MULHERES E CLIMA

Plenária no DF reúne mulheres e juventudes do Cerrado e transforma experiências dos territórios em propostas para a justiça climática

O encontro encerrou o ciclo nacional de escutas nos seis biomas brasileiros e resultou em propostas que serão incorporadas ao documento Vozes dos Biomas, que traz recomendações essenciais para políticas públicas de enfrentamento à crise climática sob as perspectivas de gênero, raça, etnia e território

Publicado em 18/06/2026 18:03Modificado há um dia
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Participantes se dividiram em quatro grupos de trabalho para aprofundar temas considerados centrais para a elaboração de propostas
Durante a abertura, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, destacou conceitos de justiça climática e justiça social Fotos: Marla Galdino e Magi

Representantes de movimentos sociais, comunidades tradicionais, juventudes, pesquisadores, parlamentares  e gestores públicos se reuniram na quarta-feira (17), no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB), para a etapa Cerrado das Plenárias das Mulheres e Juventudes nos Biomas Pós-COP30. O encontro encerrou o ciclo nacional de escutas nos seis biomas brasileiros e resultou em propostas que serão incorporadas ao documento Vozes dos Biomas, com recomendações essenciais para políticas públicas de enfrentamento à crise climática sob as perspectivas de gênero, raça, etnia e território. 

A realização do evento é do Ministério das Mulheres, em parceria com a Secretaria-Geral da Presidência da República, por meio da Secretaria Nacional de Juventude, com apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), do Conselho Nacional da Juventude (Conjuve) e da Jovem Campeã Climática da Presidência da COP30 (PYCC). 

Durante a abertura, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, destacou um avanço histórico: pela primeira vez, a perspectiva de gênero foi incorporada ao Plano Clima do Governo Federal. Segundo ela, mulheres, povos indígenas, comunidades tradicionais e a população negra vivenciam os impactos das mudanças climáticas de forma desigual e, por isso, precisam estar no centro das respostas construídas pelo Estado. 

Márcia Lopes também relacionou os conceitos de justiça climática e justiça social, defendendo firmemente o combate à pobreza, ao racismo, ao machismo, à transfobia, à homofobia e a todas as formas de discriminação. Ela reforçou a urgência de ampliar a presença feminina nos espaços de decisão para fortalecer as políticas de proteção social e o enfrentamento à violência de gênero. 

“Não haverá justiça climática sem justiça social, sem igualdade de gênero e sem o enfrentamento ao racismo. Não haverá futuro sustentável sem a participação ativa das mulheres e das juventudes”, afirmou a ministra em seu chamado à mobilização coletiva. 

Construção coletiva e propostas dos territórios 

O painel “Território, justiça climática e desigualdades” abriu a programação da manhã com debates sobre os principais desafios socioambientais do Cerrado. Especialistas, representantes do poder público e movimentos sociais discutiram como as mudanças ambientais têm alterado o cotidiano e as condições de vida das populações que vivem no bioma. 

À tarde, os participantes se dividiram em quatro grupos de trabalho para aprofundar temas considerados centrais para a elaboração de propostas. As discussões abordaram o panorama do Cerrado e as desigualdades territoriais, o papel do bioma na dinâmica climática, os caminhos para a governança e o financiamento climático e experiências locais de enfrentamento a emergências e desastres, com recorte de gênero. 

Entre as contribuições apresentadas, houve consenso sobre a necessidade de ampliar a proteção social às populações atingidas por eventos extremos e de incorporar os conhecimentos de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais às políticas públicas. Também entraram na pauta experiências desenvolvidas nos territórios, como hortas comunitárias e ações de educação ambiental, além de medidas mais rígidas de proteção ao Cerrado diante dos efeitos do agronegócio e do uso de agrotóxicos. 

As propostas incluem a criação de comitês comunitários para prevenção e resposta a emergências climáticas, maior participação de mulheres e jovens nos espaços de decisão e a formação de novas lideranças locais. Ao final, as contribuições foram reunidas em uma plenária de síntese, que consolidou prioridades políticas e definiu encaminhamentos para as próximas etapas do processo. 

Participação social 

Para a secretária nacional de Juventude, Vitória Genuíno, o conjunto de propostas construído ao longo das plenárias expressa o compromisso do governo federal com a participação social. “A ideia é que a gente possa pressionar o Estado, o governo e a sociedade com o que foi falado e acumulado nessas plenárias, para avançar nas políticas em torno da questão do meio ambiente”, afirmou. 

