Na Caatinga, mulheres transformam trabalho, resistência e cuidado em soluções para o clima
Em Caruaru (PE), agricultoras e lideranças comunitárias mostram como agroecologia, organização coletiva e permanência no campo podem contribuir para enfrentar a crise climática com igualdade de gênero

As vozes da Caatinga ocuparam o Assentamento Normandia, em Caruaru (PE), durante a Plenária Mulheres e Juventudes nos Biomas Pós-COP30 – Etapa Caatinga, no último dia 27 de maio. Agricultoras familiares, jovens rurais, representantes de movimentos sociais e comunidades tradicionais se reuniram para discutir os impactos da crise climática no semiárido e apresentar propostas que nascem da vida concreta de quem vive e trabalha no território.
No Centro de Formação Paulo Freire, as discussões ganharam forma a partir da experiência de mulheres que convivem diariamente com a seca, cultivam a terra, cuidam da produção e sustentam redes de solidariedade em suas comunidades.
Permanecer no campo e transformar a realidade
Do Sítio Reinado, também em Caruaru, Daniela Amara da Conceição, da Associação de Mulheres Agricultoras do Reinado (AMAR), compartilhou uma mudança que tem transformado a vida da comunidade: a permanência de jovens no campo impulsionada pela agricultura familiar e pelo acesso a projetos voltados às mulheres.
Durante muito tempo, conta ela, a perspectiva de trabalho parecia estar longe dali, concentrada nas grandes cidades. Aos poucos, esse cenário começou a mudar.
“Agora a gente pode plantar e vender aquilo que produz no lugar onde vive. Não precisa sair do sítio para procurar oportunidade fora”, relatou.
Filha de agricultores e moradora da comunidade desde a infância, Daniela também falou sobre o vínculo com a Caatinga e rebateu a ideia de que o bioma é improdutivo.
“Muita gente diz que na Caatinga não vai dar nada porque é muito seco. E a gente provou que dá, sim. Com pouca água e com dificuldade, a gente segue plantando. Nunca deixou de plantar.”
Para ela, participar de um debate nacional sobre clima e desenvolvimento sustentável tem efeito direto na vida de quem vive no território. A presença crescente das mulheres nesses espaços, afirma, já se traduz em projetos e novas possibilidades para as comunidades rurais.
Mulheres que cuidam do território
Entre as participantes da plenária estava Maria Margarida dos Santos, conhecida como Tita. Filha de agricultores, ela começou a trabalhar no campo aos sete anos e hoje acompanha de perto a realidade das trabalhadoras rurais da região a partir de sua atuação no Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município. Na plenária, levou a experiência de uma vida inteira trabalhando na agricultura e defendeu que as mulheres devem estar no centro do debate sobre o futuro do semiárido.
Na plenária, levou a experiência de uma vida inteira dedicada à agricultura e defendeu que as mulheres devem ocupar lugar central nos debates sobre o futuro do semiárido.
“A importância de dar voz às mulheres nesses debates é muito forte, porque a gente cuida do lar, da família, dos filhos e precisa também trabalhar o reflorestamento em nossas comunidades para ter uma qualidade de vida melhor”, afirmou.
Tita contou que divide sua rotina entre a criação de animais e o cultivo da terra. Para ela, encontros como esse ajudam a ampliar a visão de mundo e a conscientização das mulheres do campo. “É um momento de ganhar conhecimento, trocar experiência e vivenciar realidades diferentes. Isso faz toda a diferença,” disse.
Agroecologia, produção e solidariedade
As discussões realizadas durante a plenária também dialogam com experiências já consolidadas no Assentamento Normandia, onde ocorreu o encontro. Uma delas é a atuação da jovem Géssica Vitória, integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da coordenação da cooperativa local.
Mulher negra e jovem, ela acompanha iniciativas que unem produção de alimentos saudáveis, recuperação ambiental e organização comunitária por meio da agroecologia. No assentamento, os sistemas agroflorestais combinam diversidade produtiva com recuperação ambiental, fortalecendo a relação entre as famílias agricultoras e o território.
“É muito simbólico poder colocar nossas pautas e fazer com que nossas vozes sejam ouvidas, nós mulheres do campo. A agroecologia, para nós, é produção, organização coletiva e também transformação social”, disse.
Essa produção, frisa a jovem, também chega a quem precisa. Parte dos alimentos beneficiados pela cooperativa, como macaxeira e cuscuz de milho crioulo agroecológico, foi destinada a famílias atingidas pelas recentes chuvas no Recife.
Cronograma nacional
A plenária da Caatinga é uma das etapas da série nacional de encontros promovidos pelo Ministério das Mulheres, em parceria com a Secretaria-Geral da Presidência da República, por meio da Secretaria Nacional de Juventude, com apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) e da Presidency Youth Climate Champion (PYCC).
A iniciativa já percorreu quatro biomas brasileiros: Mata Atlântica, com encontro realizado no Rio de Janeiro (RJ); Pantanal, em Campo Grande (MS); Amazônia, em Belém (PA); e Caatinga, em Caruaru (PE). As próximas etapas vão discutir as demandas e os desafios das populações que vivem em outros dois biomas do país: Pampa, em Porto Alegre (RS), e Cerrado, em Brasília (DF).