Notícias
TRATAMENTO INTESTINAL
Hospital da Rede Ebserh no Espírito Santo passa a realizar transplante fecal
Técnica é indicada para tratamento de infecção pela bactéria 'Clostridium difficile' quando falham as terapias convencionais
Vitória (ES) – O Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes, vinculado à Universidade Federal do Espírito Santo e à Rede Ebserh (Hucam-Ufes/Ebserh), está elaborando um protocolo para oficializar a técnica de transplante fecal na assistência. A iniciativa se dá após a realização do primeiro procedimento na unidade hospitalar, sendo o primeiro no estado do Espírito Santo. A técnica já é realizada em outros estados e têm demonstrado resultados significativos. O método pode causar estranheza quando se ouve dele pela primeira vez, mas na verdade é muito efetivo para o tratamento de pacientes com infecção causada pela bactéria Clostridium difficile.
O objetivo do transplante é repovoar a microbiota intestinal (micro-organismos que habitam no intestino do paciente), afetada. Tal infecção pode ser causada pelo uso de antibiótico, que modifica a flora intestinal e faz proliferar essa bactéria, mas não é o único fator de risco. Doenças inflamatórias intestinais (colite ulcerativa ou doença de Crohn, por exemplo) também podem causá-la. A bactéria se manifesta por meio de uma diarreia aquosa frequente, e faz o doente a evacuar cerca de 10 vezes ao dia. Esse quadro muitas vezes consome o estado geral do infectado e o faz perder peso.
O procedimento é iniciado com exames no indivíduo que pretende doar as fezes para comprovar o bom estado de saúde. Posteriormente, as fezes colhidas são diluídas em soro fisiológico e coadas para a retirada do resíduo sólido. Por fim, o material orgânico é infundido por sonda nasoentérica. Thaisa Ribeiro, médica gastroenterologista e endoscopista do Hucam, foi responsável, com equipe de oito pessoas, por levar a técnica para o hospital. Quando soube que o transplante seria necessário em um paciente de 69 anos, buscou apoio do médico especialista na área Felipe Bertollo. “Se está ao nosso alcance e pode mudar a vida do paciente, acho que tem que investir”, afirmou a médica sobre a experiência de trazer algo novo para o Hucam e para o paciente.
O transplante da microbiota fecal foi realizado no Brasil pela primeira vez no Hospital Israelita Albert Einstein, em 2013 na cidade de São Paulo. O método está sendo pesquisado e testado para tratar outras doenças. Mas, por enquanto, tem oficialmente apenas indicação para tratar a infecção por esta espécie específica de bacilo. O tratamento é indicado apenas depois de o paciente ter passado pelas etapas tradicionais da terapia, que são o uso de antibióticos e a lavagem intestinal. Se nada disso funcionar, então é a vez do transplante fecal.
Primeiro do ES
O paciente do Hucam-Ufes/Ebserh foi um idoso de 69 anos, internado com uma hemorragia digestiva alta por causa de varizes de esôfago. As varizes foram ocasionadas por uma cirrose hepática, fruto do uso excessivo de álcool. O paciente foi submetido ao tratamento clínico, endoscópico e farmacológico padrão. Então, depois do uso de antibióticos convencionais, passou a ter a diarreia aquosa. Com os exames, ficou confirmado que havia toxinas produzidas pela Clostridium difficile em seu corpo. Como o idoso passou pela terapia convencional e não respondeu, o próximo passo foi o transplante de microbiota fecal.
Apesar do sucesso do procedimento no Hucam, o paciente teve outra hemorragia digestiva como a que o levou a ser internado, devido a complicações de cirrose hepática, não tendo relação com o transplante, que foi bem-sucedido. Isso o levou a óbito. “Foi um aprendizado muito grande e percebemos a possibilidade de realizar o procedimento em outros pacientes que necessitam desse tratamento. Então, se algum outro paciente precisar, estamos aptos a fazer” finalizou Thaisa.
Sobre a Rede Ebserh
O Hucam-Ufes faz parte da Rede Ebserh desde abril de 2013. Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) foi criada em 2011 e, atualmente, administra 40 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência.
Como hospitais vinculados às universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), e, principalmente, apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas.
Devido a essa natureza educacional, os hospitais universitários são campos de formação de profissionais de saúde. Com isso, a rede hospitalar Ebserh atua de forma complementar ao SUS, não sendo responsável pela totalidade dos atendimentos de saúde do país.
Com informações do Hucam-Ufes/Ebserh