissionais capacitados. Via de regra, por psiquiatras e psicólogos. É importante oferecer suporte emocional, buscar compreender o motivo do sofrimento do paciente, avaliar os fatores de risco e de proteção, avaliar se há planejamento de suicídio e se o risco é iminente.
Escutar sem fazer julgamentos morais é uma das mais importantes etapas. Infelizmente, ainda hoje, a pessoa em extremo sofrimento psíquico acaba ouvindo uma série de bobagens moralistas quando conversa sobre sua vontade de morrer. Tais falas, seja quando proferidas por familiares, por profissionais de saúde ou por líderes religiosos, só atrapalham.
Além do acolhimento e oferta de ajuda, deve-se formular um diagnóstico para o caso, medicar quando necessário. Psicoterapia sempre!
Como grande parte da população não tem acesso rápido e fácil a profissionais de saúde mental, os profissionais da atenção primária acabam tendo um papel extremamente relevante na identificação e abordagem inicial de grande parte dos casos. Eles precisam estar atentos, precisam perguntar e saber ouvir. Quando constatado alto risco agudo de suicídio, o paciente terá que ser encaminhado para pronto socorro de psiquiatria e pode necessitar de internação. Quando o risco não for alto e agudo, ele poderá ser encaminhado para os Centros de Atenção Psicossocial - CAPS e outros serviços especializados.
No Hospital das Clínicas temos atendimento ambulatorial em psiquiatria e psicologia. Os ambulatórios de psiquiatria são divididos por faixa etária (infância, adolescência, adultos e idosos) e por tipo de diagnóstico. Temos ambulatórios de transtornos do humor, esquizofrenia, transtornos de ansiedade, neuropsiquiatria infantil, psicogeriatria, dentre outros.
O tratamento, seja medicamentoso, seja psicoterápico, depende de cada caso, não existe um tratamento padrão para comportamento suicida.
Como, infelizmente, nosso hospital ainda não conta com enfermaria para internação especializada em psiquiatria, temos que encaminhar para a rede municipal os casos que demandam internação. Após a alta, eles retornam ao HC.
Como deve ser feito o acompanhamento da pessoa que já tentou o suicídio?
Essa é a pessoa que tem maior risco de vir a tentar e morrer por suicídio. Sendo assim, deve ser avaliada e acompanhada por profissionais experientes. Além do tratamento psicoterápico e medicamentoso, é importante trabalhar na construção de laços sociais e nos aspectos ligados à resiliência.
O tempo de acompanhamento é muito variado. Determinados diagnósticos exigem tratamento para o resto da vida (como é o caso do transtorno bipolar e da esquizofrenia). Em outros casos, isso pode não ser necessário.
Considerações finais
É importante falar abertamente sobre morte. Morte e vida são faces inseparáveis de uma mesma moeda. Desejar estar morto é um sinal marcante de sofrimento e, muitas vezes, sentir-se ouvido e compreendido já traz alívio grande o bastante para que se evite uma tentativa de suicídio.
Esse é um assunto para ser falado dentro de casa, nas escolas, nas igrejas. Nunca de forma pejorativa, moralista ou julgadora. Considero que o mais importante é acolher, escutar, se mostrar presente. Não criticar. Em geral, a tentativa de suicídio é a única forma que a pessoa consegue enxergar para aliviar seu sofrimento naquele momento.
Nós, profissionais, familiares ou amigos, podemos ajudar a pessoa a enxergar outras formas de alívio, outras soluções para seus problemas. Exercitar e trabalhar o poder da escuta, por si só, já ajuda a salvar vidas.
Toda campanha, como é o caso do Setembro Amarelo, tem sua importância em trabalhos de prevenção. No entanto, isso não basta. Não adianta falarmos exaustivamente sobre suicídio durante um mês e esquecer disso no resto do ano. Eu prefiro que se criem trabalhos continuados de conscientização sobre o assunto na mídia, escolas, universidades e empresas, a ter que usar um mês para falar de forma exaustiva sobre isso.