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MEDICINA FETAL
Informação e pré-natal são aliados na prevenção e no cuidado de defeitos do nascimento
Os defeitos congênitos estão entre as principais causas de mortalidade infantil.
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Brasília (DF) - Os defeitos congênitos, também chamados de anomalias congênitas, são alterações estruturais durante o desenvolvimento do feto. Especialistas da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) falam sobre os tipos de malformações e defendem o pré-natal como uma das principais medidas para prevenir e tratar precocemente o problema.
De acordo com Cristos Pritsivelis (à direita), chefe da unidade de Medicina Fetal da Maternidade Escola da UFRJ (ME-UFRJ), “o pré-natal ajuda na prevenção, na identificação do problema e na orientação adequada. E, quando necessário, permite intervir no momento certo”, reforça o médico.
Liane Giuliani Rosso, geneticista do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, da UFMS (Humap-UFMS), ressalta que os defeitos congênitos estão entre as principais causas de mortalidade infantil. "Trata-se realmente de um problema de saúde pública. No Brasil, há um trabalho intenso para melhorar a avaliação epidemiológica, buscando mais qualidade no preenchimento da declaração de nascidos vivos", informa.
Consequências variam de leves a fatais
Entre os defeitos do tubo neural, a mielomeningocele apresenta incidência de cerca de 1 a cada 1.000 nascidos vivos no Brasil. Embora muitos casos sejam leves e corrigíveis, outros podem trazer riscos graves à saúde do recém-nascido e impactos profundos para as famílias.
As malformações congênitas podem ser classificadas em maiores e menores. Segundo a neonatologista Anna Christina Granjeiro, da Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC-UFRN), as menores são mais frequentes e geralmente têm correção simples, como a polidactilia (dedo extra). Já as maiores, como cardiopatias, hérnia diafragmática, defeitos da parede abdominal e malformações do trato abdominal e do sistema nervoso, podem exigir cirurgias complexas logo após o nascimento.
“Há sempre uma quebra de expectativa muito grande. O desejo dos pais é ter um filho saudável, e mesmo defeitos pequenos geram ansiedade e medo”, explica Anna. Dependendo da gravidade, as consequências podem incluir morte intrauterina, óbito após o nascimento ou sequelas permanentes, o que pode causar impactos emocionais, sociais e financeiros significativos para as famílias.
"Esses casos geram muito desgaste emocional para a família, que vai passar por uma jornada para correção dos defeitos da criança, mudança na rotina, além da jornada para investigação sobre as causas da doença. É importante essa investigação para diferenciar causas genéticas de ambientais, e oferecer um aconselhamento adequado às famílias sobre futuras gestações", complementa Liane Rosso, do Humap.
Pré-natal é decisivo para prevenção e tratamento
"Quando o diagnóstico é realizado no pré-natal, há mais tempo para que essa família seja acompanhada e receba o suporte necessário para o enfrentamento da situação", salienta Anna, da MEJC-UFRN.
Na Maternidade Escola da UFRJ, o ambulatório de alto risco e o serviço de Medicina Fetal realizam acompanhamento especializado, exames e aconselhamento às gestantes. Entre os exames fundamentais estão a ultrassonografia morfológica do 1º e 2º trimestres e a ecocardiografia fetal. “Quanto mais rápido for o diagnóstico, melhores são as chances de tratamento adequado, aumentando a sobrevida e a qualidade de vida da criança”, ressalta Pritsivelis.
Com o diagnóstico precoce, em alguns casos é possível realizar tratamento ainda durante a gestação. Na ME-UFRJ, as equipes realizam a correção intrauterina de mielomeningocele, desobstrução urinária, colocação de balão traqueal em casos de diagnóstico de hérnia diafragmática, inserção de dreno de tórax (em caso de derrame pleural), como também a fetoscopia para tratamento de complicações da gestação gemelar e o tratamento de malformações cardíacas graves, através valvuloplastias intrauterinas.
"Em determinadas situações, até tumores fetais podem ser tratados sem necessidade de cirurgia, mas com medicação administrada à mãe, como o uso de corticoide para reduzir massas pulmonares que comprometem o desenvolvimento do bebê", enfatiza Pritsivelis.
O que pode causar defeitos congênitos?
De acordo com os especialistas, as anomalias congênitas podem ser causadas por fatores genéticos, ambientais ou pela combinação destes. Entre os principais fatores de risco estão o uso de álcool e drogas, a alimentação inadequada, infecções durante a gestação (como rubéola), deficiência de vitaminas (especialmente ácido fólico), doenças crônicas mal controladas e o uso de medicamentos teratogênicos (que podem causar alterações no feto).
A história da talidomida tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos de medicamento associado a malformações graves nos membros quando usado por gestantes. Outros fármacos que exigem atenção rigorosa são o ácido retinoico (utilizado para acne) e alguns anticonvulsivantes.
Mulheres com epilepsia, por exemplo, precisam de acompanhamento especializado antes de engravidar, já que certos anticonvulsivantes aumentam o risco de defeitos do tubo neural. Nesses casos, é possível substituir por opções mais seguras antes da concepção. Segundo Pritsivelis, a suplementação de ácido fólico é particularmente importante na prevenção de defeitos do tubo neural, condição ainda mais frequente em regiões com maior vulnerabilidade socioeconômica.
Cirurgia intrauterina
Cleane Evangelista, 27 anos, conta que precisou passar por uma cirurgia para tratamento da síndrome do feto acárdico quando estava grávida. O procedimento salvou a vida de Pedro Lucas, hoje em dia com um aninho.
Esse caso específico se dá quando, numa gravidez gemelar, um dos fetos apresenta fluxo reverso no cordão umbilical e não evolui bem. Esse feto malformado não irá desenvolver cabeça nem coração, por isso o nome feto acárdico, e é sustentado biologicamente pelo coração do feto saudável, chamado de feto-bomba. É preciso interromper esse fluxo para que o feto saudável consiga sobreviver. "Fazer a cirurgia no tempo correto salvou a vida do meu filho, que tem ótima saúde", afirma.
Descoberta aconteceu no pré-natal, ainda no início da gestação
Na oitava semana de gravidez, Cleane fez a ultrassonografia e ouviu de sua médica obstetra que havia algo estranho e foi encaminhada para a ME-UFRJ. "Não fazia ideia desse problema, fiquei com muito medo, mas tive um acompanhamento excelente na Maternidade", disse.
O procedimento para interrupção do fluxo sanguíneo entre os fetos foi realizado na 18ª semana, seguido de acompanhamento semanal. Cristos Pritsivelis e Jair Braga foram os médicos que realizaram a cauterização a laser no feto acárdico, uma cirurgia monitorada todo tempo pelo aparelho de ultrassonografia. "O pré-natal foi fundamental para diagnosticar precocemente o problema e realizar a cirurgia no tempo correto", enfatiza Pritsivelis.
"Depois de toda angústia, deu tudo certo. Eu me sinto feliz em falar disso para que outras mulheres façam os exames o mais cedo possível. Eu e meu esposo nos emocionamos com essa história, pra gente foi um grande milagre", conta Cleane.
Sobre a Ebserh
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Ebserh foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo em que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Claudia Holanda com edição de Danielle Campos.
Coordenadoria de Comunicação Social/Ebserh