CONSTITUIÇÃO PARA TODAS

Conheça mulheres que contribuíram para construir e consolidar o Sistema Único de Saúde (SUS)

Nos 38 anos da Constituição, trajetórias de 11 mulheres mostram como a mobilização social e a ciência contribuíram para transformar o direito à saúde em cuidado para todas as pessoas, com atenção às necessidades da população feminina

Publicado em 14/10/2026 19:54
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Conferência Nacional de Saúde
Conferência Nacional de Saúde. Foto: Acervo Fiocruz

Nos 38 anos da Constituição, trajetórias de 11 mulheres mostram como a mobilização social e a ciência contribuíram para transformar o direito à saúde em cuidado para todas as pessoas, com atenção às necessidades da população feminina

Mulheres participaram da construção do Sistema Único de Saúde (SUS) ao formular propostas de cuidado integral, mobilizar comunidades e defender o acesso universal à saúde como direito de todas as pessoas e dever do Estado. Esse princípio, assegurado pela Constituição Federal, promulgada em 5 de outubro de 1988, orientou a regulamentação do SUS, em 1990.

A contribuição feminina se estende à formação de equipes, à produção de conhecimento científico e ao desenvolvimento de vacinas, fortalecendo o sistema público de saúde brasileiro.

Confira 11 mulheres que contribuíram para esse sistema público, que oferece cuidado universal e gratuito em todas as fases da vida.

Ana Maria Costa e Graça Ohana: cuidado além da maternidade

A médica sanitarista Ana Maria Costa e a socióloga Maria da Graça Ohana integraram a equipe que elaborou, em 1983, o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM). A proposta ampliou o cuidado para além da gravidez e do parto, antecipando princípios do SUS, como universalidade e integralidade.

Em entrevista às pesquisadoras Claudia Bonan e Andreza Pereira Rodrigues, por ocasião dos 40 anos do PAISM, Ana Maria Costa relatou que Graça organizava informações e reunia argumentos para debates no Ministério da Saúde. No movimento da Reforma Sanitária, que defendia a democratização da saúde durante a ditadura e a redemocratização, ambas contribuíram para o reconhecimento das necessidades das mulheres e de sua autonomia nas decisões sobre saúde e reprodução.

>> Veja a entrevista com Ana Maria Costa sobre os 40 anos do PAISM 

Karla Travaglia: a participação dos bairros

Em março de 1986, a 8ª Conferência Nacional de Saúde (CNS) reuniu mais de 4 mil pessoas, em Brasília, para discutir as bases de um novo sistema. Eleita delegada da Federação das Associações de Moradores do Rio de Janeiro, Karla Travaglia, então com 22 anos, levou as necessidades dos bairros ao debate que orientou a Constituinte.

Filha de uma liderança comunitária presa durante a ditadura, Karla tornou-se sanitarista e trabalhou com educação em saúde na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Também em 1986, a Conferência Nacional de Saúde e Direitos da Mulher ampliou o debate sobre as necessidades da população feminina. Seu relatório abordou assistência integral, direitos reprodutivos, saúde mental, adolescência, envelhecimento e trabalho, inclusive das mulheres camponesas.

>> Conheça o Relatório Final da Conferência Nacional de Saúde, de 1986    

Jacqueline Pitanguy e Sonia Fleury: direitos na Constituição

À frente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), a socióloga Jacqueline Pitanguy articulou reivindicações por um sistema único de saúde e pela assistência integral às mulheres na Constituinte. A mobilização reuniu movimentos sociais e as 26 deputadas constituintes, de diferentes posições políticas. A Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes, entregue em março de 1987, expressou essas demandas.

Pesquisadora do movimento sanitário, Sonia Fleury assessorou a relatoria da Comissão da Ordem Social na Constituinte, contribuindo para a integração da saúde, da previdência e da assistência social. Ao desvincular o direito à saúde da contribuição previdenciária, a Constituição assegurou o acesso também às pessoas que estavam fora do emprego formal.

Izabel dos Santos (1927–2010): formação para qualificar o atendimento

Uma das idealizadoras do Projeto Larga Escala, nos anos 1980, Izabel dos Santos articulou estudo e prática na formação de trabalhadores já inseridos nos serviços de saúde. A iniciativa contribuiu para qualificar o atendimento e para a constituição da rede de escolas técnicas do SUS. Em 1950, recém-formada em enfermagem, ela já organizava serviços em Pirapora (MG), preparando profissionais da enfermagem, da cozinha e da limpeza.

Zilda Arns (1934–2010): saúde perto das famílias

Pediatra e sanitarista, Zilda Arns foi cofundadora da Pastoral da Criança, em 1983, e integrou o Conselho Nacional de Saúde entre 1991 e 2009. Ela mobilizou lideranças comunitárias para acompanhar gestantes e crianças e disseminar conhecimentos sobre nutrição e prevenção de doenças. Sua atuação fortaleceu o cuidado comunitário e a prevenção de doenças junto às famílias.

Fátima Oliveira (1953–2017) e Jurema Werneck: enfrentamento ao racismo no SUS

Médica e escritora, Fátima Oliveira contribuiu para a formulação de propostas para que o direito universal à saúde alcançasse a população negra, com atendimento adequado e sem discriminação. Suas pesquisas sobre desigualdades sociais contribuíram para orientar políticas e cuidados em saúde no SUS. Esse trabalho está reunido no livro Saúde da População Negra — Brasil, Ano 2001, publicado pela Organização Pan-Americana da Saúde.

A médica Jurema Werneck atuou na proposição de medidas para promover a igualdade racial no SUS. Em 2004, integrou, com Fátima, o Comitê Técnico de Saúde da População Negra do Ministério da Saúde, que propunha intervenções e acompanhava políticas nessa área. Cofundadora da Criola, organização de mulheres negras, vivenciou em sua própria família as barreiras ao atendimento. Antes do SUS, seu pai, porteiro de hospital, precisava pedir favores para conseguir consultas.

Maria do Carmo Leal: evidências para melhorar o parto

Médica e pesquisadora da Fiocruz, Maria do Carmo Leal coordenou a pesquisa Nascer no Brasil, que documentou desigualdades e intervenções excessivas na assistência ao parto. Realizada em 2011 e 2012, a pesquisa ouviu 23.894 mulheres em 266 hospitais. Ela também participou da avaliação da Rede Cegonha, examinando a qualidade do cuidado oferecido às mulheres no SUS.

Nísia Trindade Lima: ciência e produção de vacinas

Durante sua gestão na presidência da Fiocruz, Nísia Trindade Lima coordenou o acordo para produzir a vacina contra a covid-19 com transferência de tecnologia da AstraZeneca. Em 2022, a instituição disponibilizou ao Ministério da Saúde doses fabricadas com ingrediente farmacêutico ativo (IFA) produzido no país, insumo responsável pela ação da vacina. Socióloga e pesquisadora, tornou-se, em 2017, a primeira mulher a presidir a Fiocruz.

As contribuições dessas mulheres mostram que a efetivação do direito à saúde envolve a valorização da ciência, a qualificação das equipes, a participação social e a atenção às diferentes necessidades da população, especialmente das mulheres.

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Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes | Foto: Arquivo/ Senado Federal
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Saúde e Vigilância Sanitária
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