VIOLÊNCIA DIGITAL

Governo Federal reforça atendimento do Ligue 180 e ações de enfrentamento à violência digital contra as mulheres

Com alta de 188,6% nas ocorrências registradas no ambiente virtual, ministra Márcia Lopes destaca fortalecimento do canal para prevenir e enfrentar esse tipo de violência

Publicado em 22/06/2026 18:14Modificado há 8 dias
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A qualificação permanente das atendentes do Ligue 180 é fundamental para garantir um acolhimento cada vez mais preparado
Café com jornalistas reúne governo federal e imprensa para debater violência digital

O Governo Federal, por meio do Ministério das Mulheres e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, reforçou, nesta segunda-feira (22/6), as ações de enfrentamento à violência digital contra as mulheres. A iniciativa integra a campanha O Digital é Nosso Lugar e reúne medidas de orientação à população, qualificação do atendimento da Central Ligue 180 e fortalecimento da responsabilização de plataformas digitais.

Durante encontro com jornalistas, realizado em Brasília, o Ministério das Mulheres apresentou dados, materiais informativos e atualizações no atendimento a mulheres vítimas de violências praticadas em ambiente virtual, como ameaças, perseguição online, invasão de contas, divulgação não consentida de imagens íntimas, chantagem, ataques coordenados e uso de inteligência artificial para criação de imagens manipuladas.

Nos primeiros cinco meses de 2026, o Ligue 180 registrou 16.725 ocorrências de violências no ambiente digital contra mulheres. No mesmo período de 2025, haviam sido registradas 5.795 ocorrências. O crescimento foi de 188,6%. Também em 2026, até maio, foram registradas 2.250 denúncias em que o ambiente virtual foi identificado como cenário da violência.

A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, destacou que a ampliação dos registros contribui para a construção de respostas mais efetivas do Estado. “Ter dados reais é muito importante. A gente só vai acertar nas respostas dos governos e das políticas públicas quando tiver informações precisas. A ampliação e o investimento no Ligue 180 fazem com que as mulheres se sintam seguras para ligar e procurar ajuda. A partir disso, conseguimos acionar os órgãos responsáveis e agir de forma preventiva”, afirmou.

Atendimento qualificado pelo Ligue 180

Como parte das ações da campanha, o Ligue 180 realizou oficina de qualificação das atendentes para aprimorar o acolhimento, a orientação e o encaminhamento de vítimas e denunciantes de violência digital. A capacitação foi iniciada em 9 de junho e integra o conjunto de ações do Pacto Brasil Contra o Feminicídio.

A coordenadora-geral da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, Ellen dos Santos Costa, explicou que o serviço atende todo tipo de violência de gênero contra as mulheres, não apenas os casos previstos na Lei Maria da Penha. Segundo ela, a atualização busca acompanhar as novas formas de violência e garantir respostas mais preparadas.

“A qualificação permanente das atendentes do Ligue 180 é fundamental para garantir um acolhimento cada vez mais preparado, humanizado e resolutivo. A violência digital exige conhecimento específico para identificar, orientar e encaminhar. Investir na qualificação é fortalecer a capacidade de resposta do Estado e garantir que as mulheres encontrem no Ligue 180 um atendimento preparado”, disse.

Com a atualização, as atendentes foram capacitadas para orientar as vítimas sobre medidas como preservação de provas digitais, registro de prints com data e hora, acionamento das plataformas digitais e, quando for desejo da vítima, registro de boletim de ocorrência. O formulário de atendimento também está sendo aprimorado para detalhar o meio digital utilizado, o eventual uso de inteligência artificial e a relação da violência online com outras agressões físicas, psicológicas ou políticas.

Como identificar e denunciar

Para apoiar a população e profissionais que atuam na linha de frente do atendimento, o Ministério das Mulheres disponibilizou a cartilha Violência Digital contra Mulheres – A violência que atravessa telas, corpos e algoritmos. O material apresenta formas de violência digital, orientações sobre como reunir e proteger provas e caminhos para buscar ajuda.

A professora, pesquisadora em violência digital e chefe da Assessoria Especial de Comunicação Social do Ministério das Mulheres, Janara Sousa, explicou que muitas mulheres ainda têm dificuldade de reconhecer a violência quando ela ocorre no ambiente virtual.

