Murais pela vida das mulheres chegam ao Oiapoque e transformam o território em espaço de memória e resistência
Integrado à Tenda Lilás, projeto do Ministério das Mulheres reúne artistas de diferentes regiões do país em ações contra o feminicídio e já passou por São Paulo, Porto Alegre e Macapá

Os muros de Oiapoque (AP), no extremo norte do país, ganharam novos traços, cores e mensagens no último sábado (16/5). Em meio à programação da Tenda Lilás, iniciativa itinerante do Ministério das Mulheres, artistas urbanas transformaram paredes da cidade em memoriais públicos pela vida das mulheres, em mais uma etapa da mobilização nacional de enfrentamento ao feminicídio.
As obras, que reuniram três artistas de São Paulo (SP), abordam ancestralidade, proteção, acolhimento e liberdade, a partir das vivências de mulheres de diferentes territórios do país.
A força dos povos indígenas como inspiração

Para a artista e fotógrafa Katia Lombardo, a arte sempre foi parte da própria trajetória de vida e encontrou, no mural pintado em Oiapoque, uma forma de transformar em imagem a dor provocada pela violência contra as mulheres. Inspirada na força dos povos originários, ela retratou uma menina indígena com asas, arco e flecha: símbolo de liberdade, coragem e do direito de existir sem amarras.
A figura, associada à força do Rio Amazonas e do rio Oiapoque, representa também o desejo de um futuro mais livre para as meninas da região Norte. “Todas nós já passamos por alguma situação de medo”, afirmou a artista, que vê no graffiti uma ferramenta acessível de diálogo com a juventude e de conscientização sobre a violência contra as mulheres. Katia também destacou a importância da união feminina: “Se protejam. Juntas somos mais fortes”.
“Arte que penetra na alma”
Em Oiapoque, a artista Simone Sapienza transformou o muro em um convite à união entre mulheres, conectando ancestralidade, natureza e resistência contemporânea. Em sua obra, a figura feminina se funde ao rio, símbolo de força, continuidade e pertencimento, enquanto a frase estampada em spray ressignifica um ditado popular para defender a coletividade feminina e o apoio mútuo.

“A frase é um trocadilho com o ensinamento ‘Não seja Maria vai com as outras’. Porque temos que ser unidas, uma apoiando a outra. Por isso, ‘Sou Maria e vou com as outras’, explicou.
Simone começou a pintar ainda na faculdade, no início dos anos 1990, e encontrou no stencil uma linguagem para expressar questões sociais e femininas. Desde então, participou de eventos de graffiti no Brasil e no exterior.
Ela avalia que a arte urbana tem capacidade de provocar reflexão imediata nas cidades. “A arte de rua penetra na alma. Quando a pessoa vira a esquina e encontra aquele mural, a mensagem fica. Pode incomodar, pode emocionar, mas permanece.”
Símbolos ligados à força feminina

A grafiteira e muralista Kelly Reis levou para Oiapoque uma obra inspirada na ancestralidade afro-indígena e na resistência das mulheres amazônidas. No mural, são destacados símbolos ligados à força feminina, à espiritualidade e ao acolhimento, em homenagem às ancestrais que seguem inspirando a luta contra a violência.
Durante a pintura, Kelly se emocionou ao ouvir relatos de mulheres atendidas pela ação, como o de uma vítima de agressão que disse se sentir acolhida ao olhar o mural. A artista, que também compartilhou experiências pessoais de violência psicológica e patrimonial, destacou a importância do apoio de amigas e familiares para superar essas situações.
Para ela, o graffiti amplia o alcance das campanhas de enfrentamento à violência por permanecer nos territórios e seguir dialogando com quem passa: “O mural fica. Ele continua lembrando que aquela luta existe”.
Atos Memoriais percorrem o país
Esse foi o quarto Ato Memorial pela Vida das Mulheres, realizado pelo Ministério das Mulheres neste ano. O primeiro teve início em 1º de março, em São Paulo (SP), durante a abertura da programação do Março das Mulheres. Na ocasião, foi inaugurado um mural de 184 metros na Marginal Tietê, produzido por mais de 30 artistas em homenagem a Tainara Souza Santos e a todas as mulheres que tiveram suas vidas interrompidas pelo feminicídio no Brasil.
Em 5 de maio, o Ato Memorial chegou a Porto Alegre, acompanhado das ações da Tenda Lilás no centro da capital gaúcha. A programação reuniu rodas de conversa, orientação à população e articulação com gestoras públicas e movimentos sociais.
No dia 14 de maio, foi a vez de Macapá receber os murais. Dois dias depois, em 16 de maio, Oiapoque passou a abrigar obras que retratam a força, a resistência e a esperança das mulheres amazônidas.