Em Belém, plenária debate justiça climática, participação social e protagonismo de mulheres e juventudes na Amazônia
Encontro promovido pelo Ministério das Mulheres e pela Secretaria-Geral da Presidência da República reuniu movimentos sociais, gestoras públicas, juventudes e lideranças locais para fortalecer a construção de políticas climáticas com perspectiva de gênero e participação popular

Belém (PA) recebeu, nesta quinta-feira (14/5), a Plenária Mulheres e Juventudes nos Biomas Pós-COP30 – Amazônia, iniciativa promovida pelo Ministério das Mulheres e pela Secretaria-Geral da Presidência da República, por meio da Secretaria Nacional de Juventude, para discutir os impactos da crise climática sobre a vida das mulheres e fortalecer a construção de políticas públicas com participação popular.
Realizado no Centro Cultural Curro Velho, o encontro integrou a série nacional de plenárias promovidas nos seis biomas brasileiros, com foco na escuta dos territórios e na formulação coletiva de propostas para justiça climática, igualdade de gênero e desenvolvimento sustentável. A atividade contou com a participação de mais de 150 jovens e representantes do poder público, movimentos sociais e lideranças comunitárias.
Debates sobre clima, território e desigualdades
A programação da plenária teve início pela manhã, com a mesa de abertura e o Painel 1 – Território, justiça climática e desigualdades, espaço voltado ao debate sobre os impactos da crise climática nos territórios amazônicos e seus efeitos sobre mulheres, juventudes e populações historicamente vulnerabilizadas.
Assessora do Ministério das Mulheres, Laís Rezende destacou que a crise climática afeta as mulheres de forma desproporcional e amplia desigualdades já existentes. Segundo ela, os impactos atingem diretamente a autonomia econômica, o acesso ao trabalho, a saúde e a sobrecarga do trabalho de cuidados.

“Nos casos de desastres e emergências climáticas, as mulheres são as mais afetadas. Ao mesmo tempo, são elas que reconstroem nos seus territórios e comunidades as respostas concretas para o enfrentamento da crise climática. Por isso, esse debate que alia justiça climática e justiça de gênero é imprescindível”, afirmou.
Laís também ressaltou que a proposta das plenárias é garantir que os debates sobre clima não se limitem à COP30. “A ideia é construir um espaço para acumular forças, aprofundar a formulação coletiva e fortalecer a incidência dos territórios em um debate que muitas vezes fica distante da realidade das pessoas”, explicou.
Estratégia Mulheres e Clima
A coordenadora-geral de Participação Social e Ações Climáticas no Ministério das Mulheres, Ana Lucia Sousa Pinto, reforçou a necessidade de que as políticas climáticas considerem a diversidade das mulheres e sejam construídas a partir da escuta das comunidades locais.
“A crise climática afeta as mulheres de formas diferentes nos territórios. Por isso, precisamos pensar políticas públicas que protejam todas as mulheres em sua diversidade – mulheres negras, indígenas, trans, travestis, mulheres com deficiência, meninas e idosas”, disse.
Ela destacou ainda que a Estratégia Mulheres e Clima, construída conjuntamente pelos ministérios das Mulheres e do Meio Ambiente e Mudança do Clima no âmbito do Plano Clima, representa um marco inédito no país ao incorporar a perspectiva de gênero à política climática nacional.
“É a primeira vez no Brasil que temos uma política climática com perspectiva de gênero. A estratégia orienta estados e municípios a construírem seus planos locais de adaptação e mitigação considerando os impactos específicos sobre a vida das mulheres”, afirmou.
Entre os principais desafios apontados estão o aumento da sobrecarga de trabalho de cuidados, da violência contra as mulheres, dos impactos sobre a saúde mental e das dificuldades de acesso à proteção social em contextos de crise climática.
Ana Lucia também defendeu maior acesso das mulheres aos financiamentos climáticos internacionais. “As mulheres sabem quais são as soluções baseadas na natureza e como organizar respostas efetivas nos territórios, mas hoje acessam menos de 10% dos recursos disponíveis nos fundos climáticos”, alertou.
Juventudes e participação social
Representando a Secretaria Nacional de Juventude da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Barbosa, diretor de Articulação e Fomento de Programas e Projetos de Juventude, destacou a importância da participação social durante a COP30 e o protagonismo das juventudes na construção das agendas climáticas.
“O Brasil teve os maiores índices de participação social da história das COPs. Isso reafirma que, para discutir o futuro climático da humanidade, é necessário escutar os povos e os territórios, especialmente aqueles que vivem diariamente as consequências das mudanças climáticas”, afirmou.
Segundo ele, ampliar a participação das juventudes significa também fortalecer políticas públicas capazes de garantir direitos, cidades resilientes e justiça social.
“Precisamos ampliar o papel do Estado na vida das pessoas e construir alternativas para enfrentar esse momento de profundas alterações climáticas”, defendeu.