“Se essas mulheres ficam na dúvida se a violência real é violência, imagina no ambiente digital? A cartilha traz os crimes separados por grupos, explica o que é cada um, tanto na prática quanto no âmbito legal, informa a pena aplicada e orienta sobre como reunir provas digitais, mantê-las seguras e o que fazer quando se está sendo vítima dessa violência”, afirmou.

Janara também alertou que a violência digital pode agravar outras formas de violência contra as mulheres. “O medo é real, o adoecimento é real. Em muitos casos, a violência digital funciona como etapa de intensificação de outras formas de violência, podendo anteceder agressões físicas graves”, destacou.

Violência política contra mulheres

A atualização do atendimento também considera a preocupação com o aumento da violência política de gênero em ambiente digital, especialmente em períodos eleitorais. O objetivo é qualificar a escuta e o encaminhamento de mulheres em posição de liderança, pré-candidatas, candidatas, parlamentares, comunicadoras e jornalistas, entre outras mulheres expostas a ataques virtuais.

Segundo a ministra Márcia Lopes, os dados sobre violência política contra mulheres reforçam a necessidade de ações permanentes de prevenção, formação e responsabilização. “Em 2024, tivemos 558 casos de violência política contra mulheres, resultando em 27 assassinatos e um aumento de 160%, se comparado ao mesmo período de 2020. Isso exige de nós um processo pedagógico. É preciso capacitar e ampliar o debate sobre essas violências”, afirmou.

Plataformas digitais

As ações também estão alinhadas ao Decreto nº 12.976/2026, publicado em 20 de maio de 2026, que estabelece diretrizes para a proteção de mulheres no ambiente digital. A norma prevê obrigações para plataformas digitais, como a remoção rápida de conteúdo íntimo não autorizado, medidas contra ataques coordenados e enfrentamento ao uso de inteligência artificial para manipulação de imagens.

A secretária-adjunta de Políticas Digitais da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Marina Pita, afirmou que o decreto busca garantir que as plataformas cumpram a legislação brasileira, sem ferir a liberdade de expressão.

“Isso não fere a liberdade de expressão, pois tanto o decreto de regulamentação do Marco Civil da Internet quanto o decreto de enfrentamento à violência contra mulheres no ambiente digital foram construídos de forma muito cuidadosa. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados não pode solicitar nenhuma gestão de conteúdo individual, mas pode olhar de forma coletiva se os pedidos de retirada, por exemplo, de imagem de nudez não consentida estão sendo excluídos em duas horas”, explicou.

Segundo Marina, o decreto também amplia o uso de tecnologias de identificação digital de imagens para impedir a recirculação de conteúdos íntimos não autorizados. “Para as mulheres e meninas que estão sofrendo esse tipo de violência, isso é fundamental”, completou.

Violência digital em números

Em 2025, o Ligue 180 registrou:

  • 4.584 denúncias em que o ambiente virtual foi identificado como local da agressão (cenário da violência);

  • 9.079 denúncias em que foram identificadas violências digitais, como ameaças e exposição de imagens (tipo de violência);

Considerando especificamente as 9.079 denúncias em que foram identificadas violências digitais, os dados mostram que:

  • sendo que 6.614 denúncias foram feitas pela própria vítima;

  • 48% dos registros envolvendo mulheres negras, sendo 37,5% mulheres pardas e 10,5% mulheres pretas;

  • 34,2% dos registros envolvendo mulheres brancas;

  • 21,6% dos casos concentrados na faixa etária de 35 a 44 anos;

  • 50,8% das denúncias envolvendo mulheres de 25 a 49 anos;

  • 45,9% das vítimas sem rendimento ou com renda de até um salário-mínimo.

Em relação ao agressor, em 1.400 casos ele foi identificado como ex-companheiro ou ex-companheira. O segundo maior grupo aparece como “outros”, com 1.336 denúncias.

Em 2026, até maio, a base registrou 2.250 denúncias em que o cenário da violência foi identificado como ambiente virtual. Entre esses casos, há registros de 1.424 mulheres negras, 1.107 brancas, 23 amarelas e 9 indígenas, além de ocorrências sem declaração de raça ou cor. As principais faixas etárias identificadas foram de 20 a 34 anos, além de mulheres entre 40 e 44 anos.

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Comunicações e Transparência Pública
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