A coordenadora-geral de Participação Social e Ações Climáticas do Ministério das Mulheres, Ana Lúcia Souza Pinto, chamou atenção para os riscos de uma transição energética que não considere os direitos humanos. “Mesmo quando falamos de energia renovável e de uma economia de baixo carbono, se não colocarmos as mulheres na centralidade, teremos uma energia limpa que continuará violentando e retirando direitos”, alertou. 

Ela também destacou um dado que evidencia as desigualdades de gênero na agenda climática: embora estejam entre as mais afetadas pela crise do clima, as mulheres acessam menos de 10% dos recursos disponíveis nos fundos climáticos globais. 

A representante do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), Florbela Fernandes, também defendeu a mobilização social para defesa dos biomas brasileiros.    

Vivências e saberes que mantêm o Cerrado vivo 

Para além dos debates institucionais, a plenária foi marcada pela força dos relatos de quem vive o Cerrado no dia a dia. Na comunidade Kalunga, em Cavalcante (GO), a cozinha de Solange Clemente da Silva se transformou em um espaço sagrado de preservação da memória e de geração de renda. Afro-indígena, ativista e guardiã de conhecimentos ancestrais, ela promove vivências gastronômicas baseadas em receitas que aprendeu na infância. 

“Eu não me rendi ao gourmet. Faço a comida do jeito que fui criada. Essas sabedorias não se ensinam em sala de aula; elas são vividas e passadas de geração em geração”, contou Solange, que completou defendendo que a autonomia financeira é indissociável da emancipação: “Não existe empoderamento feminino sem renda financeira”. 

A professora do Instituto Federal de Goiás (IFG) e doutoranda da UnB, Andrea Alves do Prado, compartilhou a experiência de assessoria sociotécnica desenvolvida junto às comunidades quilombolas em Goiás. O projeto realiza oficinas, rodas de conversa e apoia a elaboração de planos de gestão territorial e ambiental geridos pelas próprias comunidades. 

“Quem hoje defende o território é quem está nele. Nosso papel é apoiar esse processo e ajudar a organizar as demandas a partir do conhecimento que as próprias comunidades já possuem”, explicou Andrea, ressaltando que o período pós-COP30 é a janela decisiva para transformar debates em ações permanentes. 

O papel dos jovens na defesa do bioma  

A juventude também mostrou que o Cerrado tem defensores atentos para o futuro. O engenheiro ambiental e ativista Igor Gonçalves, do Movimento Kizomba, relembrou que sua trajetória começou ainda na UnB, ao perceber que o bioma era frequentemente secundarizado nas discussões ambientais. 

Desde então, ele somou forças em mobilizações pela Chapada dos Veadeiros e na articulação contra a instalação de uma termelétrica na região do Rio Melchior, no DF. “É uma luta dentro e fora das cidades para preservar o Cerrado, que tem importância estratégica para o Brasil por abrigar nascentes que abastecem rios de todo o país e por contribuir para a adaptação às mudanças climáticas”, explicou Igor, reforçando o recorte social: “Num país tão desigual como o Brasil, não existe debate sobre mudanças climáticas sem um recorte de raça e de gênero.” 

A renovação dessa luta estava representada nas estudantes Daniela e Mariana, ambas de 14 anos e alunas do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 104 Norte, no Plano Piloto de Brasília. Para as adolescentes, a plenária trouxe à tona temas urgentes que passam longe do cotidiano escolar, despertando o senso de responsabilidade. 

“Daqui a um tempo tudo isso vai ficar nas nossas mãos. Se a gente não cuidar agora, vai piorar”, alertou Daniela. Mariana concordou, destacando o impacto do aprendizado: “Participar dessas mesas é importante porque a gente aprende assuntos que não aprende no dia a dia”, concluiu. 

Sobre o Cerrado  

Considerado o segundo maior bioma do Brasil e da América do Sul, o Cerrado se estaca por sua riquíssima biodiversidade de savana. O bioma cobre predominantemente a região central do país e se estende até áreas da Amazônia e do Nordeste, estando presente no Distrito Federal e em 13 estados brasileiros: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, Pará e Amazonas. 

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