Cidade das Juventudes
A representante da Presidência Jovem da COP30 (PYCC), Mikaelle Farias, relembrou a mobilização das juventudes durante a conferência e a construção da Cidade das Juventudes, espaço de acolhimento internacional instalado no Curro Velho durante a COP30.
Ela contou que o espaço recebeu gratuitamente mais de 200 jovens de 80 países, promovendo atividades de integração, saúde mental e articulação política.
“A COP não acontece apenas dentro da conferência. Ela também acontece nos territórios e nos espaços de encontro entre os povos. A luta climática continua depois da COP30”, afirmou.
Mikaelle também destacou a importância de manter a articulação entre juventudes, organizações sociais e governos para fortalecer a incidência política rumo à COP31.
“Quando falamos sobre crise climática, estamos falando de algo que afeta diretamente nossas vidas. Por isso, precisamos seguir construindo juntos novas possibilidades e fortalecendo essa luta coletiva”, concluiu.
Grupos de trabalho discutem impactos, governança e soluções territoriais
Durante a tarde, as participantes e os participantes se dividiram em quatro grupos de trabalho para aprofundar os debates sobre os desafios climáticos enfrentados na Amazônia e construir propostas voltadas ao fortalecimento das políticas públicas.
O GT 1 debateu os impactos da crise climática no bioma, nos territórios e na vida das populações, com foco no mapeamento de desigualdades, vulnerabilidades e problemas enfrentados pelas comunidades locais.
O GT 2 abordou o papel da Amazônia na dinâmica climática e suas conexões com os demais biomas brasileiros e com a agenda climática nacional e global, destacando a importância estratégica do território para o equilíbrio climático.
Já o GT 3 discutiu prioridades políticas, articulação institucional, governança e financiamento climático, incluindo desafios relacionados ao acesso a recursos e à construção de políticas públicas integradas entre União, estados e municípios.
O GT 4 reuniu experiências e boas práticas territoriais no enfrentamento de emergências climáticas e desastres com foco em gênero, valorizando iniciativas lideradas por mulheres e comunidades locais no fortalecimento da resiliência climática.
A iniciativa é realizada pelo Ministério das Mulheres em parceria com a Secretaria-Geral da Presidência da República, por meio da Secretaria Nacional de Juventude, com apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), do Conselho Nacional da Juventude (Conjuve) e da Presidência Jovem da COP30 (PYCC).
O evento também contou com a feira Expo Mulheres da Amazônia, organizada pela Secretaria de Estado das Mulheres do Pará, reunindo mulheres artesãs e iniciativas de empreendedorismo feminino da região amazônica.
Após as edições realizadas na Mata Atlântica, no Rio de Janeiro (RJ), no Pantanal, em Campo Grande (MS), e agora na Amazônia, em Belém (PA), a série de plenárias seguirá para Caruaru (PE), Porto Alegre (RS) e Brasília (DF), contemplando os seis biomas brasileiros.